Etiópia: as igrejas de pedra de Lalibela

Etiópia: as igrejas de pedra de Lalibela 

Fotos e textos de Haroldo Castro

Estive em Lalibela pela primeira vez em 1983. O vilarejo era pobre e o único hotel era uma espelunca. Bem diferente dos hotéis, dos restaurantes e das ruas empedradas de hoje. Passar pela Etiópia durante a expedição “Luzes da África” significa voltar também à cidade das igrejas de pedras e a festa de Fasika (Páscoa) é a melhor oportunidade.

As igrejas de Lalibela não são construções tradicionais: são esculturas realizadas na rocha. Para entender como Lalibela se transformou em um dos lugares mais sagrados da Etiópia e da África, é preciso regressar ao tempo de quem mudou o destino da cidade.

Rei envenenado encontra-se com Deus

Gebre Mesqel Lalibela nasceu em condições insólitas: rodeado por um enxame de abelhas no momento do parto. Sua mãe considerou o fenômeno como um sinal de proteção para o bebê. De fato, ele viria a ser o Imperador da Etiópia a partir de 1189. Já no trono, o soberano foi envenenado por parentes invejosos e entrou em um estado de coma que o levou, segundo a lenda etíope, aos céus.

Acompanhado por uma legião de anjos, o rei visitou igrejas celestiais e se encontrou com Deus. Ao invés de receber o rei no paraíso, o Pai Celestial o incumbiu de uma nova missão: Lalibela deveria regressar ao mundo dos humanos, esculpir igrejas na montanha e criar uma Nova Jerusalém, visto que a Jerusalém original havia sido tomada pelos árabes.

Igrejas aparecem do nada

A visão mística do imperador Lalibela foi colocada em prática e dezenas de milhares de camponeses se tornaram pedreiros. Quebraram e retiraram milhões de toneladas de rochas para que novas igrejas pudessem aparecer do nada. Os trabalhos começaram pelo teto. Cavaram em volta do futuro templo para deixar apenas um bloco maciço de pedra rosada. Depois, se dedicaram às paredes e às fachadas, dando forma ao monumento. Em seguida, os escultores entraram na igreja e esvaziaram os espaços para criar colunas, santuários e nichos. As portas foram emolduradas, os pilares cinzelados e as janelas desenhadas. O trabalho foi tão árduo que, segundo os etíopes, o rei contou com a ajuda de um batalhão de anjos. Enquanto os humanos laboravam de dia, os seres celestes completavam o serviço à noite.

Na Etiópia, a fronteira entre a fábula e a realidade é como a fumaça do incenso queimado dentro dos templos, intangível, dissolvendo-se por todas as partes. Nenhum documento escrito resistiu aos oito séculos que nos separam das construções divinas. Mas meus olhos não mentem: as igrejas de Lalibela existem, de verdade!

Templos entalhados na pedra

À beira de um buraco retangular com 15 metros de profundidade, descubro Bet Giyorgis, a Casa de São Jorge. Seu desenho é o resultado da inspiração religiosa que soube moldar o principal símbolo cristão – a cruz – à arquitetura lítica. O topo do teto foi esculpido com a forma de três cruzes concêntricas e as sombras criadas pelo sol baixo da manhã realçam o gigantesco baixo-relevo.

Mesmo se a visão de cima é fascinante, preciso encontrar o caminho de descida. Uma rampa de baixada, também cavada na rocha, me leva a um túnel. Caminho na penumbra e, quando saio à luz do dia, estou dentro de um enorme buraco, cercado por quatro paredões altos. À frente, vislumbro a escultura nobre, o templo dedicado ao Jorge que venceu o dragão. Como se não bastasse a surpresa visual, uma trilha sonora acrescenta encanto ao momento. De dentro da igreja, brotam cânticos suaves. São padres e diáconos que leem passagens da Bíblia no sagrado ge’ez. Estou atônito, nunca vi nada igual.

Cada igreja com sua magia

Se Bet Giyorgis fosse a única obra de arte em Lalibela, ainda assim valeria a pena visitar o povoado de 15 mil habitantes, situado a 2.500 metros de altitude. Mas o legado deixado pelo soberano cristão foi bem maior. Lalibela abriga outras dez maravilhas monolíticas. Agrupados em dois grupos, os templos estão interconectados por túneis, caminhos subterrâneos e passagens secretas.

Bet Medhane Alem é a maior de todas as igrejas escavadas na rocha – não apenas na Etiópia, mas em todo o mundo. A edificação de 34 metros assemelha-se a um templo grego e possui 34 colunas externas que ajudam a sustentar o pesado teto. Imagino o labor árduo dos operários ao desbastar cada um desses pilares de quase 10 metros de altura. A fé não apenas move montanhas, mas as escava com ardor.

Atravesso mais um túnel e entro em um pátio enorme, a 12 metros abaixo da superfície, para encontrar três outras igrejas. Enquanto duas delas estão embutidas no paredão de pedra, Bet Maryam, dedicado à Virgem Maria, reina no centro do buraco da esplanada. Suas dimensões são modestas, mas a decoração interna é exuberante. O teto e os arcos estão pintados com cruzes e motivos florais, em tons quentes de vermelho e verde, dando ao ambiente um toque alegre. A Casa de Maria é o templo mais popular em Lalibela e teria sido o primeiro a ser escavado pelo rei Lalibela.

Uma fé viva há mais de oito séculos

O fascinante em Lalibela é que as igrejas estão vivas. Raros monumentos com tantos séculos de idade ainda mantêm suas funções essenciais. Quantos templos não se transformaram em museus; quantos palácios não viraram ruínas? Em Lalibela, não. Os rituais prosseguem inalterados e a atmosfera é de fé intensa.

Entro nas diferentes igrejas e descubro devotos enrolados em longos tecidos de algodão branco. Parecem estar ébrios com os mantras sagrados. Alguns leem passagens bíblicas em voz baixa, outros preferem se deitar sobre os tapetes que revestem o assoalho frio. O aroma do incenso não está apenas no ar, mas impregna paredes, tecidos e quadros no interior da igreja.

A Sexta-Feira da Paixão

A Sexta-Feira da Paixão marca a morte de Jesus e alguns fiéis etíopes parecem reviver os momentos de dor do Cristo. Em uma alcova, vejo duas senhoras que deixam escorrer lágrimas enquanto leem os trechos que narram o sofrimento pelo qual o Messias passou. Parece não existir a barreira do tempo.

Os tesouros de Bet Maryam são retirados e colocados em um altar criado sobre tapetes. Coroas, cruzes e pinturas são mostradas à população, que não perde a oportunidade para reverenciar os objetos sagrados.

No sábado à noite, todas as igrejas também estão repletas. Regresso a Bet Medane Alem e Bet Maryam para vivenciar as horas que antecedem a missa solene. As leituras da Bíblia e os cânticos sagrados são mais intensos. Alguns sacerdotes lideram procissões ao redor do templo ou vigílias no interior. Outros organizam danças ao ritmo do sistro, chocalho metálico usado pelos religiosos.

Um mundo parado no tempo

Lalibela é um lugar de peregrinação para todos os ortodoxos etíopes. Desde o final do século XII, suas igrejas e seus monastérios nunca deixaram de ser habitados e a religiosidade se manteve ardente até hoje. O tempo passou e as igrejas se conservaram idênticas; inabaláveis como as pedras que as engendraram. Até os fiéis parecem viver em séculos passados. Um mundo parado no tempo!

Segundo os parâmetros do Banco Mundial, estou em um dos países mais pobres do mundo. Mas se os indicadores artísticos e espirituais pudessem ser computados, a Etiópia seria considerada uma das nações mais ricas do planeta.

Haroldo Castro – Fotógrafo e jornalista, ele é o autor de “Luzes da África”, livro indicado ao Prêmio Jabuti que relata sua expedição de 40 mil km por 18 países africanos em 2010. Em 2013, idealizou a “Viajologia Expedições” (www.viajologia.com.br), uma operadora especializada em desenhar viagens a destinos exóticos na África. Depois de conhecer a Páscoa em Lalibela em 2010, ele já levou dois grupos de viajantes brasileiros à Etiópia em 2014 e em 2015. Em abril de 2016, Haroldo levará um novo grupo à Lalibela para assistir a Páscoa e também para conhecer diversas etnias no vale do rio Omo, no sul do país.

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