Os reis Capetos

Paris, os reis capetos

Os reis Capetos

A vida em Paris na época dos reis capetos

Em 987, Hugo Capeto, filho do mais rico dos nobres franceses, foi eleito rei na cidade de Senlis, dando origem à dinastia dos Capetos. Nessa época, o que se chamava de França era um grupo de ducados reunidos sob um rei e limitava-se mais ou menos à área que corresponde hoje à Île-de-France.
Como outras cidades medievais da Europa, Paris era suja, com cães, porcos e galinhas soltos pelas ruas. Só em 1131, quando o filho do rei Luís VI morreu ao cair de um cavalo que se assustou com porcos na rua, passou a ser proibido deixar esses animais em liberdade nas vias públicas. A largura média das ruas era de apenas três metros! Não havia normas de construção ou de alinhamento dos imóveis; cada um erguia sua casa onde bem quisesse. Os animais ocupavam o andar térreo e as pessoas moravam no andar de cima, dormindo todas num mesmo cômodo, em total promiscuidade. Não havia banheiros e os dejetos eram simplesmente jogados pela janela, formando um barro fedorento que se juntava principalmente na parte central da rua, mais baixa. Embora não existissem calçadas, as laterais eram mais altas e limpas, mas reservadas “às pessoas de mérito” — os nobres.

O renascimento comercial e urbano de Paris

A era dos reis Capetos foi importante para Paris, que retomou seu desenvolvimento nos séculos XI e XII com um significativo renascimento comercial e urbano.
Estabelecidos na Île de la Cité, os monarcas administraram uma cidade próspera, graças ao comércio fluvial que também gerava bons impostos.
Em 1163, começou a construção da Catedral de Notre-Dame. Por um édito real de 1170, as corporações mercantis da Rive Droite obtiveram o privilégio de exclusividade do comércio pelo rio Sena.
Já havia uma estreita associação entre a realeza e a burguesia na administração municipal, mas essa ligação foi particularmente importante durante o reinado de Felipe Augusto.

A Paris de Felipe Augusto

Sob Felipe Augusto (1180-1223), Paris, com uma população de 80 mil habitantes, tornou-se um dos principais centros comerciais e culturais da era medieval. O soberano mandou erguer uma muralha para proteger a cidade (da qual ainda existem vestígios), construiu a fortaleza do Louvre e criou o mercado de Les Halles. Algumas de suas atitudes foram, porém, bastante questionáveis, como a expulsão dos judeus da Île de la Cité em 1182, para onde só voltariam em 1198 mediante o pagamento de altas taxas.
Consta que o rei, ao observar uma charrete que passava embaixo de sua janela, ficou tão impressionado com o mau cheiro provocado pelo veículo ao afundar as rodas na lama imunda que resolveu ordenar a pavimentação das principais ruas da cidade.
Em 1215, ainda sob o reinado de Felipe Augusto, foi fundada a primeira universidade de Paris. Assim, se a Île de la Cité era a sede do poder político e, a Rive Droite, o pólo comercial, o Quartier Latin, na Rive Gauche, passou a ser o centro intelectual da cidade, um dos mais importantes da Europa.
Um detalhe urbanístico interessante: apesar da sujeira, Paris era nessa época toda branca, uma vez que as casas eram construídas com pedras claras e madeirame cruzado no estilo colombage, com os vãos preenchidos por alvenaria e argamassa. Esse estilo existe ainda hoje na Normandia e na Alsácia. Nos tempos de Felipe Augusto, as casas passaram a ter brasões de identificação. A numeração só foi instituída bem mais tarde, no início do século XIX.

Penúria e relíquias

Nessa época, muitas pessoas não dispunham sequer de uma camisa de algodão, mas somente de uma veste de lã, que muito raramente era lavada. Em Paris, como em toda a Europa, usavam-se roupas costuradas no corpo ou fechadas por meio de laços. O botão, introduzido a partir do século XII, foi inicialmente considerado uma vulgaridade e um convite ao pecado. (Isso porque eles não conheciam o zíper!)
São Luís
Durante o reinado de Luís IX (1226-1270), canonizado como São Luís, Paris foi aos poucos ganhando construções mais sofisticadas. Foram erguidos diversos hôtels particuliers (palacetes) pela nobreza e pelo alto clero, além de igrejas como a de St-Julien-le-Pauvre. Consta que o piedoso São Luís comprou diversas relíquias de bizantinos que, com seu tino comercial, devem ter enchido os cofres.
Entre elas, estava a pretensa coroa de Cristo. Possuir relíquias tão importantes representava um grande prestígio, tanto para uma abadia ou igreja quanto para um monarca ou uma cidade, uma vez que elas eram consideradas uma fonte de proteção divina. A autenticidade dessa coroa (que teria custado mais caro do que a própria Sainte-Chapelle) é mais do que discutível, já que nessa época havia um abundante comércio de relíquias, a esmagadora maioria delas falsas. Vendia-se de tudo: pedaços da cruz em que Cristo foi crucificado, fios de seus cabelos, pedaços de ossos de santos, dentes de Cristo quando criança e até leite da Virgem Maria… Mas, como diria Pirandello: “Assim é, se lhe parece”. As superstições medievais, diga-se de passagem, não se limitavam às relíquias. Na Idade Média os parisisenses não eram muito diferentes dos demais povos europeus e acreditavam em “forças do mal”, em pregadores religiosos anunciando o fim do mundo, em magos e em alquimistas. (Hoje, como sabemos, ninguém mais acredita nessas coisas…).

Felipe, o Belo, e os templários

Os religiosos mais poderosos e ricos de Paris eram os templários, estabelecidos no Marais desde 1140. Seu território, equivalente ao de uma pequena cidade, tinha por sede uma gigantesca abadia fortificada e autosuficiente na região das atuais rues du Temple e Vieille du Temple, sobre a qual o rei não tinha nenhum controle. Para se apossar dos bens dos templários e ao mesmo tempo livrar-se daquele incômodo poder paralelo, o rei Felipe, o Belo, conseguiu aprisionar seu grão-mestre e outros importantes membros da ordem. Em um processo nada imparcial, eles foram acusados de idolatria, apostasia e sodomia e condenados à fogueira por um tribunal da Inquisição. Pouco antes de ser executado com seus companheiros, em 1314, na atual Place Dauphine, o grão-mestre Jacques de Molay lançou uma maldição sobre o rei: ele logo morreria e a dinastia dos Capetos se extinguiria sem descendentes.
Não deu outra; o rei morreu alguns meses depois, ao cair de seu cavalo, e seus dois filhos mais velhos foram traídos pelas mulheres. Os amantes também foram queimados vivos, mas esse ato de pura vingança de nada adiantou, pois a descendência real ficou desacreditada. Muitas águas rolaram até que, em 1328, o último filho de Felipe, Carlos IV, morreu sem deixar nenhum descendente do sexo masculino, e a coroa passou às mãos de seu primo, Felipe V, que deu início à dinastia dos Valois.
Mas parece que a praga não parava aí; às vésperas da peste negra, em 1348, a população de Paris era de aproximadamente 200 mil pessoas. Menos de um século depois, esse número havia caído pela metade. A Guerra dos Cem Anos, travada com a Inglaterra, ajudou a provocar essa queda.
¨ Para saber tudo o que aconteceu nesses 14 anos de maldição, leia Os Reis Malditos, de Maurice Druon.