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Visitantes do Red Fort, Delhi
Impressões de Delhi. Visitantes do Red Fort, Delhi

Impressões de Delhi

Continuação do relato sobre a viagem de 3 brasileiros pela Índia

Para prosseguir a viagem até Delhi, nossos viajantes, Melina, Chico e Barão, optaram mais uma vez, com sabedoria, pelo carro com motorista. Dessa vez, conseguiram um modelo mais moderninho, que lembra um pouco o Uno, chamado Índico, feito pela TATA, um dos maiores grupos industriais da Índia.

Delhi fica a somente 280 km de Jaipur, mas o trânsito é intenso, principalmente na saída de Jaipur, onde há trechos em que se perde dez minutos para percorrer uma centena de metros. Como o motorista era particularmente lerdo, demoraram sete horas para chegar à capital.

Mapa da Índia

Impressões de Delhi: a Nova e a Velha Delhi

Cidade grande, também com um trânsito infernal (apenas um pouquinho melhor do que o de Jaipur), é dividida em Nova Delhi e Velha Delhi. A primeira, moderna, foi planejada pelos ingleses durante o período colonial para ser capital da Índia, enquanto a Velha Delhi, é muito mais antiga, anterior ao domínio mongol.

Sem muita paciência para procurar hotel, acabaram se instalando na YMCA (Associação Cristã de Moços), que tem quartos por 66 dólares. Apesar do jantar estar incluído na diária, os três sentiram que havia opções mais interessantes no que refere a preço e qualidade. A vantagem da YMCA é sua localização, perto da Connaugth Place, o antigo centro colonial de arquitetura inglesa.

Vídeo sobre Delhi

Nas proximidades, entretanto, há uma infinidade de arranha-céus e diversos edifícios modernos em construção. A impressão que tiveram é que a capital indiana está mergulhada numa verdadeira febre de construção de edifícios modernos, que está mudando o seu perfil.

Red Fort

As principais atrações turísticas de Delhi, que realmente valem a pena de serem visitadas, são o gigantesco Red Fort (Forte Vermelho), da época dos mongóis, onde os ingleses se refugiram quando da revolta dos sipáios (soldados nativos) em 1860, e a mesquita Jama Masjid, cujas enormes torres destacam-se contra o céu.

A Jan Path Road

Na Jan Path Road, uma das ruas mais conhecidas de Nova Delhi, que começa na Connaugth Place, nossos amigos encontraram um dos mais completos mercados de artesanato do país. Há lojinhas de todo tipo, uma ao lado da outra. O problema é que cada compra exigia uma interminável barganha, uma vez que cada vendedor pedia o que queria. Chegar ao preço justo demorava… Seu tempo era curto. Não era possível passar horas barganhando! Também não estavam muito seguros de que não lhes vendessem gato por lebre (ou, mais precisamente, plástico por turquesa, metal branco por prata ou curvim por couro…). Optaram por fazer suas compras em uma enorme loja do governo indiano que fica na mesma rua, o Center Emporium, que tem preços fixos e produtos de qualidade garantida.

Agra

O fim da etapa indiana da viagem estava se aproximando, mas eles não podiam deixar de ir até Agra, relativamente perto de Delhi, para, no mínimo, ver o Taj Mahal. Descobriram que, embora o trem fosse mais rápido, teriam que comprar a passagem com antecedência em uma estação longe do centro e voltar novamente no dia seguinte de madrugada para embarcar. Optaram por uma pequena excursão: eles e mais um pequeno grupo iriam em uma van com motorista, que viria buscá-los no hotel bem cedo pela manhã e o trariam de volta à noite. A viagem até Agra levou umas quatro horas, por causa do trânsito intenso, mas a van era confortável e, além do motorista, havia um guia muito bem informado.

Como todo mundo, os três acharam o Taj Mahal espetacular; afinal, construído por um poderoso monarca mongol para abrigar o túmulo de sua esposa, ele é uma das maravilhas do mundo.

Para o Chico, a maior surpresa de Agra não foi o Taj Mahal, do qual já tinha visto inúmeras fotos, e sim o Forte de Agra, sobre o qual nunca tinha ouvido falar. Ele gostou demais do lugar, pela imponência e pela rica arquitetura. Agra é também famosa por suas esculturas em mármore, muitas vezes com incrustações em diversos tons. Os ateliês, que são também lojas, podem ser visitados.

O casamento e a situação da mulher

A maior parte dos casamentos ainda é arranjada entre as famílias, com aparente boa aceitação dos noivos. “É a mãe quem geralmente escolhe o marido para a filha, ou a esposa para o filho”. Melina ficou surpresa ao saber do peso que tinha nessa escolha o cruzamento do mapa astral dos pretendentes e a opinião do palmist, que lê suas mãos. Ela também observou que na Índia as mulheres das castas baixas realizam muitos serviços pesados: você as vê nas construções carregando cestos de tijolos na cabeça, ou trabalhando nas plantações.

A essas mulheres são destinados trabalhos que as coloquem em contato com o menor número possível de pessoas, de preferência com outras mulheres. Elas não são vistas trabalhando em restaurantes ou hotéis, por exemplo. As exceções ficam por conta de moças de famílias menos conservadoras, que tenham estudos universitários ou outro tipo de vivência mais ocidentalizada.

Trilha Inca, Wiñy Wayna Foto Alberto - CCBY
A experiência da Trilha Inca, Wiñy Wayna Foto Alberto – CCBY

 Trilha Inca até Machu Picchu: uma grande aventura

(por Gisele Bruhns Libutti)

Éramos três: eu, meu irmão Rogério e sua amiga Cíntia. Fizemos a reserva com a agência que nos guiaria até Machu Picchu com 3 meses de antecedência, pois agora há um limite de visitantes para entrar na reserva e muitos viajantes que chegam na última hora não conseguem fazer a trilha. Nossa guia foi indicada por um amigo que já foi três vêzes a Machu Picchu e não nos arrependemos: Marisol é uma peruana super simpática, mas antes de tudo, muito profissional e atenciosa. Demonstrou durante a viagem muito conhecimento sobre a história e geografia locais, além do jogo de cintura para lidar com situações imprevistas.

Chegando a Cusco no dia 18 de maio, após nos instalarmos numa confortável pousada, fizemos contato com Marisol. À noite, seu marido e sócio veio até nós para dar explicações sobre a trilha que iríamos percorrer durante os próximos 4 dias e 3 noites.
No dia seguinte, bem cedo, vieram nos buscar em um ônibus no qual estavam já nossos outros companheiros de trilha: duas paulistas e um carioca, além do pessoal que carrega toda a tralha, os porteadores.

Vídeo: a Trilha Inca

Ollantaytambo

Rumamos até Ollantaytambo, onde compramos nossos cajados. Todos os trilheiros costumam usá-los como auxílio na caminhada e os nativos vendem esses cajados de bambu ou madeira, com alguma decoração de bordados típica. Não é preciso dizer que no final da viagem só resta a madeira lisa… Aproveitamos para ir ao banheiro. Qual não foi minha surpresa quando, ao entrar, olhei para a esquerda e vi alguns homens fazendo xixi em mictórios! Dei dois passos para trás, imaginando ter entrado por engano no banheiro masculino, mas não! De fato os dois banheiros eram juntos: as “cabines” femininas ficavam logo em frente à entrada; virando à esquerda estavam os mictórios e no fundo as “cabines” para os homens… Coisas com as quais rapidamente nos acostumamos nesse tipo de viagem.

Dali fomos até o ponto de partida para a trilha. Os porteadores haviam montado uma barraca e preparado o almoço. Iniciamos a viagem com uma foto do grupo sob o portal de partida. Caminhamos 4h até chegar ao primeiro acampamento de apoio. A primeira coisa que nos impressionou foi a quantidade de coisas que carregam os porteadores, com resistência e rapidez. Parecem pequenas formigas carregando folhas gigantes! Nós, os trilheiros, levamos mochila, saco de dormir e isolante. Os porteadores carregam as barracas onde dormimos, a barraca usada para fazer as refeições, banquinhos, pratos, talheres e toda a comida dos 4 dias de caminhada.

Primeira noite

Chegamos ao acampamento no finzinho de tarde e logo anoiteceu. Os porteadores já haviam montado nossas barracas e em pouco tempo foi servido o jantar. Muita comida!
Não havia chuveiro e o banheiro era um barraquinho de madeira com um buraco no chão… Nessa noite passei um pouco de frio, seguindo o conselho que me deram: dormir apenas de lingerie dentro do saco! Depois conclui que o melhor é se encher de roupa para dormir.

Chá de Coca pela manhã

Todos os dias os porteadores nos acordavam cedíssimo com uma caneca de coca té (chá de coca) na porta da barraca. Então nós tinhamos que “arreglar” nossas coisas rapidamente antes de tomar o desjejum, que já estava prontinho nos esperando.
O 2º dia foi o mais longo e puxado. No caminho já se podia parar para visitar algumas ruínas, onde a guia deu explicações. Guilherme, o carioca do grupo, havia se adiantado e já estava no acampamento quando chegamos, no final da tarde. Ali havia mais estrutura e foi onde encontramos outros grupos de trilheiros. Fazia um frio danado e só havia água gelada no chuveiro. O carioca me disse que tinha tomado um banho e se sentia renovado. Resolvi fazer o mesmo. Mesmo com uma lanterna, foi com muito custo que consegui encontrar o chuveiro naquela escuridão… O resto do grupo preferiu passar mais um dia sem banho.

O terceiro dia

O 3º dia também foi muito puxado. Apesar de a distância percorrida ser menor, havia muitas subidas e descidas íngremes. A paisagem era sempre deslumbrante e durante o dia costumava fazer até calor. O mais impressionante, no entanto, foi visitar as ruínas incas, saber um pouco de sua riquíssima e misteriosa história e comparar com o que se tornou esse povo nos dias de hoje.
Chegamos exaustos ao 3º acampamento! Mas ali havia um alojamento com um restaurante, banheiros mais confortáveis e… banho quente! (É lógico que se paga 5 soles por esse pequeno conforto). Estavam nesse lugar muitos outros grupos, com estrangeiros de lugares diferentes, alguns até bem festivos.

Quarto dia: Machu Picchu!

Acordamos às 4h da manhã, tomamos rapidamente o café e partimos. Nesse ponto os porteadores nos deixaram. Eles nunca entram em Machu Picchu. Recolhem toda a tralha e descem por uma trilha até Aguas Calientes, onde tomam um trem especifico para eles de volta a Cusco. É costume fazer uma “vaquinha” entre as pessoas do grupo para dar uma gorjeta aos porteadores.
A caminhada até Machu Picchu foi bem mais tranquila que todo o precedente. Apenas 2h. Mas, nesse ponto da viagem, as pessoas costumam estar bem cansadas.

A porta do Sol

Chegamos à Porta do Sol, um portal de passagem ao local de onde se vê a famosa paisagem da maioria das fotos de Machu Picchu. Esse foi o momento mais emocionante de toda a viagem! Todos os grupos pararam para curtir a paisagem e tirar fotos. Havia muita névoa no local, atrapalhando um pouco a clássica visão da montanha de Huayna Picchu, mas ainda assim foi possível usufruir do cenário. Enfim, entramos em Machu Picchu.

A guia deu uma preleção geral sobre o local e sua história e em seguida passamos a caminhar por entre as ruínas, onde ela ia detalhando e explicando melhor sobre cada lugar. Após um breve descanso, tomamos o ônibus que desce até Águas Calientes, onde almoçamos. Às 16h tomamos o trem e depois baldeamos a um ônibus que nos levou de volta a Cusco. Cansadíssimos, mas realizados!

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Viagem pelo Valle del Colca

Para visitar o Vale do Colca (ou Valle del Colca), no Peru, optamos por participar de um grupo que sairia de Arequipa pela manhã. O ônibus, relativamente confortável, estava quase lotado. Havia peruanos de Lima, mas a maioria era composta por franceses, italianos, americanos, alemães, israelenses (curiosamente, nenhum japonês, desta vez) e nosotros, brasileiros.

O comprimido conta El soroche

O primeiro pit-stop foi num bar na saída da cidade. A afirmação de Vicky, a guia do grupo, de que a próxima parada seria somente dali a 2h30 gerou uma fila na porta do toalete. Depois de avisar que passaríamos por lugares muito altos, um dos quais a 4.910m acima do nível do mar, ela recomendou que o pessoal comprasse balas de coca (de gosto meio sem graça) vendidas no pequeno armazém, que aliviam os sintomas do mal de altitude. Escolados com lugares altos, já tomáramos no hotel nosso comprimido contra o soroche.

O altiplano

 Ter escolhido partir ao amanhecer nos permitiu apreciar a paisagem durante toda a viagem. Arequipa é linda, mas sua periferia é muito feia, com casinhas de adobe sobre terreno estéril. Depois as casas somem, começa a subida até o Altiplano. Não existem árvores. Só pedras e, em alguns lugares, pastos ressequidos. Como pano de fundo, estão os cumes brancos de vulcões. O resultado é tão diferente que você se sente em outro planeta.

Alpacas e lhamas

Num dado momento, o motorista encostou o veículo junto de um campo onde pastavam lhamas e alpacas. Como nossos assentos ficavam bem na frente do ônibus, fomos os primeiros a descer e conseguimos boas fotos dos animais. Quando o pessoal desceu e começou a invadir a pastagem, os bichos fugiram. A segunda parada foi numa lanchonete junto da qual estavam estacionados outros ônibus. Conseguir comprar um sanduíche naquele local lotado de “gringos” foi uma proeza. O banheiro era minúsculo mas, felizmente, limpo.

O frio bravo

Esfriava cada vez mais; um frio incomum em setembro. Ao chegarmos ao Altiplano, começou a nevar; apenas uns floquinhos leves que, embalados pelo vento, dançavam na nossa frente. Aos poucos a neve ficou mais forte e, ao chegarmos ao ponto mais alto da estrada, onde montinhos de pedras empilhadas homenageavam Pachamama, enfrentamos uma nevasca. Para surpresa nossa, dois bonecos de neve decoravam o lugar. O motorista parou uns minutos, mas a maioria do pessoal não se atreveu a por o nariz para fora, naquele frio e numa altitude de quase 5.000m. Eu não quis perder a paisagem surrealista: criei coragem e desci com mais quatro estrangeiros. Mesmo estando muito bem agasalhado senti que não poderia ficar muito tempo fora do ônibus: frio combinado com altitude é a fórmula certa para a dor de cabeça violenta do soroche. Fiz as fotos e senti um alívio ao voltar para o interior do veículo, me perguntando quem teria sido o maluco que fez os bonecos.

A estrada junto a um abismo

Na descida do Altiplano em direção ao vale, a estrada é estreita e passa ao lado de abismos. Enquanto você ainda consegue ver um pedaço da estrada, tudo bem. O que realmente assusta é quando olha e só vê um imenso abismo a seu lado… Antes de chegarmos a Chivay, a principal cidadezinha do Vale do Colca, ainda no Altiplano, estacionamos em um mirante. À nossa frente, em um vale coberto de pesadas nuvens cinzas, estava o povoado, rodeado de campos semeados.

Chivay

Na entrada da cidade, paramos numa espécie de pedágio, onde pagamos taxa de entrada no vale. O hotel era simples, mas o melhor de Chivay. Tinha quartos com banheiro privativo, água quente de verdade e calefacción: um aquecedor a gás. Mesmo assim, o aposento estava gelado e demorou até o pequeno aparelho esquentar o local.

E a nevasca continua

Lá fora, a neve continuava a cair, pintando de branco o lugarejo. Estávamos nos sentindo no fim do mundo. O frio era tal que entramos de roupa e tudo debaixo de cobertores e só saímos quando a temperatura do quarto se tornou mais agradável. Quando saímos à rua, a cidade estava completamente branca e linda: a igreja, as árvores da pracinhas. O chão, porém, estava úmido e com barro, não muito cômodo para andar.

Jantar fraquinho

O jantar com músicas típicas peruanas (incluído no preço da excursão) foi fraquinho. Os músicos também não eram nenhuma maravilha, mas ninguém ligou, uma vez que tínhamos que dormir relativamente cedo, pois seríamos despertados às 5h da manhã. No dia seguinte tomamos café vendo ainda a neve cair. Por sorte, o tempo mudou: parou de nevar e o céu clareou. O passeio até a Cruz del Condor incluiu paradas em vários lugarejos. Em absolutamente todos haviam cholas vendendo artesanato. Num deles compramos um par de luvas de lã de alpaca; eu esquecera as minhas em Arequipa.

Video com a música “El Condor Pasa”

O canyon del Colca

 Em todo o caminho as paisagens eram não apenas “bonitas”, mas incomuns, com plantações em terraços forrando o vale, lagunas de águas de diferentes tons, o canyon profundo formado pelo Colca e picos nevados rodeados de nuvens. A Cruz del Condor é um promontório com uma visão privilegiada do Canyon onde, uma centena de metros mais abaixo, condores esperam em seus ninhos as correntes de ar quente para iniciar sua subida às alturas. Ou seja, inicialmente você os vê de cima. O ponto onde estávamos é o lugar perfeito para fotografar essas aves, que têm quase 3m de envergadura e vão planando em círculos, impulsionadas por correntes térmicas ascendentes. Algumas passavam logo acima de nossas cabeças. Como eram muito velozes, era difícil “capturá-las” no tempo certo. As melhores fotos foram obtidas com zoom a uma distância um pouco maior.

De volta a Chivay

Voltamos a Chivay para almoçar. O buffet self-service para turistas era bem fraquinho: sopa, macarrão, frango, batatas gordurosas, uma salada crua que poucos se atreveram tocar…  A viagem de volta para Arequipa nos pareceu mais cansativa do que a de ida até Chivay. As duas noites em que fomos obrigados a acordar de madrugada e as muitas horas dentro do ônibus e em lugares de altitude foram fatigantes. Mesmo assim foi uma experiência que recomendo em razão das paisagens incomuns, que por si só valem a viagem.

Informações práticas

Como ir

Há voos diretos de São Paulo para Lima e de lá conexões para Arequipa (de onde saem as excursões para o Vale do Colca).

Veja passagens aéreas e pacotes

Onde se hospedar no Valle del Colca

Escolha e reserve seu hotel em Chivay

Escolha e reserve seu hotel em Arequipa (de onde partem as excursões para o Valle del Colca)

Melhor época

Veja dicas sobre a melhor época para ir ao Peru

A Vaca na Estrada: a Ásia como nunca se viu

Uma mega-aventura por desertos, montanhas, planícies, aldeias e cidades da Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão, Índia e Nepal. Relatos de experiências ímpares, que não seriam possíveis no mundo de hoje. Mitos, castas, política, costumes, islamismo, Budismo, Hinduísmo, Ocidente, Oriente, guerra, paz, liberdade, opressão, vida, morte tolerância, discriminação, modernidade, violência, progresso, sonhos.

Trechos do livro

Certa tarde de verão, quando caminhávamos pelo Quartier Latin, Bernard perguntou:
— O que você acha de irmos até o Nepal de carro?
Fiquei sem reação. Ele falara num tom displicente, como se dissesse: “Que tal ir a Versalhes domingo que vem?” A ideia me hipnotizava, ia ao encontro de meus planos, era tudo o que eu queria! Desejava conhecer a Ásia, mas não tomar um avião e desembarcar na Índia. Fiquei em silêncio. Não era aventura o que eu procurava? Eu teria desejado ficar mais tempo em Paris. Um mês pelo mesmo. Mas, se não aproveitasse aquela oportunidade, quando teria outra? Iria depender de transportes públicos, viajaria sozinho e talvez gastasse muito mais. Não tomei mais do que alguns minutos para me decidir. Era pegar ou largar.
— Vamos.

Naquela ocasião, a festa tinha sido comum para os padrões brasileiros até o momento em que o noivo e a noiva se trancaram em um quarto. Ficamos sabendo que o casal fora para o quarto “consumar o ato”, conferindo validade ao casamento. Entreolhamo-nos sem entender direito o significado daquilo, até que, meia hora depois, o noivo saiu do quarto orgulhoso, com o lençol manchado de sangue, a prova da virtude da moça, de sua virgindade. Depois, o lençol foi levado à janela e pendurado para que as pessoas que passavam na rua pudessem vê-lo. Estávamos pasmos.

Anos depois, Bernard me contou que seu amigo iraniano e quase toda a turma dele foram presos pelo regime xiita ou estavam novamente exilados em Paris ou em Londres.
É triste que, seja sob os xás ou os aiatolás, pouco ou nada tenha mudado. Mais de três décadas depois, enquanto escrevo este livro, o Irã não sai do noticiário internacional, ora por suspeitas de fraudes eleitorais, ora pela prisão arbitrária e execução de oposicionistas, ora pela violência contra mulheres e homossexuais. Sem falar na polêmica questão nuclear, que dá pano para manga.

Mulheres afegãs eram raras, sempre com o rosto coberto com um véu na altura dos olhos, ou ainda, o corpo inteiro escondido, da cabeça aos pés, sob uma vestimenta negra, a burca. Não havia nem mesmo uma abertura para os olhos, mas apenas uma renda que lhes permitia enxergar alguma coisa — ou a sombra de alguma coisa. A impressão que me causou esse apartheid sexual foi, confesso, bem desagradável. Os afegãos não perceberam que a convivência entre homens e mulheres e a liberdade da mulher é boa para ambos os sexos.
— Em meu país ninguém reclama de mulher com pouca roupa — disse eu, em tom de brincadeira, para o afegão dono do hotel onde estávamos hospedados.
— É, mas não são mulheres para casar — respondeu ele.
— Não para casar com afegãos — corrigi.

Procuramos avançar o mais rápido possível para chegar a Rawalpindi. Porém, diferentemente do que ocorria no desértico Afeganistão, no Paquistão havia gente em toda parte: nos campos, nas cidades e nas estradas, onde pessoas e animais cruzavam a via. Passávamos por aldeias e cidades superpovoadas. As ruas, os bares, os mercados e as calçadas estavam sempre lotados. Gente demais nos cansava. Preferíamos os desertos, esses grandes vazios cortados pelo vento.

Hoje os parsis são mais conhecidos no Ocidente por causa de um rito fúnebre algo macabro.

Seus mortos são depositados no topo de altas torres para serem devorados por abutres. São as sinistras Torres do Silêncio. A entrada de pessoas nos recintos parsis é proibida e só os encarregados dos corpos têm acesso ao topo das torres. Calculo que devem ter estômago forte, já que as cenas devem ser simplesmente horríveis.

Em muitas famílias, quase sempre da mesma casta, os casamentos são resultados de arranjos.
— Como você sabia que iria gostar de sua esposa, se foi sua mãe quem escolheu para você? — indaguei.
— Minha mãe sabe escolher — retrucou ele, com segurança.

Duas australianas habituées do terraço gostavam de falar de suas vidas passadas. Uma delas me garantia que, ao fazer uma regressão, descobrira que tinha sido uma princesa egípcia. A amiga dela fora uma sacerdotisa grega. Lembro-me que no final dos anos 1980 muita gente no Brasil “fazia regressão”. Virou moda. Cada “regressado” tinha lembranças de vidas anteriores como um nobre romano, uma princesa inca, um rei persa. Ninguém aparentemente tinha sido um ladrão, uma prostituta, um servo, um escravo ou um peão. Cheguei a levantar essa questão para as duas australianas, que me explicaram que a ralé não tem lembranças significativas de vidas anteriores porque essas recordações são banais. Em Katmandu, todos tinham resposta para tudo…

Ficha Técnica

1ª edição
384 páginas
ISBN 978-85-99081-15-0

Sobre o autor

Lúcio Martins Rodrigues, graduado pela Seção de Ciências Econômicas e Sociais da École Pratique des Hautes Études de la Sorbonne, em Paris, é escritor, editor, co-autor de títulos da série GTB de guias de viagem e administrador de sites de turismo. Para escrever O Ouro Maldito dos Incas, Lúcio, que não é um historiador, mas um ficcionista, realizou ampla pesquisa em fontes da época, como os relatos de Pedro Cieza de León, Felipe Guaman Poma de Ayala e Garcilaso de la Vega, nas principais biografias de Francisco Pizarro e em obras acadêmicas sobre a civilização incaica.

Viajante inveterado, já percorreu mais de 60 países nos cinco continentes, entre eles Peru e Bolívia. A história da conquista do Império Inca pelos espanhóis motivou o antigo projeto, hoje realizado, de escrever a respeito desses fatos. Sua principal aventura foi uma viagem de carro de Paris ao Nepal na década de 1970, atravessando a Turquia, o Irã, o Afeganistão, o Paquistão e a Índia. Essa e outras viagens pelo Oriente deram origem a outro livro: A Vaca na Estrada, um relato de viagem que aborda os costumes e a cultura desses países.

A Índia por brasileiros: três viajantes que rodaram o país

Amigos de longa data, os brasileiros Chico Spagnuolo, Melina Castro e José Roberto “Barão” são viajantes ávidos por novas experiências, já conhecem vários países e têm em comum uma queda por roteiros não-convencionais. Desta vez, sua proposta era ousada: visitar a Índia e o Nepal em vinte e poucos dias.

Quando retornaram, o Manual do Turista os entrevistou para saber mais acerca da visão da Índia por brasileiros.

Os voos mais econômicos: via África do Sul

Comparando os preços das passagens até a Índia, optaram por uma viagem São Paulo/Bombaim com conexão em Johanesburgo, na África do Sul, mais barato do que via Europa. Chico e Barão partiriam na frente, Melina os seguiria dois dias depois. O único senão eram o horário da conexão para Bombaim, de onde tomariam um vôo doméstico para Udaipur, já no Rajastão. Chegaram ao Aeroporto Internacional de Bombaim ao amanhecer.

A burocracia do desembarque

Seu primeiro contato com a Índia foi encarar a burocracia do desembarque, a longa fila de controle de passaportes e a alfândega. “Eletronics, cigarettes, whisky, sir?” Depois, tiveram que pegar a bagagem e seguir para outro aeroporto, do qual partem os vôos domésticos, onde embarcariam para Udaipur, seu primeiro destino no Rajastão. “Felizmente”, lembra Chico, “há um ônibus gratuito que faz a ligação entre os dois aeroportos.”

Aeroporto bem ruinzinho

Barão acrescenta que o aeroporto doméstico era ainda pior do que o internacional: “Parecia que eu ia tomar um ônibus numa estação rodoviária de algum fim de mundo no interior do Brasil”. O avião super antigo, de interior mal conservado, com bandejas de madeira e poltronas com assentos meio puídos, os fez franzir a testa. Será que aquela engenhoca era confiável? Barão diz que foi quando subiu no avião que lhe caiu a ficha: “Eu estou na Índia! “.

Em Udaipur, beneficiaram-se de um serviço simples e inteligente instituído em diversos aeroportos da Índia: o táxi pré-pago. Isso os poupou da interminável barganha que o estrangeiro deve entabular com o motorista cada vez que precisa pegar um táxi. Embora o aeroporto de Udaipur fique meio longe da cidade, a corrida não foi cara; custou algo em torno de sete dólares. A caminho da cidade, os dois se entreolharam.

Janeiro é um mês extremamente seco, Udaipur fica ao lado do deserto e, do aeroporto até lá, é uma poeira só. Para piorar, os subúrbios são sujos, com bichos vagando pelas ruas, crianças fazendo suas necessidades na beira do caminho, pessoas escovando os dentes na porta da casa com uma bacia na mão… “O que virá depois disso? ”.

A primeira coisa que fizeram foi enviar um e-mail para Melina, que estava de malas prontas no Brasil à espera de um sinal: “Chegamos, estamos em Udaipur esperando você no Hotel Lake Pichola!”.

Viagem cansativa

A viagem de Melina foi cansativa. Foram muitas horas quase seguidas dentro do avião! Mas tudo correu muito bem e, no horário esperado, ela desembarcou em Udaipur. Sozinha no táxi, olhando para fora, teve a mesma impressão que seus amigos e pensou: “O que vim fazer neste lugar? ” Como aconteceu com os dois, sua impressão foi outra quando se aproximaram da região junto do lago. Ali estava a cidade, a seus pés! Melina achou que Udaipur era não apenas bonita, mas também romântica e agradável: tinha até barzinhos com maravilhosos terraços de frente para o lago, onde podia tomar uma cerveja! (Na Índia, bares agradáveis são uma raridade.)

Udaipur

Finalmente reunidos, os três saíram para um passeio de barco pelo Pichola, a melhor maneira de admirar os belos e antigos palácios da nobreza de Udaipur, construídos nas encostas à beira do lago. O City Palace tem uma das alas ainda habitada pela família do antigo marajá e o Jagmandir é outro dos palácios à beira do lago.

O Lake Palace no lago Pichola

Bem no meio do lago, sobre uma ilha, fica o maior e mais rico deles: o Lake Palace, transformado em hotel de luxo, com diária de 250 dólares, o que, em termos de Índia, é uma pequena fortuna.

A dica dada por Chico para se conhecer o hotel por dentro e curtir a vista do lago a partir de lá é almoçar ou jantar no hotel (uns 30 ou 40 dólares por pessoa). Um dos melhores programas em Udaipur é curtir o por-do-sol em um dos cafés, restaurantes ou casas de chá nas encostas das colinas que rodeiam o lago de Udaipur, quando os contornos dos palácios recortados contra o céu avermelhado se refletem nas águas do Pichola.

Uma dica de restaurante
  • Nosso trio de brasileiros gostou principalmente do restaurante Udai Kot que, além de ter bons pratos, oferece vista panorâmica de 360º da cidade de Udaipur e do lago. “O pôr do sol era o momento mágico do dia”, explica Melina, “algo que não podíamos perder”. Barão concorda: uma das melhores recordações que levou da Índia foi o show de cores do final do dia, acompanhado pelo som das orações que parecia brotar do lago.

Passeando por Udaipur

Mas Chico, Barão e Melina não passearam só pela região em volta do lago. Perambularam pelas áreas mais pitorescas de Udaipur, quase medievais, com casinhas de janelinhas apertadas e um terraço no alto, e por bairros ricos, onde há casas de bom padrão. Mesmo ali, lembra Melina, havia animais soltos pelas ruas de terra… Em outras áreas mais movimentadas, muitas vezes com ruas relativamente estreitas, deparavam-se com elefantes dividindo o espaço com pessoas e veículos.

Acostumados a viajar, nossos três amigos fazem parte daquele grupo de viajantes atentos, que procuram entender os lugares que visitam, o povo, a arquitetura, os costumes.
Em Udaipur, os contrastes da Índia começaram a chamar sua atenção: os animais que vagam pelas ruas empoeiradas, devotos hindus fazendo oferendas em frente aos templos… e um internet café em cada esquina!

Internet

Chico ressalta que, na Índia, a presença da internet é uma constante, mais visível nas cidades menores como Udaipur. Melina, por sua vez, lembra-se de ter visto uma placa “Internet Café” em um casebre onde música eletrônica tocava no último volume.

Jagdish Temple

Outra atração que os agradou em Udaipur foi o imponente templo de Jagdish, todo decorado com esculturas em relevo. Ficaram intrigados com um detalhe: o templo parece ser grande demais para abrigar ídolos tão pequenos!

De Udaipur, pegaram um auto-rick-shaw (táxi-triciclo motorizado) até o Palácio das Monções, ali perto, onde foram filmadas cenas do filme 007 contra Octopussy. Estavam gostando da viagem. Depois de Udaipur ainda teriam muito caminho pela frente.

Vejam a continuação da viagem

O Rajastão e o deserto de Tahar

Chile, paisagem

Chile: uma aventura de São Paulo a Chiloé, no Chile

Ir de São Paulo a Chiloé de carro é uma aventura. Os irmãos Luciano e Fabiano Machado, que adoram viajar, sabem aproveitar suas milhagens. Com milhas suficientes para obter passagens para uma capital sul-americana, os dois discutiram algumas alternativas, pesquisaram na net, examinaram guias de viagem e optaram por Santiago do Chile. Estudando o mapa do Chile, uma estreita e comprida faixa de terra espremida entre o Pacífico e a Cordilheira dos Andes, que vai da Terra do Fogo, ao sul, à fronteira com o Peru, ao norte, perceberam que os 15 dias de que dispunham não seriam suficientes para visitar todo o país. Decidiram-se então pelo sul, descendo de Santiago até a ilha de Chiloé, no sul do Chile. Por serem viajantes experientes, que apreciam o turismo de aventura e costumam viajar por conta própria, resolveram alugar um carro.

Os hotéis, quase sempre caros

A primeira surpresa ao desembarcar em Santiago do Chile foi o preço dos hotéis, que consideraram muito caros para os padrões brasileiros. “Qualquer quarto com banheiro privativo em Santiago está custando pelo menos 50 dólares”, conta Luciano. Depois de rodar por Santiago, o taxista que os levou do aeroporto à cidade compreendeu que aqueles dois brasileiros não estavam dispostos a esbanjar seu dinheiro e propôs levá-los ao Albergue da Juventude. O albergue em Santiago é muito limpo e organizado, a um preço acessível. Os dois hospedaram-se ali, como fazem muitos europeus e americanos que chegam ao Chile para praticar esportes de inverno. Não tinham carteira de alberguista, mas puderam fazê-la na hora.

A cidade de Santiago

Santiago do Chile é bonita, segura e, nos dias claros, oferece uma linda vista da Cordilheira dos Andes. Com belos parques, como o da avenida O Higgins, e agradáveis calçadões, é uma cidade perfeita para se passear a pé. Santiago tem bons restaurantes e cafés animados onde, para surpresa dos dois, as mesas são atendidas por moças de minissaias curtíssimas (Isso, ao que parece, não os pertubou…) Come-se bem por lá (e bebe-se melhor ainda!). O trânsito é bom. Mas curtir a noite de Santiago, segundo eles, só sexta e sábado. “O by night deles é meio fraco“, diz Fabiano, que mesmo assim arrumou uma namoradinha numa casa noturna. A curiosidade da moça chilena pelo fato de serem brasileiros facilitou a aproximação… De modo geral, os chilenos simpatizam com os brasileiros.

Muitos dos prédios de Santiago do Chile são antigos e geralmente não muito altos. Os edifícios mais altos são modernos e construídos com uma tecnologia adequada a uma região sujeita a terremotos.

O Mercado Central

No mercado central de Santiago, que já virou atração turística, há muitos restaurantes que servem frutos do mar. Os irmãos experimentaram um prato equivalente à caldeirada brasileira, que não agradou muito a Fabiano. Luciano, embora ache que os frutos do mar no Chile têm um sabor mais forte do que estamos acostumados no Brasil, gostou e diz que, se voltar ao Chile, repetirá a dose.

O Palácio de la Moneda

Nos dias que passaram em Santiago do Chile, Luciano e Fabiano conheceram o Palácio de la Moneda (somente o pátio é aberto à visitação e a entrada é gratuita). Em alguns minutos, dá pra ver tudo lá dentro. A lembrança do golpe do dia 11 de setembro (de 1973, quando Salvador Allende foi assassinado) e dos horrores da ditadura militar de Pinochet dão um aperto no coração. Os irmãos notaram que os chilenos, acostumados a passar diariamente por ali, habituaram-se com a presença do palácio e das recordações que ele evoca. Em sua grande maioria, estão satisfeitos por estarem hoje vivendo numa saudável democracia. Apesar disso, a imagem do ditador ainda é bem presente…

A vida noturna

As áreas mais sofisticadas de Santiago ficam perto da estação de metrô Los Leones, onde a vida noturna é mais animada, com muitos barzinhos e restaurantes. “Não é barato”, avisa Luciano. “Pagamos uns 5 dólares por um chopp!” Ele e Fabiano gostaram mais da região que fica nas imediações da estação de trem Baquedano, um bairro mais popular, que não é turístico e tem uma vida noturna bem agitada. Um lugar perfeito para saborear boas carnes e tomar bons vinhos sem gastar demais. Deram sorte também porque ali perto, em um belo parque, acontecia uma festa popular. “Havia até uma lhama toda enfeitada com ornamentos coloridos” diz Luciano. Pitoresco!

Os dois não têm certeza, mas foi provavelmente nesse parque que os cartões de créditos e o passaporte de Fabiano simplesmente desapareceram de seu bolso. (Ele não tinha lido ainda as dicas de segurança do Manual do Turista Brasileiro!) Felizmente, o Chile é bem organizado nesse ponto e Fabiano pôde, na Polícia Internacional, obter um documento que o autorizou a circular pelo país mesmo sem o passaporte. (Vale lembrar que, para ir ao Chile, brasileiros podem utilizar seu RG original, em bom estado e de emissão recente, não sendo obrigatório o passaporte. Porém Fabiano não tinha levado o dele.)
Na opinião de ambos, três dias em Santiago são suficientes para ver o principal e sentir o clima da cidade. “Você nem precisa de carro”, garante Fabiano. “Os transportes públicos funcionam bem”.

Alugar carro

Foi para prosseguir viagem que precisaram de um carro. Alugaram um Tico Daewoo. A palavra “tico” em espanhol (pronuncia-se “tchico”) significa pequeno. “Além de pequeno, o veículo não era muito bem conservado, mas foi o que conseguimos depois de ‘mucha negociación , pagando uns 200 dólares por um período de dez dias”, lembra Luciano.

Valparaíso de Viña del Mar

A primeira etapa foi subir de carro o trecho inicial da cordilheira, onde fica o vilarejo de San José de Maipo, a sudeste de Santiago. O acesso, por uma estrada secundária, é um pouco complicado, mas a paisagem andina compensa a aventura. De lá seguiram para Valparaiso, um lugar histórico, interessante, mas com as inconveniências de ser um porto: à noite, é melhor ficar de olhos abertos… Mesmo assim gostaram da cidade, que fica no pé de uma montanha, com vários mirantes acessíveis por funiculares, alguns de dois estágios. Do estágio mais alto tem-se uma vista panorâmica da cidade, do mar e do porto.

Para dormir, preferiram Viña del Mar, ao lado, uma cidade com belíssimas casas de veraneio, bons restaurantes na beira do mar, barzinhos, um cassino e belas praias. “É uma espécie de Guarujá do pessoal de Santiago”, diz Luciano. Apesar de ser uma cidade relativamente chique, os hotéis eram mais baratos do que na capital chilena e comia-se muito bem. Só reclamaram da temperatura do mar. “A água é muito fria!” reclama Fabiano.

De Vinã del Mar, Luciano e Fabiano Machado partiram para uma viagem de 800 km rumo ao sul do Chile. Em alguns trechos optaram por pegar estradas secundárias, inclusive algumas de terra, com belas paisagens rurais, ao lado de imensos vinhedos.

Rumo ao sul

Embora tenham se arriscado ao resolver ir ao sul do Chile na primeira quinzena de outubro – o início da estação chuvosa -, deram sorte. O clima esteve ótimo durante a maior parte do tempo.

Algumas fazendas possuem restaurantes e foi num deles que pararam para comer. As massas e carnes do cardápio eram ótimos, bem como os vinhos de produção local. Os preços eram comparáveis aos de um bom restaurante em Santiago.

Pucón

Pucón, bem ao sul de Santiago, fica exatamente do lado do vulcão Villarica, que ainda está ativo e deixa escapar uma fumacinha. “O cenário é lindo”, lembra Fabiano. Hospedaram-se na pensão de uma senhora, instalada numa confortável casa de madeira, com lareira, um lugar bem agradável. A Pucón serve de base para a subida até o alto do Villarica, com 2894m, uma aventura que não estavam dispostos a perder. Por 50 dólares cada um, pegaram uma excursão que os obrigou a madrugar.

A escalada do vulcão Villarica

Às seis da manhã, embarcaram em uma van com mais sete pessoas, além do guia, indispensável nesse tipo de subida.
Apesar de existir um teleférico que iria começar a funcionar um pouco mais tarde, o grupo quis subir a pé as encostas íngremes do vulcão. Tinham vestido roupas quentes para suportar o frio do topo e, com o esforço e o sol forte, começaram a transpirar. Depois de terem subido uns setenta por cento do caminho, Luciano começou a sentir que a bota machucava seu pé e foi ficando para trás, até que não agüentou mais. Parou no meio de uma paisagem descampada, sem nenhum lugar para se abrigar do sol. O única sombra que encontrou foi a provocada por uma tubulação fincada no solo, um provável instrumento de medição de atividade sísmica. Ficou ali esperando seu irmão e o grupo voltarem. Quando a sombra se movia acompanhando o sol, Luciano, sentado na neve, fazia o mesmo… Mesmo assim, a falta de um boné lhe valeu uma bela queimadura de sol.
Fabiano e os demais que alcançaram o topo estavam estafados. Por acaso cruzaram ali com um casal que subiu a montanha de esqui e que chegou ao pico muito mais rapidamente que eles…

Apesar de a vista ser magnífica, a fumaça que sai do vulcão é tóxica. Depois de cinco minutos, os olhos e pulmões ficam irritados.
Ao iniciarem a descida, Fabiano e os outros perceberam que a neve tinha virado uma placa de gelo extremamente lisa e dura. Foi quando Fabiano escorregou, deslizando pela encosta por quase cem metros. Foi assustador! Lembrou-se das instruções do guia: não podia perder seu piolet (instrumento semelhante a uma picareta, que pode ser fincado na neve dura para se sgurar). O problema é que, rolano montanha abaixo, o perdeu… Podendo contar apenas com seu próprio instinto, virou-se de bruços, tirou os óculos (cujas lentes poderiam se estilhaçar em seu rosto) e conseguiu aos poucos ir freando com o pé até parar.
Teve sorte por ter saído dessa só com escoriações leves e o pulso machucado. Recebeu o apelido de “cometa brasileiro!” pois, na queda, passara em alta velocidade por algumas pessoas do grupo que estavam um pouco mais abaixo… Muita gente sofreu acidentes bem mais graves nesse local. Ele adverte: “É preciso ter preparo para esse tipo de escalada em terreno íngreme e escorregadio. Caso contrário, pegue o teleférico!”

Felizmente, Pucón era uma cidade ideal para se recuperarem dessa escalada penosa e da longa viagem de Santiago até o sul. Apesar de ser um lugar procurado para os que desejam praticar o turismo de aventura, é também tranqüilo, perfeito para repousar, fazer passeios a pé, andar a cavalo ou aproveitar as águas termais, o que eles recomendam aos menos aventureiros.

Valdívia

A etapa seguinte foi Valdívia, cidade de colonização alemã que conserva edifícios de arquitetura típica e uma população de pele mais clara, descendente dos colonizadores. Nas proximidades de Valdívia existem alguns fortes do sistema de defesa implantado pelos espanhóis no Pacífico Sul, entre eles o forte Niebla, esculpido no rochedo, o mais interessante deles.
À medida em que seguiam para o sul, Luciano e Fabiano perceberam que melhorava a relação preço/qualidade dos hotéis e restaurantes. Valdívia é famosa por seus frutos do mar e enormes camarões, servidos, quase sempre, cozidos. O lugar é também conhecido por sua cerveja Kunstmann e pelo chopp Torobayo, de cor caramelo, que não é encontrado facilmente em outros lugares do Chile e que, segundo eles, é delicioso. “O que é curioso é que a cerveja e o chopp são servidos bem menos gelados do que no Brasil”, diz Luciano.

 O lago Llanquihue

Foram em seguida para Puerto Varas, ao lado do lago Llanquihue. A cidade lhes pareceu uma espécie de Campos do Jordão chilena, ainda mais bonita que a brasileira, com lagos e montanhas com picos nevados, música na pracinha e bons restaurantes. Resolveram utilizar Puerto Varas como base para percorrer a região: Puerto Montt, as pequenas cidades junto do lago, o Salto de Petrohué (no parque nacional Vicente Perez Rosales) e o lago de Todos os Santos. Eles recomendam aos que forem ao Chile conhecer essa região, de rara beleza.Essa é uma das poucas regiões do mundo onde existe o belo lápis-lázuli, pedra encontrado apenas no Chile e no Afeganistão. “É melhor comprar no Chile…”, brincam, mas advertem: “Há muitas falsificações”.

Chiloé

Outro lugar interessante, ainda mais para o sul, é a ilha de Chiloé. A travessia de ferry é muito bonita, com o oceano de um lado e a cordilheira sempre presente do outro. Durante a travessia, golfinhos costumam acompanhar as embarcações. No ferry, Luciano e Fabiano encontram brasileiros: um casal de Piracicaba (SP) que foi ao Chile de carro.

A volta a Santiago

A volta à Santiago foi feita numa paulada só: eles tinham descido muito para o sul e precisavam regressar a Santiago a tempo de pegar o avião. Por terem que percorrer centenas de quilômetros em um só dia, foi cansativo. Luciano sugere a quem for ao sul do Chile de carro deixar Santiago para ser visitada na volta, já que se tem mesmo que passar por lá para pegar o avião de volta para o Brasil” “Numa viagem tão longa, podem ocorrer problemas. E basta um pequeno atraso para perder o avião!.

Uma viagem recomendada

Na opinião de Fabiano, essa é uma viagem recomendada tanto para famílias quanto para grupos de amigos ou casais. Ele acredita que os incidentes no Vulcão Villarica só aconteceram porque os dois abusaram um pouco da sorte e não estavam preparados para a aventura. Ele recomenda aos que curtem vinhos que experimentem o produto local em cada região, como fizeram os dois. “São geralmente muito bons”. Luciano acha que o Chile é uma viagem indicada para aqueles que gostam de natureza, paisagens, boa comida e bons vinhos, podendo ser também uma ótima opção para o turismo de aventura.

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Salar de Uyuni: uma aventura inesquecível e para poucos

Há mais ou menos 10 anos , durante minha primeira experiência de trabalho como estagiária de um departamento de marketing em uma operadora de turismo, folheava uma caixa com materiais impressos, quando um deles me chamou a atenção. Era belíssimo, com fotos impressionantes e ilustrava um pouco do grandioso Salar do Uyuni. Foi amor à primeira vista e afirmei a mim mesma: um dia certamente pisarei neste lugar. Sabia que o Salar de Uyuni seria uma aventura inesquecível.

Mapa do Salar de Uyuni

E assim foi, depois de 10 anos, entre muitos outros caminhos e destinos, cheguei à fria, mas  acolhedora Bolívia.

A viagem iniciou-se no Deserto do Atacama, no norte do Chile. De lá, reservei numa agência local um tour de 4 dias e 3 noites para o Altiplano Boliviano. A viagem incluía o Salar do Uyuni. Já sabia das condições precárias de hospedagem e alimentação e estava disposta a encarar qualquer coisa afim de poder ver e sentir toda aquela natureza que tinha me encantado há 10 anos atrás.

Logo de cara, as mudanças de altitude e clima começam a fazer efeito. A medida que subimos, a vegetação vai se transformando, as texturas se tornam cada vez mais fortes, o silêncio mais presente. E neste silêncio, somos embalados pelo jipe que nos transporta a lugares de tirar o fôlego. É realmente difícil colocar em palavras o que vi e senti naquele lugar. Não é piegas, só quem foi sabe o que digo.

Vídeo sobre o Salar de Uyuni

As lagunas aos pés do vulcão Licancabur

Lagoas de diferentes tonalidades, gigantes, profundas. São várias, porém as mais imponentes são as Lagunas Verde, a Blanca – aos pés do Vulcão Licancabur -; e a Laguna Colorada, que possui uma tonalidade de vermelho tão forte que até parece que foi tingida por algum componente químico.  Na verdade são os milhares de flamingos divididos em 3 espécies, que pousam em suas águas para se alimentar e dão aquele colorido à paisagem.

Geyser Sol de la Mañana

Continuamos pelo deserto de Daly, onde paramos para nos banhar em uma piscina termal com vista para o vulcão Licancabur. Parece impossível entrar numa piscina quando a temperatura externa está aproximadamente 5ºC, mas depois de um tempo dentro da água, o corpo se acostuma e não há sofrimento na hora de sair. Uma delícia!
Em seguida, passamos um pouco mais de frio no Geyser Sol de la Mañana, que são fontes intermitentes de água que brotam a uma temperatura de 90ºC e exalam muita fumaça!

Deserto de Sioli

No segundo dia, viajamos pelo deserto de Sioli, onde existem formações rochosas  alaranjadas, formadas devido a erosão eólica, e lagoas altiplânicas de diversos tons. Nos hospedamos num simples, porém charmoso hotel de Sal, localizado no pequeno povoado de San Juan. Era a primeira noite de lua cheia, e mesmo estando a mais de 4.000m de altitude numa temperatura abaixo de 0ºC, era impossível não sair para admirar a claridade do luar e as cores que refletiam no deserto.

Chegamos ao Salar do Uyuni

Mais um pouco de balanço no jeep de Ronald, nosso querido e simpático motorista boliviano e chegamos ao tão esperado Salar do Uyuni. O branco perfura os olhos, é uma luz que enche o coração. Devido a época de chuvas, um espelho d’ água de de 15cm de profundidade cobria trechos do deserto. Quem olha aquela paisagem não sabe mais onde termina a terra e começa o céu. É como querer tocar o infinito e chegar quase lá. A contemplação invade o momento.

Inca Huasi: uma curiosa ilha no meio do Salar de Uyuni

No centro do Salar fica Inca Huasi, uma ilha formada por rochas calcárias, restos de corais e conchas marinhas. Grandes cactos estão espalhados por toda a dimensão da ilha, alguns milenares e de formas bem intrigantes (estudos afirmam que os cactos crescem somente 1 cm por ano, existem cactos de mais de 3mts de altura por lá!). Percorre-se a ilha em 40 minutos a pé, e subindo por suas rochas chega-se a um cume onde se pode ver a extensão do Salar em 360º. Em vários momentos, se pergunta se aquilo tudo não é mar….pois a sensação é de estar admirando a beleza do horizonte no oceano.

Para visitar o Salar de Uyuni é preciso espírito de aventura. Mas vale a pena!

Apesar do frio, forte durante o dia e que é muito pior à noite, da má alimentação e das condições da hospedagem, essa viagem transformou de verdade meu modo de ver a minha vida. Sinto como se tivesse vivido um sonho e fui tocada pela mais pura e carinhosa mãe natureza. É grandiosa, profunda, aberta, e nos convida a compartilhar da beleza absoluta que é a vida. Um grande divisor de águas.

Salar de Uyuni

Veja  pacote para a visita ao Salar

Fernanda Credidio, autora do texto sobre o Salar de Uyuni, trabalha na operadora Via BR. As fotos dessa matéria foram tiradas por Fernanda Credidio e Simone Elias, sua colega de aventura.

Castel Sant'Angelo, Roma

Aventuras e desventuras de um brasileiro em Roma

Erick perambulou pela Europa algum tempo até, finalmente, chegou à Itália. Pensava em estudar e morar em Roma por algum tempo. Porém, logo ao chegar à cidade, ainda na movimentada estação rodoviária Tiburtina, ele foi furtado. Levaram seus cartões de crédito e todo o dinheiro que duramente juntara em Londres. “Foi um segundo: eu telefonando e eles do lado, fingindo estar esperando para telefonar. Quando ergui os olhos e os vi correndo, já bem longe, coloquei a mão na minha bolsa a tiracolo. Já era!” (Pois é, moçada, antes de viajar é bom dar uma lida nas dicas de segurança do Manual do Turista Brasileiro…)
De bolsos completamente vazios e sem ter para onde ir nem a quem recorrer, Erick ligou para sua família, no Brasil, pedindo ajuda. Em pleno Dia dos Pais!

Em Roma, sem dinheiro

Enquanto Erick passava a noite na rodoviária (dormindo em cima da mala, com medo de que ela também fosse roubada!), sua mãe entrou em contato com um padre missionário aqui no Brasil, que lhe deu o endereço de um mosteiro em Roma onde ele poderia conseguir ajuda. Foi lá que Erick ficou durante 40 dias, enquanto aguardava a chegada de Tales e Léo, que ainda estavam em Londres.

Morar em Roma, finalmente

Quando seus amigos chegaram, Erick mudou-se com eles para o centro da cidade e começou seu curso. Logo no início das aulas, os três notaram que não havia muita diferença entre a universidade pública brasileira e a italiana. Encararam uma greve logo no início do semestre e as salas de aula eram superlotadas. A falta de estrutura era tal que, muitas vezes, as aulas eram ministradas em cinemas e teatros. Pelo menos, a comida do restaurante universitário era boa. “Bem melhor que aqui!”, garante. Muitas vezes Erick, Tales e Léo compravam, por poucos euros, um pacote de macarrão e uma garrafa de vinho e comiam em casa.

Os três brasileiros acabaram também fazendo boas amizades e freqüentemente pintavam festas. De acordo com Erick, “Roma à noite é bem animada”. Ele acha que, apesar do susto inicial, valeu muito a pena ir a Roma: estudou em uma das melhores universidades do país e aprendeu o idioma italiano.

A volta

Erick voltou ao Brasil. Quando chegou, surpreendeu-se com as mudanças em nosso país que, segundo ele, foram muitas. Os lugares pelos quais passou durante um ano de viagem lhe proporcionaram diferentes experiências. Embora tenha tido um pouco de dificuldade para integrar-se com os londrinos, considera a cidade um ótimo local para trabalhar e viver devido à alta qualidade de vida. Barcelona, para ele, é a cidade dos sonhos, o lugar ideal para quem procura diversão e calor humano. Já Roma encantou-o com seu charme resultante de séculos de história.

Como ir a Roma

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Instambul, naTurquia
Instambul,Turquia

Por Cynthia Feliciano

Aviso: Esta matéria relata as impressões pessoais da autora e foi escrita há alguns anos. A Turquia é hoje um país muito mais moderno e muita coisa mudou por lá: câmbio, transportes, serviços etc.

Mapa de Istambul e arredores

Sou brasileira, moro há alguns anos na Suíça e não perco uma oportunidade de sair pelo mundo. Há algum tempo, tendo alguns dias livres, tomei um avião para Istambul, na Turquia. O fato de ter um amigo turco, Umit, permitiu-me conhecer melhor do que a maioria dos viajantes os hábitos e a cultura do país. Aos curiosos, aventureiros e amantes da história, uma visita à Turquia se faz obrigatória. E quando a viagem é interessante como julgo que foi a minha, não posso deixar de dar meu depoimento.

Fiquei encantada com o país! Istambul é muito mais interessante do que Ankara, a capital, não só pela história que envolve a cidade, mas também por sua localização, entre dois continentes.
O que era a antiga Constantinopla fica no lado europeu de Istambul, onde fiquei hospedada. Como meu amigo Umit mora do lado asiático, no bairro de Uskudar, todos os dias eu fiquei nesse vai-e-vem entre continentes.

A primeira impressão que se tem ao chegar à Turquia é a de um país desorganizado e sem infra-estrutura. Pouca gente fala inglês, o que dificulta bastante uma viagem por lá.
Os serviços públicos são bem precários. A única companhia aérea que opera dentro do país é a Turkish Airlines, cujo serviço também é um desastre e, por ser estatal, não se preocupam em melhorar os serviços. Na central de atendimento não há ninguém para atender o telefone. Tentei ligar lá por mais de uma hora em horário comercial e nada.

Viajando de ônibus

Há poucos aeroportos dentro da Turquia, e as pessoas lá viajam mesmo de ônibus. As estradas, julgando pelas que tomei, são horríveis como as que consideramos ruins do Brasil. Pistas estreitas, sem acostamento, pouca sinalização. Utilizei dois ônibus de turismo durante a viagem. Um para ir ao outro extremo do Mar de Mármara, no estreito de Dardanelos e outro para voltar de lá para Istambul. O segundo não foi mal, mas no primeiro… Já estava me sentindo no caminhão do José Wilker no filme Bye Bye Brasil… Sujo, sem ar condicionado, sem janela para abrir, um calor do cão para uma viagem de 3 horas. O problema é que viajar de Bandirma, de onde estava, para Çanakkale, uma cidade no estreito de Dardanelos, não há outra opção a não ser o ônibus. O Dardanelos é o estreito que separa o Mármara do mar Egeu.

Para atravessar o Mármara até Bandirma, uma cidade pequena, sem nenhum atrativo, onde moram os pais do Umit, meu amigo turco, foram 2 horas de barco. À noite aproveitamos para visitar Erdek, um lugarzinho mais bonitinho porque tem mar e um monte de barzinhos na orla da praia. Foi lá que experimentei, por insistência do meu amigo, um vinho tinto considerado o melhor do país. Intragável! Na mesma noite voltamos para Bandirma.

Dormimos na casa dos pais do Umit em Bandirma. Passar aquela noite lá me permitiu saber um pouco mais sobre os costumes locais. A mãe do Umit só fala turco, mas o pai conhece um pouco de alemão – foi nessa língua que nos comunicamos.
Em casa de muçulmano não se entra de sapato, então é claro que tirei meus. O café da manhã é bem diferente do nosso, composto de azeitonas, um molho cujo aspecto lembrou a sardela, sopa, iogurte, pão e café turco…

Tentando dormir

Na volta para Istambul tomamos um ônibus até Çanakkale, na ponta do Dardanelos. Chegamos exaustos e fomos para a casa de um amigo dele chamado Barbaros – um nome comum na Turquia. Depois de uma boa ducha tentei dormir. Mas, mal comecei a cochilar, e fui acordada com anúncio do sacerdote (mulah) na mesquita chamando para rezar. Ao invés de sinos, eles anunciam a hora da prece com uma longa cantoria que fala de Alah… Ehheeh ..ala…schrunk Ala hala..adslfj irshch hala…… e por aí vai… só escutando mesmo para entender o que quero dizer. É interessante, é diferente, nos primeiros dias em Istambul fiquei fascinada com essa maneira deles chamarem o povo para mesquita. Só que naquela hora eu só queria dormir!

O problema é que os muçulmanos que tomam sua religião mais a sério rezam 5 vezes ao dia…. Então você fica ouvindo aquilo quase o dia todo. Uma mesquita começa e em 3 minutos começa a outra mais adiante e assim vai. Por uns 7 minutos o país fica em cantoria para Alá.

Papos arqueológicos

Depois de duas horas sem conseguir dormir, desisti. Saímos eu, o Umit e o amigo dele, de barco pelo Dardanelos. Passeamos entre o Egeu e o Mármara. Foi legal. Levamos umas cervejas para o barco e apesar do Barbaros não falar inglês (e eu não falar turco!), o Umit serviu de intérprete e ficamos discursando sobre mitologia grega. Perto de onde estávamos fica a “talvez” antiga cidade de Tróia.

Sozinha numa casa turca

Naquela mesma noite em Çanakkale, o Umit voltou para Istambul porque tinha que trabalhar. Ele é chegadinho em um ônibus e eu, que não sou e queria dar uma descansada, fiquei em Çanakkale. O amigo dele também viajou com outros amigos e largou a chave da casa dele na minha mão. Não acreditei! Nunca me viu antes, mas sabendo que eu era amiga do Umit disse que não tinha problema, que eu podia ficar lá, e blá blá blá… Então fiquei sozinha lá desde aquela noite até o começo da noite do dia seguinte quando, já entediada por não ter o que fazer naquela cidade, resolvi tomar um outro ônibus de volta a Istambul.

Eu queria ir mais para o sul, e visitar Samos, uma ilha grega que fica pertinho de Izmir, cidade turca à beira do mar Egeu. Mas considerando as distâncias, concluí que não teria tempo, pois teria que estar sábado de qualquer jeito em Istambul, já que voltaria domingo para a Suíça e não tinha nenhuma garantia de que iria conseguir um vôo de Izmir para Istambul. Afinal, se nem o telefone o pessoal da Turkish Airlines atende…

Olhares gulosos

Num dos trechos entre Istambul e uma cidade vizinha fazia um calor do cão e arrisquei viajar de bermuda mesmo. Ah! No ônibus, cheio de mulheres com as cabeças cobertas e homens de olhares gulosos, todo mundo ficou me olhando como se eu tivesse chegado de Marte. Isso foi em tudo que é lugar, mesmo usando calça comprida. E já que, com calça ou sem ela, iriam me fitar…ah…resolvi que pelo menos eu não iria morrer de calor. Um pouco antes da uma da manhã eu desembarcava em Istambul, na rodoviária do lado asiático, onde Umit viria me buscar.

Quando cheguei, pelo menos dez homens querendo ser gentis me cercaram falando em turco coisas que eu não podia entender. E eu dizia…”English!!!”…”I dont speak Turkish”…”Sprechen Sie Deutsch? French, Français, Spanish???” Então, chamaram um sujeito que falava um inglês sem-vergonha, mas com quem eu pude me comunicar: “How can I help you?” perguntou. “You cant help me…I dont need any help… não pedi ajuda alguma” respondi, “não sei o que esse pessoal está falando”. Aí ele perguntou, “Para onde você vai?”, e eu disse, “Pra canto nenhum, acabei de chegar e vou ficar aqui esperando meu amigo”. “E onde está seu amigo”… “Sei lá, como é que vou saber, estou descendo do ônibus agora”… “Posso ver seu bilhete?” … “Pois não”. “Ah, você veio pela Truva (nome da empresa de ônibus)”, então pode esperar aqui no escritório da Truva. Então liguei para o Umit e ele foi me buscar.

Enquanto esperava meu amigo, os homens do escritório estavam todos assanhados para conversar comigo. “How from?”…..mesmo com aquele inglês errado deles pude entender que ele perguntava de onde eu era. “Brasil”, respondi.” Ah…Brasilia… Brasilian… Ronaldinho… café good…”…e o sujeito com cara de tarado com um sorriso de uma orelha a outra, esperando que eu desse atenção.

Istambul

Eu gostei mesmo foi de Istambul. O recenseamento na Turquia também não funciona, mas estima-se que Istambul tenha entre 12.000.000 a 15.000.000 de habitantes… É uma cidade bem grande e tem várias faces. Bairros bonitos e bairros feios. Alguns lugares populares me lembraram São Paulo. Vendem de tudo! Muita coisa estendida no chão, a maior parte badulaques vagabundos. Andar pelo bairro de Eminonu é como andar pela São Bento ou pelo Anhangabaú em São Paulo, só que com um mar do lado. E tem gente pescando…

As mesquitas de Istambul

As mesquitas são peladas internamente. Não são como as igrejas que têm um altar, esculturas, cadeiras para sentar, santos ou obras de arte. Todas as mesquitas são forradas por tapetes gigantescos, e a frente das mesquitas é sempre voltada para a cidade de Meca, para onde os muçulmanos devem fazer uma peregrinação pelo menos uma vez na vida.

Para se entrar em uma mesquita (pelo menos em sinal de respeito a crença islâmica) os homens devem cobrir as pernas e, as mulheres, não só as pernas, mas também os braços e a cabeça, com um lenço. Claro que cumpri todo o ritual! Pedi à irmã do Umit, a Hatice (que se lê Ratídgie) que é muçulmana roxa, e que me acompanhou até a mesquita, que tirasse uma foto minha. Todos, homens e mulheres, temos que ficar descalços para entrar na mesquita.

Homens têm a parte maior do espaço interno da mesquita. E rezam fazendo aquela ginástica toda que vocês provavelmente já conhecem. Levantam, agacham-se, curvam-se… Há um lugar separado e reservado apenas para as mulheres rezarem. Elas carregam um colar de contas (como se fosse um terço) e rezam de maneira curiosa para os ocidentais, balançando o corpo, sentadas, e às vezes soliloquiando baixinho e olhando para os lados como se não estivessem concentradas. Talvez não estivessem mesmo. Afinal, têm que rezar 5 vezes ao dia. Ambos, homens e mulheres têm que ir à mesquita às sextas-feiras.

Passeando por Istambul

A semana toda fez sol. Apesar do calor de 30 graus, a Hatice estava, como era seu costume, vestida com um monte de roupas, mantinha a cabeça coberta com um lenço grande e usava meias…
Andamos um dia e meio por Istambul e ela me mostrou coisas que turista nenhum vê. Nós duas juntas estavamos, sem dúvida, chamando mais atenção do que se eu estivesse sozinha, já que, com o calor que fazia e sentindo que o conservadorismo geral podia tolerar minha cultura ocidental, me recusei a me cobrir toda.

No primeiro dia, coloquei um vestido comportado, claro, abaixo do joelho, mas sem mangas, de alcinha. Para entrar na mesquita levei um cardigan e uma écharpe. Quando vesti o casaco por cima do vestido e coloquei o lenço na cabeça, não poderia estar mais horrível. Turkish fashion! No segundo dia resolvi colocar uma calça para destoar menos da minha amiga…. Mesmo assim todo mundo olhava para nós quando percebia que estávamos juntas. Era o “contraste”, em forma de gente, caminhando pelas ruas de Istambul, mas também era um feliz entendimento da cultura ocidental com a do Próximo Oriente.

Hatice teve a sorte de passar um mês fora da Turquia por causa de um trabalho do marido e me disse que já foi a uma igreja na Inglaterra. Descreveu a decoração da igreja com ar de reprovação, referindo-se às esculturas de santos.

No Mar Negro

No Mar Negro fui à praia, de biquíni, acreditem… todo mundo vai de roupa normal até a praia e há vestiários minúsculos onde as pessoas se trocam. Como sou brasileira, já fui com o biquíni por baixo da roupa. Emboras as turcas mais ocidentalizadas usem biquíni, isso não é hábito da maioria.

A praia não era bonita “at all”… mas o imenso Mar Negro estava a minha frente, e fiquei feliz por estar lá. A água é fria como no mar Egeu, na Grécia, ou como o Atlântico no Guarujá. Digo isso porque no Caribe as águas são mais mornas.

Visitando uma ilha relax

No último dia, antes de voltar à Europa, fui visitar uma ilha, onde ao invés de areia há pedras, como em boa parte das praias na Grécia. Bem bonitinha a ilha. A maior parte dos habitantes era formada por judeus e gregos. O pessoal por lá me pareceu mais “relaxed”… todo mundo queimado de sol, mais pelado…uma delícia! Essa ilha fica no mar de Mármara.

A comida na Turquia não é ruim. Comi o “Donar”, um tipo de shishe kebab (existem 3 diferentes de kebabs, churrasquinhos de carneiro.), uma delícia, lula frita (como no Brasil) e mariscos que preparam de duas maneiras: à dorê ou com arroz.

 Impressões, os costumes turcos

Apesar de Istambul ficar junto ao mar, não se vê um só homem de bermuda e camiseta. Mesmo no verão, todo mundo só veste calça e camisa. Além das mesquitas o que mais se vê em Istambul são lava-pés, já que antes de entrar em uma mesquita tem que se tirar os sapatos.

Também há algumas bicas de água espalhadas pela cidade, com uma canequinha de cobre amarrada a uma corrente. Todo mundo utiliza a mesma caneca. Disgusting!

Apesar de amigáveis e simpáticos, estão longe de serem realmente cavalheiros. Também não preciso nem dizer o quanto são machistas. A maior parte do tempo que passei por lá estava acompanhada do Umit, de um amigo finlandês ou da Hatice. Não me assusto facilmente com assédios mas, quando circulei sozinha, preferi não flanar: andava depressa e fechava a cara… Diria que não é recomendável uma mulher sair sozinha à noite na Turquia.

Meu amigo Umit é engraçado, super atencioso e muito mais cabeça aberta que o típico muçulmano. Apesar de se dizer muçulmano não vai nunca às mesquitas e concorda que a religião é um atraso no país, mas ainda assim é um pouquinho machista.
Um fiel muçulmano só pode tocar a própria mulher. Na casa da Hatice, eu inocentemente estendi a mão para o Ramasã, marido dela, na hora de dizer “tchau” e ele se recusou a apertar minha mão, sorrindo e pedindo minha compreensão.

Apesar de ser um país ocidentalizado, os valores islâmicos ainda são fortes. Percebi isso quando visitei o Palácio Topkapi (veja o texto sobre Istambul onde são venerados além da espada de Maomé, seus fios de cabelo de Maomé, pelos de sua barba., o molde de seu pé em bronze, etc… Ninguém pode garantir que aqueles pelos todos tenham sido realmente dele…
De modo geral a população, inclusive a clásse média, não costuma viajar para o exterior e não é muito informada. Mesmo uma amiga minha turca, com mestrado em Administração, não sabe nada sobre outros países. E não está nem aí com isso!

A Turquia me lembrou o Brasil de 15 anos atrás, quando ainda se bebia apenas certas marcas de vinhos nacionais tidas como melhores, por não ter acesso a produtos importados, achando que eram bons vinhos.
Quanto a todas as recomendações que tive em relação a roupas, a não sair à noite e a não tentar comprar nada sozinha, o Umit me falou que valem para o lado leste da Turquia, depois de Ankara. Em Istambul, por ser uma cidade mais ocidentalizada, não precisamos ter tanta preocupação.

Apesar de meus comentários e algumas críticas que faço aqui, tenho que reconhecer que Istambul é uma cidade bonita, muito exótica por conta das inúmeras mesquitas, com um certo mistério no ar…em suma, fascinante! Posso dizer também que, entre todas as viagens que fiz até hoje, esta para a Turquia foi a que mais gostei, a mais diferente e com a qual eu mais aprendi. Estou de volta à Suiça, sã e salva sob a proteção de Alá, mas sob a mesma proteção, eu inda hei de voltar lá.

Minhas dicas

– A maneira mais agradável de circular por Istambul é o barco-ônibus. Claro que só no estreito de Bósforo. Pode ser divertido também passear a pé. Para distâncias maiores entre um bairro e outro há lotações no estilo das que existem em São Paulo. Os ônibus, sempre cheios, são desaconselháveis. Os táxis são relativamente baratos. Combine o preço antes.

– Se você é mulher: saia com amigos ou, se estiver só com seu marido ou namorado, ande em grupo. Quando percebem que você é estrangeira, o pessoal olha, mexe e pode te abordar. Aí tem que ter jogo de cintura para se livrar do assédio..: De dia os problemas são menores, afinal há policiais por toda parte. Qualquer coisa é só ameçar chamar a polícia.

– Outra recomendação às mulheres: não use grandes decotes, blusas de alcinha ou saias curtas, sobretudo para sair à noite. A lei é: não provoque que o bicho pega… Deixe para ser sexy nos países ocidentais!

– Se você resolver ir a praia na Turquia, pode ir de biquíni… Mas não exagere: nada de fio dental!

Estação de trem na Índia
Estação de trem na Índia

Viajar de trem na Índia: uma experiência única

Extrato do livro “A Vaca na Estrada

Viajar de trem pela India

Graças aos ingleses, o país possui uma das mais complexas redes ferroviárias do mundo, que alcança quase qualquer ponto do território nacional. Ela foi construída com dois objetivos. De um lado, destinava-se a escoar a produção indiana e colocar no mercado os manufaturados da metrópole. De outro, permitiria o rápido deslocamento de tropas quando fosse necessário reprimir insurreições. O que os ingleses não imaginaram é que essas mesmas ferrovias conduziriam os líderes nacionalistas indianos pelo país inteiro em peregrinações políticas. As estações tornavam-se pontos de agitação quando Gandhi, Nehru, Patel e outros discursavam para as multidões que iam esperá-los.

Mapa da Índia

Reservar: difícil, mas necessário

Para fazer viagens noturnas, opto sempre que possível por cabines de 1º classe, que oferecem mais conforto do que os ônibus. Embora mudanças estejam ocorrendo, os trens indianos ainda são, em sua maioria, bem lentos: alguns funcionam a vapor!. Costumam estar lotados e sua limpeza, principalmente na 2ª classe, deixa a desejar. Para conseguir uma reserva, imprescindível para viajar em 1ª classe, é preciso ter muita perseverança e tentar fazê-lo com dias de antecedência. O ideal é ir à estação. Uma vez eu tentei fazer minha reserva em 1ª classe por meio da agência de viagens do hotel onde estava hospedado. Fui, logo de cara, bem claro, dizendo que, se fosse para ficar em lista de espera, não me interessaria; alugaria um carro.
— Não se preocupe, sir!, disse-me o funcionário da agência em um tom tranquilizador que, na Índia, sempre produz em mim o efeito contrário.
Eu estava reservando com uma semana de antecedência.
— Tem certeza de que conseguirei um lugar?
Ele fez aquele movimento lateral de cabeça que significa “sim”, mas que confunde os estrangeiros, pois parece um “não”. Disse que eu só teria que pagar quando retirasse a passagem.
Todos os dias eu passava pelo funcionário e perguntava pelo meu bilhete. Ele sempre me garantia que iria consegui-lo. Isso até a véspera do embarque, quando confessou que não obtivera ainda a reserva, mas que eu estava em very good position na lista de espera! Falei o diabo para ele, mas não adiantou nada. A partir daí eu mesmo passei a fazer minhas reservas diretamente na estação. É trabalhoso, mas compensa.

Viagem de um dia de Mumbay (Bombaim) a Nova Delhi

Na India, faça como os indianos

Eu já tinha aprendido, depois de minha primeira viagem ferroviária na Índia, que viajar sem reserva de assento e em 2ª classe é uma roubada. Estava indo de Mumbai para Udaipur com uma namorada brasileira e um casal de amigos franceses, Pierre e Agnés, todos decididos a fazer uma viagem econômica. Acontece que, na França, quase todo mundo viaja de 2ª classe. A primeira é luxo. Na Índia, não. Quando o trem parou na estação de Mumbai, uma multidão se precipitou aceleradamente para os vagões, invadindo-os até pela janela, já que as portas ficaram bloqueadas por pessoas que subiam com sacos de cereais, engradados e até animais vivos. Dando-nos conta de que teríamos que fazer o mesmo ou não embarcaríamos, imitamos os indianos. Pierre entrou primeiro; eu passei as mochilas para ele pela janela. Depois ergui as meninas, uma a uma, e ele as içou, também por uma janela, para o interior do vagão, cada vez mais lotado. Depois entrei eu. Como só conseguimos três assentos, um de nós dois – Pierre ou eu — viajava de pé ou, como faziam muitos passageiros, se deitava no chão do corredor. Lembro-me de que em alguns momentos cheguei a adormecer, sendo sacudido por pessoas que queriam passar. Não entendia porque não passavam por cima de mim, bastando para isso dar um passo largo. Irritado, recebi uma explicação por parte de um senhor que viajava perto de nós:
— Fazem isso por respeito. Aqui é falta de educação passar por cima de uma pessoa deitada.

Para quê servem os freios de emergência

Em um dos momentos em que consegui dormir, fui acordado por uma parada brusca do trem. Ao abrir os olhos vi que estávamos em frente a um povoado. Não havia estação, nem mesmo uma plataforma de embarque, mas diversas pessoas que deviam morar por ali deixavam o trem às pressas pelas portas e janelas. Depois fiquei sabendo que puxavam o freio de emergência para descer onde lhes era mais conveniente.
Embora a viagem tenha sido cansativa, foi uma grande oportunidade de ver os costumes do povo. Uma cena engraçada que vi foi a de um sikh de meia idade ter seu serviçal acompanhando-o para, entre outras coisas, enrolar e desenrolar seu turbante.

O assento é de quem pegar primeiro

Nenhum de nós quatro se arriscava sequer a ir urinar. Além do risco de perder o lugar, o cheiro que vinha das extremidades do vagão onde ficavam os toaletes era de desanimar. O maior problema não foi embarcar na 2ª classe, mas sim fazê-lo no vagão “sem reserva”, onde não há limite para passageiros e, como em um ônibus urbano, o passageiro não tem direito a poltrona: o assento é de quem pegar primeiro. Confortável, o vagão de 2ª classe “com reserva” obviamente não é, mas pelo menos o assento é garantido.

Na Índia, as principais estações de trem oferecem serviço de reserva para turistas
Isso ajuda um pouco. Os trens noturnos de longa distância, com ar condicionado na 1ª classe, são mais limpos e melhores, mas há sutilezas tipicamente indianas: devem-se reservar também lençóis e cobertores para não passar frio; as noites de inverno são bem frescas. Quando eu viajava acompanhado, tentava conseguir cabine para duas pessoas e cuidava da reserva com o máximo de antecedência. Notei que europeias que viajavam sozinhas com mais dinheiro no bolso reservavam uma cabine só para si. Uma belga contou-me que, viajando com uma amiga em uma cabine com indianos, não pôde fechar os olhos. Mal o fazia, sentia que mãos a tocavam.

Um susto inesquecível

Foi num trem de Madras para Delhi, nos primeiros instantes de uma viagem de cerca de 40 horas, que passei por um dos maiores sustos de minha vida. Estávamos nos anos 1980 e cartões de crédito internacionais não eram comuns como hoje. A maioria dos jovens viajava ainda com uma bolsa de cintura, onde guardavam seus preciosos dólares e seus passaportes. Como pretendíamos viajar muitos meses, mesmo que em um esquema bem econômico, minha namorada e eu tínhamos uma bela soma conosco. Era nosso costume dar uma checada geral no quarto antes de deixar um hotel, mas daquela vez o fizemos muito rapidamente – e esquecemos as bolsas de cintura sob o travesseiro. Nem sei bem porque as tínhamos posto ali, pois não era nosso hábito. O fato é que quando o trem já começava a se mover percebemos que estávamos sem dinheiro, nem documentos. Jogamos as mochilas pela porta ainda aberta e saltamos do vagão. Ainda era cedo; talvez ninguém tivesse arrumado o quarto e encontrado o dinheiro. Minha namorada ficou com a bagagem e eu saí correndo desatinadamente, atravessando os trilhos, com risco de ser atropelado pelos trens que chegavam ou deixavam Madras.

Chegando à rua, entrei no primeiro táxi que vi. Ao chegar ao hotel, fiz sinal ao motorista para que me esperasse, passei à toda pela recepção e subi as escadas, indo diretamente para o quarto onde dormíramos. Empurrei a porta. Estava aberta e o aposento estava tal e qual o deixáramos. Ergui o travesseiro: nossas bolsas estavam ali. Cheguei a tremer. Respirei profundamente e fechei os olhos um momento. Enfiei as bolsas dentro de meu jeans, sob a túnica. Na portaria, ao sair, perguntaram-me se eu havia esquecido algo no quarto. Confirmei com a cabeça:
— Sim, meu passaporte.
No táxi, voltando para a estação, ia pensando na situação em que nos encontraríamos, naquele fim do mundo do sul da Índia, com pouquíssimo dinheiro — só uma pequena quantia na carteira — sem passaporte, sem nada… Isso em uma época em que até falar por telefone da Índia para o Brasil era difícil. Daí em diante, todas as noites, depois de tirar a roupa, passei a amarrar a bolsa de cintura no passador da calça que iria vestir no dia seguinte. Ótima solução: como não saio sem calças na rua, nunca mais esqueci minha bolsa.

Quando reencontrei minha namorada na estação, ela chorava, rodeada de moças e senhoras indianas que me olharam feio. Quando contei que recuperara o dinheiro e os documentos, minha namorada me abraçou forte: “Que sorte!”. Depois ela me explicou que, vendo o que ocorrera, a mulherada achava que eu a tivesse abandonado. Diziam uma para outra: “O marido a deixou!”. E quase choravam junto, solidárias… Será que divórcio indiano é assim? O marido sai correndo?

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Viagem de moto pela Argentina
René Miragaia, viagem de moto pela Argentina

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A Patagônia de moto: Buenos Aires, ponto de partida para a grande aventura

Parti de moto para a Patagônia Atlântica, tendo como ponto de partida a capital portenha,  descendo pela orla do Atlântico, enfrentei os fortes e frios ventos oceânicos que varriam toda aquela região dos pampas, com suas planícies imensas, monótonas, inexpressivas.
De Bahia Blanca para o extremo sul estende-se, até o final do continente, a imensa Patagônia, com suas mesetas e terraços, plantas raquíticas e rasteiras, pastos duros e espinhosos onde pastam ovelhas e guanacos sob um vento permanentemente forte e gelado.

A Patagônia de moto: dois mil e quinhentos quilômetros de paisagem desértica

São 2.500 quilômetros, de uma paisagem acinzentada e nostálgica. Dizem os habitantes dessa região que para conhecer a Patagônia não é preciso percorrê-la de ponta a ponta; basta ficarmos parados e esperar que ela passe por nós, arrastada pelo vento.

Puerto Madryn

Após rodar mais de 700 quilômetros contra uma vento fortíssimo que soprava do oceano, cheguei a Puerto Madryn, a capital subaquática da Argentina. Conheci ali uma pessoa muito especial, o comandante Jako, mestre na arte de mergulho e muito gentil, que me convidou para ir em seu lindo barco ver as baleias francas com seus filhotes, em pleno mar, ao largo do Golfo Nuevo. O barco era movimentado com a máxima precaução, pois elas poderiam, com seus malabarismos, atingir nossa pequena embarcação, destroçando-a num piscar de olhos. Puerto Madryn

Navegando ao lado de baleias

Conseguimos, chegar a 10 metros desses gigantescos cetáceos de 100 a 150 toneladas. Vimos seus corpos escuros, imensos, cheios de manchas e aderências, espadanando água por todos os lados, quando uma delas, como um torpedo, emergiu num salto descomunal, explodindo na queda como uma bomba, provocando ao redor de si ondas de mais de um metro de altura que se abriam em círculos concêntricos, balançando nosso barco como se fosse de brinquedo.
Nessa fria costa atlântica, as baleias vêm para procriar e amamentar seus filhotes com cerca de 300 litros de leite lançados na água, que, por ter uma composição mais densa não se misturam. Durante seus primeiros meses de vida, os baleotes engordam cerca de 100 quilos por dia!

Caleta Valdés

No dia seguinte fui à Caleta Valdés, uma graciosa península em cuja costa setentrional centenas de elefantes marinhos se aquecem em longas praias de areia branca. Lentos e fortes, os machos vivem cada qual com seu harém de fêmeas e vários filhotes.

O interior da Patagônia

 Deixando o litoral embrenhei-me no interior da Patagônia, onde quer que você estacione a moto, terá a impressão de estar no centro da Terra, pois para qualquer lado que se olhe somente se verá o horizonte distante: sem nenhuma árvore, nenhum morro, nenhum vestígio de civilização. Tudo plano, árido e absolutamente silencioso. Às vezes vê-se, ao longe, um guanaco ou uma lebre patagônica saltando de um para outro tufo de esturricados arbustos de, no máximo, 50 centímetros de altura; de vez em quando surge uma perdiz e, dificilmente, um avestruz.

Os ventos perigosos da Patagônia

O fortíssimo vento obrigava-me a pilotar a moto sempre inclinada contra ele, a fim de não ser lançado ao solo. Estava lutando contra um inimigo de infinita superioridade, dentro de um gigantesco campo de batalha – o deserto da Patagônia. E o pior de tudo: esse inimigo era invisível e caprichoso. Quando queria, apenas me acariciava com delicadeza e, ao mesmo tempo que me mimava, subitamente rugia enlouquecido e, com um violentíssimo golpe, arremessava-me com a moto, com a bagagem e com toda minha experiência às bardas esturricadas da estrada. E, para zombar da minha fraqueza diante de seu poder, zumbia em meus ouvidos como que sorrindo, num gozo frenético, fazendo-me rastejar como víbora, lentamente, pelas empoeiradas trilhas, humilhando-me até onde minha resistência permitia suportar.

O sentimento de se percorrer a Patagônia

Costuma-se dizer que “a região patagônica é uma grande quantidade de nada que se prolonga até o horizonte”. Mas não é bem assim. Devemos procurar na solidão e na paz daqueles 2.500 quilômetros de deserto as coisas que a maioria das pessoas não consegue ver:os dóceis e elegantes guanacos, as espertas lebres, os enormes rebanhos de ovelhas, os graciosos tatus e perdizes; é preciso aprender a amar a solidão e a ouvir a voz do silêncio que tantas vezes nos fala mais eloquentemente do que mil palavras; é preciso ver a pureza do céu, sentir a liberdade do vento que zune pelos raquíticos arbustos, partilhar a nostalgia do cinzento que a tudo envolve; é preciso admirar as pequeninas flores que enfeitam a aridez do solo e respeitar o esforço sobrenatural daquelas retorcidas plantas na busca perseverante da sobrevivência!
Quando se consegue ver e, principalmente, sentir essa “grande quantidade de nada”, então sentiremos ânimo no lugar do desalento, alegria no lugar da tristeza e vida no lugar da morte que espreita de perto os seres dessa brava região.

Punta Tombo e sua gigantesca colônia de pinguins

Ao atingir Punta Tombo, deparei com a maior colônia continental de pingüins do mundo, depois da Antártida. Ali vivem cerca de 500 milhões desses animaizinhos, entre centenas de aves marinhas, num ambiente muito frio e de absoluta paz.

As perigosas orcas

Lá pelos lados de Piedra Buena, presenciei uma enorme quantidade de lobos-marinhos tomando sol sobre as pedras que emergiam do mar, próximas à praia. Inesperadamente, orcas saltaram sobre eles, engolindo-os, numa cena de impressionante violência!

Uma tempestade inesperada

Pouco mais adiante, rodando tranquilamente, fui surpreendido por uma fortíssima tempestade que desabou com trovões e relâmpagos saltando sobre mim qual demônios enfurecidos. Nem houve tempo de colocar a roupa para chuva. O céu transformou-se num inferno e a Terra num campo de batalha.

O perigo dos raios

Subitamente, um clarão esverdeado me envolveu, provocando um som agudo em meus ouvidos, com milhares de agulhadas em minha cabeça e nas costas… E não vi mais nada. Quando voltei a mim concluí que havia desmaiado e caído juntamente com a moto que, por sorte, não me quebrou a perna, pois quando caí já estava inconsciente. Estava muito dolorido, e apenas percebi que minha perna sangrava quando o sangue me encharcou o pé esquerdo, por dentro da bota. Depois de pensar um pouco, cheguei à conclusão que havia sido atingido, de raspão, por um raio. Soube, mais tarde, por informações de pessoas da região, que aquela repentina tempestade era um raro fenômeno chamado monzones, caracterizado pelos ventos quentes que se deslocam dos pampas e que chegam a atingir a velocidade de 100 quilômetros por hora, fazendo soçobrar embarcações, destruindo casas e espalhando a morte entre homens e animais.

Rio Gallegos

Sempre rumo sul, passei por Río Gallegos e por Laguna Azul, atingindo, nesse ponto de integração austral do lado argentino com o chileno, o agitado estreito de Magalhães. Havia chegado à última escalada para o extremo sul do continente: a Terra do Fogo!

Resumo publicado no GTB Argentina, extraído do 3º capítulo do livro MINHA MOTO, EU E A AMÉRICA, de Miragaia René Angelino (www.miragaia.com.br), o Gaia, que já percorreu a Patagônia de Moto, quatro continentes de moto e está em vias de viajar pelo quinto.

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René Miragaia, Terra do Fogo

Viagem de moto na Argentina: uma grande aventura

Há quem acaba se embalando ao ver o filme Diários de Motocicleta sobre as aventuras de Che Guevara e seu amigo Alberto Granado e acha que subir numa velha moto e “rodar a América do Sul” é bico. Mas viajar de moto na Argentina, mesmo pra os amantes de aventuras, é um desafio e tanto.

Mapa da Argentina

Algumas dicas importantes

Nossa primeira recomendação neste tópico, paradoxalmente, não é dirigida aos motoqueiros mais experientes, mas aos que não o são: é perfeitamente possível e seguramente emocionante uma viagem assim, mas experiência é indispensável. Não interessa há quanto tempo você tem a moto, se você a utiliza raramente. O conselho é rodar o suficiente pelo Brasil primeiro, para ganhar confiança (e, principalmente, sabedoria!).

Claro que isso varia de pessoa para pessoa, mas é possível que uns 5.000 km de estrada lhe proporcionem experiência para saber reagir a imprevistos, familiaridade com a moto (se você a tiver comprado recentemente) e a noção de quantas horas por dia você consegue rodar com ela numa boa. Quem viu o filme Diário de Motocicleta, ou leu o livro, sabe muito bem que a moto da dupla pifou no Chile, mais ou menos no início da viagem.

O Che não “percorreu a América do Sul de moto” e sim de carona, de ônibus e em boléias de caminhões. Portanto, moto velha e mal conservada não serve. O ideal é partir do Brasil com uma moto nova, mas se isso não for possível, ela deve pelo menos estar em ótimas condições e ter sido muito bem revisada. Moto nova ou bem conservada, ao contrário do que alguns imaginam, não “vive quebrando”. Se você não for mecânico de moto, é inútil levar um monte de peças de reposição. Caso seja necessário algum conserto, leve sua Poderosa num bom mecânico e pronto.Na Argentina, você encontra o que precisar para todas as marcas de motos. Veja no final deste tópico os sites das principais fabricantes de motos e anote os endereços e telefones das concessionárias e serviços autorizados na Argentina.

Teoricamente, até com uma 125 CC você pode viajar pela América do Sul, mas será em um ritmo mais lento, pois terá que respeitar os limites da máquina. Motoqueiros experientes consideram que uma 650 ou 750 CC “fora de estrada” (off-road) é uma boa escolha. Se um pneu furar (o que é raro acontecer com pneus novos), um inflador de pneu pode quebrar um galho, permitindo-lhe chegar a um borracharia (gomería). Embora qualquer borracheiro conserte um pneu de moto, é bom você saber retirar a roda e recolocá-la, pois nem sempre, sobretudo em pequenas borracharias de beira de estrada, os muchachos sabem tirá-la e, o que é mais importante, montá-la de novo corretamente.

O que você precisa é ter roupas adequadas, capa de chuva, um bom mapa, um roteiro bem bolado e pouca bagagem, mas que inclua algum agasalho para frio, óculos escuros e kit de primeiros socorros. Mantenha o tanque cheio e fique atento com relação à autonomia da motocicleta: na Patagônia você pode viajar mais de 300 km sem encontrar combustível. Uma mangueira para puxar gasolina em caso de pane também é uma boa, mas evite viajar sobrecarregado com galões extra de combustível, algo que pode ser perigoso.

O que você levará consigo depende um pouco do que pretende de sua viagem. Você pode tanto rodar apenas no asfalto e só ficar em bons hotéis como preferir roteiros de aventura, percorrendo estradas de cascalho e indo para lugares mais desertos, de soberbas paisagens (lembrando que é mais fácil derrapar nesse tipo de estrada). Uma pequena barraca pode quebrar o galho se você quiser acampar e dormir em algum lugar pelo caminho; a Argentina é, nesse ponto, um país bastante seguro. Melhor parar e passar uma noite em uma barraca do que pegar estrada à noite. Viagens notunas devem ser evitadas por vários motivos: o farol de uma moto não é condizente com a velocidade da máquina; a 100km/h, você pode ter surpresas com animais na pista; nem todas as estradas são bem sinalizadas; e, em regiões desérticas, é fácil se perder. Além disso, à noite você deixa de curtir a paisagem, um dos grandes prazeres da viagem.

Veja no tópico Transportes, como ir, os roteiros rodoviários para ir do Brasil à Argentina.

Assistência técnica

HondaYamahaSuzuki

Colaborou conosco neste tópico René Miragaia Angelino, que escreveu a matéria especial  Patagônia de Moto (Gaia), escritor e jornalista que já percorreu quase todo o mundo de moto, autor dos livros Yukon, a última fronteira e Minha moto, eu e a América (veja em BAGAGEM CULTURAL o resumo de um dos capítulos do livro). Saiba mais sobre Gaia em www.miragaia.com.br.

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