Os portugueses
Vendedora de castanhas, Porto
Vendedora de castanhas no Cais da Ribeira, cidade do Porto

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Os portugueses

Sangue e afinidades

Para entender Portugal e os portugueses você tem em primeiro lugar que saber que não há outro povo nem outro país no mundo que tenha tanto a ver com o Brasil. Mesmo no sul e no sudeste do Brasil, onde ocorreu forte imigração italiana e de gente de tudo quanto é país, a presença portuguesa ainda é a mais importante. Quase todos os brasileiros têm, em maior ou menor escala, sangue lusitano correndo nas veias.

A origem dos sobrenomes portugueses

Como se sabe, os sobrenomes na Idade Média em toda a Europa indicavam, com frequência, a origem geográfica ou a profissão da pessoa. Em Portugal, Ferreira (corruptela antiga de “ferreiro”) indica a profissão de algum antepassado do cidadão, enquanto alguém de sobrenome Coimbra certamente possui ancestrais originários dessa cidade. Ao percorrer Portugal você passará por cidades cujos nomes correspondem à maioria dos sobrenomes brasileiros de origem portuguesa. Se você se chama Guimarães, creia-nos, seus ancestrais vieram de lá! Seu dentista se chama Dr. Almeida? Bom, pode ter certeza de que um dos ancestrais dele, oriundo dessa cidade, embarcou numa caravela há séculos e veio parar no Brasil. Embora o norte de Portugal tenha fornecido a maior parte dos imigrantes que se fixaram no Brasil, você encontrará também sobrenomes oriundos de outras regiões, como Lisboa, Montemor, Braga ou Vianna.

Os sobrenomes de origem judaica

  Já muitos outros sobrenomes portugueses, em geral aqueles que indicam nomes de plantas, árvores, animais ou objetos (Pereira, Leite, Coelho, Machado), foram adotados por judeus, principalmente do leste do país, convertidos ao cristianismo.
Grosso modo, o povo português é um misto de descendentes de celtas, lusitanos, mouros e judeus.

Miséria e perseguição religiosa incentivou a imigração portuguesa no Brasil

– Não todos, mas a esmagadora maioria dos portugueses que vieram para o Brasil saiu de cidades do norte do país, fugindo, mais recentemente, da miséria ou, durante o período colonial, da perseguição religiosa contra os cristãos-novos, incentivada pela Inquisição.

A imigração portuguesa no Brasil

Os portugueses só começaram a vir para cá uns 30 anos depois da descoberta do Brasil. Os primeiros a chegar eram oriundos da pequena nobreza, beneficiados com grandes extensões de terra – as Capitanias Hereditárias, seus serviçais, militares e degredados. O Brasil de então era um destino tão bom, com seu clima tropical, seus índios mal-humorados e seu afastamento da civilização, que ser enviado para cá era uma punição.

O degredado não era necessariamente um “criminoso”

 Muitos eram pessoas que se indispuseram com a monarquia, hereges, judeus e cristãos-novos acusados de continuar a seguir a religião judaica e pessoas presas por dívidas. O maior contingente provavelmente foi o de cristãos-novos, que nem sempre, como muita gente acredita, tinham sobrenomes como Coelho ou Carvalho. Numa antiga sinagoga descoberta em Recife (Sinagoga Kahal Zur Israel), aberta à visitação, você verá um painel com a inscrição: “Os judeus exerciam as mais diferentes atividades econômicas, em especial o comércio. Eram também senhores de engenho e profissionais liberais. Entre estes vale citar Abraham de Mercado, médico; Michel Cardoso, advogado; e o construtor Balthazar da Fonseca”. São mencionados outros como Serra, Peixoto, Rodrigues, Costa, Alves, Nunes, Gomes, Dias, Castro…

O fluxo migratório

 Embora a imigração portuguesa para o Brasil tenha sido uma constante durante o período colonial, ela se acentuou quando as tropas napoleônicas invadiram Portugal em 1808 e o rei Dom João VI teve que fugir para o Brasil. No século XIX e no começo do século XX, a miséria assombrou Trás-os-Montes e outras regiões do campo português. Quem pôde juntou seus pertences e veio para o Brasil.
O imigrante português – Ao contrário dos italianos e espanhóis, os portugueses que se fixaram no Brasil nos últimos séculos eram pouco politizados e tiveram menos participação nos movimentos populares ou operários. Aqui chegando, montaram sua hortinha, suas quitandas, vendas, padarias, sapatarias ou foram trabalhar na construção civil. A grande maioria conseguiu obter sucesso, com muito trabalho, muita economia, guardando cada tostão. Hoje, seus descendentes – com alguma mistura de sangue índio, africano e de outros povos europeus – somos nós, brasileiros. Com a mesma língua, a mesma cultura (que acabou integrando outras influências) e até um jeito muito parecido de ser. Os portugueses que chegaram ao Brasil, apaixonando-se pelo futebol, terminaram por criar dois times famosos: a Portuguesa de Desportos, em São Paulo, e o Vasco da Gama, no Rio. Na culinária, introduziram suas receitas: o bacalhau (que mesmo sendo classificado como prato português é super comum no Brasil); doces, como o arroz doce e outros, à base de ovos; ervas aromáticas etc.

Piada de português

 Os imigrantes que deixaram Portugal no início do século eram oriundos das parcelas mais pobres da população, quase sem nenhuma formação, em geral iletrados, já que os ricos e cultos raramente deixavam o país. Por isso mesmo, deram origem a tantas “piadas de português”, as mesmas que ingleses contam sobre os irlandeses e franceses sobre os belgas.
Quando vamos para Portugal e viajamos pelo país, com frequência lidamos com pessoas que exercem profissões simples – carregadores de malas, frentistas de posto de gasolina, um camponês a quem, em pleno campo, pedimos uma informação. De um lado, nem sempre conhecem os termos utilizados por brasileiros ou não entendem nosso sotaque. De outro, como é seu costume, pegam tudo ao pé da letra, ao contrário de nós. Assim, quando paramos em um posto de gasolina, num recanto perdido de Trás-os-Montes e pedimos para “encher o tanque”, o frentista nos olhou, franziu a testa e perguntou: “É para encher cheio?”. Numa outra ocasião, quando quisemos saber a que horas era o check-out naquele hotel, o rapazinho que carregou as malas para nós do carro até o quarto não entendeu. Mudamos a frase: “A diária. A que horas termina a diária aqui?”. Seu rosto iluminou-se: “O dia em Portugal termina à meia-noite!”. Entreolhamo-nos e tivemos que conter o riso. Mas, sejamos justos, se estivéssemos viajando pelo sertão do Brasil teríamos, talvez, respostas parecidas. Vá a uma das maiores cidades de Portugal e converse com portugueses de classe média (que em geral são mais ilustrados e leem bem mais do que muita gente por aqui: você verá que são bem informados e cultos. No mínimo sabem votar muito melhor do que nós ! E a corrupção, embora exista também em Portugal e no resto do mundo não é institucionalizada como acontece no Brasil.

Piada de brasileiro

Uma vez perguntei a um amigo português se em Portugal também faziam piada de brasileiros, e ele respondeu: “Olha, pá, não é necessário…”. (Uma coisa  é verdade: parecem que pelo menos sabem votar muito melhor do que nós!)
Os portugueses, aliás, parecem não dar muita bola para essas anedotas. Como me disse o mesmo amigo, ”os colonizados costumam fazer piadas sobre seus colonizadores.”