Londres no século XX
Downing Sreet, Londres, Inglaterra
Downing Sreet, Londres, Inglaterra

 O começo do século XX foi uma continuação da era dourada de Londres

Em 1901 seu sistema de transporte ganhava seu primeiro bonde elétrico e, em 1904, a linha de ônibus entre Peckham e Oxford Circus. Esse período de extrema prosperidade só foi interrompido pela Primeira Guerra Mundial, uma insanidade que ceifou a vida de milhões de europeus e preparou o terreno para a ascensão do nazismo. Como um prenúncio do que aconteceria em grande escala anos mais tarde, durante a Segunda Guerra, Londres sofreu com o bombardeio aéreo. Felizmente, na Primeira Guerra, os ataques eram feitos por Zeppelins que, obrigados a voar a grande altitude para escapar dos caças ingleses, tinham pouca precisão.

Uma urbanização acelerada

Terminada a guerra, Londres continuou beneficiando-se do progresso urbano, com a ampliação das redes elétrica, de iluminação pública, ferroviária e metroviária. Com a crescente segurança alcançada pelos transportes aéreos, em 1919 foi inaugurado o primeiro voo regular de passageiros entre Londres e Paris. Em a 1922 surgia a famosa BBC e em 1926 era instalado o primeiro semáforo em Piccadilly.

As suffragettes

Em 1905 Londres começou a ser palco de passeatas organizadas por mulheres que exigiam direito ao voto: as suffragettes. Sua primeira vitória ocorreu em 1918, quando cidadãs de mais de 30 anos se tornaram eleitoras. A plena equiparação aos homens nessa área só foi alcançada em 1928.

A mudança no cenário inernacional

Em 1930 o cenário internacional começou a mudar. De um lado os Estados Unidos começaram a superar a Inglaterra como principal nação capitalista, enquanto o regime soviético se consolidava e a Alemanha nazista se rearmava. Em 1939 eclodiu a guerra e a situação do Reino Unido agravou-se com a derrota dos aliados em Dunkerke e a queda da Holanda, da Bélgica e da França. Embora a situação insular da Inglaterra e sua poderosa marinha de guerra tenham salvo o país de uma invasão alemã, momentos difíceis aguardavam os ingleses, em particular os londrinos. Disposto a dobrar a moral da população civil inglesa, Hitler iniciou uma campanha de bombardeios sobre Londres. A destruição foi enorme. Para escapar das bombas, as pessoas dormiam dentro de estações de metrô. Mais de 500 mil crianças foram levadas de Londres para regiões rurais.

A destruição do patrimônio arquitetônico de Londres

Ao contrário de Paris, que foi ocupada mas saiu intacta da guerra, Londres teve boa parte de seu patrimônio arquitetônico destruído durante o auge dos bombardeios, entre setembro de 1940 e maio de 1941. A título de anedota comenta-se que os franceses teriam dito aos alemães: “Entrem, mas por favor, não quebrem nada”. Os ingleses teriam tomado a atitude oposta: “Podem destruir tudo, mas aqui vocês não entram.”

O radar, a arma secreta britânica

O fato é que os ingleses resistiram bravamente. Seu ultra-secreto sistema de radar ajudou: quando os aviões alemães atravessavam o Canal da Mancha, já encontravam os caças ingleses Spitfire e Hurricane da RAF (Royal Air Force) a esperá-los. Como disse Churchill, referindo-se ao heroísmo dos pilotos ingleses: “Nunca, no campo dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos.”
A certa altura, as perdas da força aérea alemã tornaram-se tão elevadas que Hitler desistiu da campanha de terror contra Londres. Mas 20 mil londrinos já tinham morrido nos bombardeios.

O final da guerra

Com a ajuda dos EUA e o erro do ditador alemão ao criar nova frente de batalha contra os soviéticos, a balança pendeu a favor dos aliados e os nazistas foram derrotados. Curiosamente, Churchill, que tão bem conduzira o país durante a guerra, foi derrotado nas urnas pelos trabalhistas quando a paz voltou a reinar.

Nem Londres nem o Império Britânico do pós-guerra eram os mesmos
O país saiu empobrecido do conflito. Havia racionamento e filas. Poucos anos depois o império perdeu sua principal colônia, a Índia. A recuperação foi lenta e embora Londres ainda fosse uma das grandes cidades europeias, não era mais “a capital do mundo”. Só os símbolos exteriores de sua antiga glória permaneceram firmes. A monarquia, é claro, continuou sendo o principal deles. Em 1947, a princesa Elizabeth casou-se com Phillip com grande pompa.
A destruição causada pelos bombardeios alemães provocou uma falta de moradias crônica que perdurou por muitos anos. Uma solução foi a construção de prédios de apartamentos, o que mudou o perfil urbano. Observando-se a cidade percebe-se a diferença entre as áreas reconstruídas, um tanto insípidas, e as que escaparam das bombas.

O fog de Londres

Londres sempre foi conhecida por seu fog, uma densa neblina. Somou-se a ele o smog, fumaça provocada pelos sistemas de aquecimento a carvão. A situação foi se agravando, até que em 1952 ocorreu o Great Smog, que durou vários dias e provocou a morte de milhares de pessoas. Demorou um pouco, mas quatro anos mais tarde foi promulgado o Clean Air Act, que impôs o uso de sistemas de aquecimento não-poluentes.

Swinging London

Recuperando-se gradualmente, a cidade não perdeu seu charme e manteve ainda relevante importância econômica e cultural entre as principais cidades do planeta. O que aconteceu em Londres na segunda metade da década de 1960 influenciou o comportamento da juventude no mundo todo. Bandas como os Beatles e os Rolling Stones tornaram Londres a referência musical do planeta, superando os Estados Unidos, e abriram caminho para que o rock se popularizasse. Em toda parte, garotos aprendiam a tocar guitarra e montavam suas bandas de garagem na esperança de emplacar um hit na Billboard. Muitos conseguiram.

Na moda, Mary Quant inovou com a criação da minissaia e a modelo Twiggy lançou um padrão de beleza esguio e meio andrógino, influenciando o gosto moderno. Usavam-se vestidos-trapézio, perucas, roupas coloridas com botões dourados e babados, cortes de cabelo compridos e desfiados… Tudo muito shaggy e groovy, como nos filmes de Austin Powers, baby. O carro do momento era o Mini Cooper. James Bond fazia sucesso, ainda representado nas telas por Sean Connery que, ao lado de Michael Caine, Peter Sellers e Peter O’Toole, despontava como ídolo do cinema.
O fenômeno estético, artístico e cultural que tomou conta de Londres ficou conhecido pela expressão “Swinging London”, usada por Diana Vreeland, editora de moda da revista Vogue, para definir o “balanço” da vibrante cidade em que tudo acontecia.

O pós-guerra

Do pós-guerra para cá, governos trabalhistas e conservadores têm se alternado no poder. Alguns problemas arrastam-se há décadas, como é o caso da Irlanda, de forte população católica, que não aceita a união com a Inglaterra e a presença militar inglesa em seu território. O apoio inglês aos protestantes tem gerado atentados como os que ocorreram em Londres em 1974 e em 1983, reivindicados pelo IRA, o exército irlandês de libertação.
No plano urbanístico, mesmo uma cidade conservadora como Londres vai aos poucos passando por mudanças. Uma delas foi a transferência do tradicional mercado de Covent Garden para fora da zona central da cidade.

Margaret Thatcher

Um dos governos mais longos e que mais marcaram o Reino Unido foi o de Margaret Thatcher, líder da ala direita do Partido Conservador que assumiu o governo em 1979, com o país mergulhado em uma série crise econômica e inflação preocupante. Thatcher cortou verbas de programas sociais (até o leite das crianças nas escolas…), implantou um programa de privatizações, uma rígida política monetarista e peitou os sindicatos.

A Guerra das Malvinas

Impopular, com todas as pesquisas apontando sua derrota nas eleições seguintes, a “Dama de Ferro”, como era chamada, recebeu em 1982 um presente da corrupta e desmoralizada ditadura argentina: a Guerra das Malvinas. Sabe-se que não existe nada melhor do que uma guerra para reforçar regimes decadentes. De fato, respondendo prontamente ao apelo “por la patria”, milhares de portenhos agitavam bandeiras nacionais em frente à Casa Rosada, apoiando o ditador Galtieri. Os milicos argentinos acharam que os ingleses protestariam, mas não entrariam em guerra por causa de umas ilhotas geladas perdidas no meio do Atlântico, mas se deram mal. A alta oficialidade argentina como a de outros países do Cone Sul, eficiente em perseguir e torturar opositores civis, revelou-se, do ponto de vista militar, de uma estarrecedora incompetência. Talvez por já desconfiar disso, Thatcher resolveu aceitar o desafio e retomou as ilhas, reforçando a auto-estima britânica, em baixa nas últimas décadas. Com isso recuperou sua popularidade e ganhou as eleições de 1983 com ampla maioria.

O final do século XX

Muito mais ligado aos EUA que aos demais países europeus, seu governo se opôs à integração com o restante da Europa. Cada vez mais radical em sua política e abusando do prestígio que conquistara, Thatcher foi tomando medidas que desagradaram a maior parte da população. Foi o caso do chamado poll tax, uma pérola do reacionarismo, que previa a cobrança de um imposto pelo número de pessoas residentes em um imóvel, independentemente de suas rendas ou do valor da propriedade. A reação dos ingleses a essa medida foi tão forte que Margaret perdeu até o apoio de seu próprio Partido Conservador e teve que renunciar ao cargo.
Thatcher foi sucedida por John Major, do mesmo partido, e os conservadores se mantiveram no poder até 1997, quando o trabalhista Tony Blair tornou-se primeiro-ministro.
Naquele mesmo ano, a princesa Diana morreu em um acidente de automóvel em Paris, tornando-se, ao lado de John Lennon, uma das celebridades cuja memória é mais cultuada pelos britânicos.
Em 1994 o Eurotunnel fez Londres ficar mais perto do continente; uma aproximação mais física do que política.