O que resta da Paris medieval?

Pont des Arts, Paris

Conheça a Paris medieval que ainda existe no século XXI

Para João Carlos Pires

A história da cidade de Paris é tão rica e variada que há, por toda a cidade, e em alguns pontos bem próximos, lugares que exalam memórias de épocas remotas. A Idade Média, dentre elas, mais fascina o viajante que se aventura a ultrapassar a fronteira do turismo convencional e se dispõe a conhecer a materialidade e o espírito presentes em obras humanas que sobrevivem a seu tempo histórico.

A esses viajantes, para o começo de um gostinho pelo assunto, dedicamos estas dicas:

• O Musée du Moyen Âge (Museu da Idade Média), no Hôtel de Cluny, no coração do Quartier Latin, repleto de tesouros históricos. No museu, que funciona em um edifício medieval onde viviam monges cistercieneses da ordem beneditina de Cluny, podem ser vistas preciosidades como as tapeçarias com o tema da Dame à la Licorne (A Dama e o Unicórnio),  que dão asas à imaginação pelas possibilidades do simbolismo de seu mito, e as cabeças de pedra das estátuas dos reis bíblicos que  adornavam a fachada da Notre-Dame e foram arrancadas  pelos revolucionários antimonarquistas de 1789, que achavam que as cabeças eram de reis da França. Essas cabeças foram encontradas muito tempo mais tarde, enterradas em pontos variados do centro da cidade.

• Os emocionantes vestígios de Lutécia e da Paris medieval na Cripta Arqueológica que fica em frente à catedral de Notre-Dame (É subterrânea, tem que procurar a entrada!). Escavações arqueológicas revelaram ali trechos de ruas e fundações de casas das eras romana e medieval.

• A Notre-Dame, um dos principais exemplares da arquitetura medieval na França e, provavelmente, a igreja gótica mais conhecida do mundo  – sem falar na sua importância histórica. Fachada espetacular, interior com tudo o que se imagina de uma estupenda catedral gótica,  vitrais de hipnotizar. Quem tem disposição deve subir a pé os muitos e muitos degraus de uma das torres da catedral para aceder ao topo e chegar perto das famosas gárgulas. Mas o melhor, claro, por mais interessantes que sejam as gárgulas, é a vista que se tem de Paris! O tesouro da catedral também é digno de se conhecer, dá para fazê-lo em 30 ou40 minutos; a não ser que o tempo de permanência em Paris seja curto demais.

• A Sainte-Chapelle (“Capela Santa”), outra obra-prima gótica. Foi construída pelo rei Luís IX, mais conhecido como São Luís, para abrigar a (suposta) coroa de espinhos de Cristo por ele trazida do Oriente  pdelos idos do século XIII.

• A Conciergerie, que foi, na Alta Idade Média, sede da “polícia real” e serviu de prisão para traidores e similares de origem nobre. (Não que, sendo nobres, tenham sido muito bem tratados ali!) O significado histórico do lugar impacta todos que conhecem um pouco dos acontecimentos de Paris desde a Idade Média até a Revolução Francesa.

• O Museu Carnavalet e seu surpreendente acervo sobre a história de Paris, no Marais. Não importa quais são as épocas histórias de interesse de quem visita, ali é para visitar pelo menos 2 horas.

• As ruelas do bairro do Marais, a serem percorridas sem pressa. Ali, além do traçado medieval labiríntico das ruas, os mais observadores encontrarão, como destaques:

  • Vestígios da muralha construída pelo rei Felipe Augusto no fim do século XIV para cercar a cidade, cujos limites orientais, naquela época, terminavam ali. Podem ser vistos nos seguintes lugares: 15, rue de Ave Maria; 9 a 15, rue de Charlemagne; e, principalmente, 17, 19 e 21, rue des Jardins-Saint-Paul.
  • O Cloître (claustro) des Billettes, o único claustro da Idade Média que ainda existe em Paris. Billettes era o nome pelo qual eram conhecidos os freis da Ordem da Caridade de Nossa Senhora.  24, rue des Archives.
  • O Hôtel de Sens, um “castelinho” do século XIV onde moraram pessoas interessantes, dentre as quais se destaca Marguerite de Valois, mais conhecida como Margot, rainha da França, mulher de Henrique IV. (Para saber mais sobre essas duas pessoas de enorme importância histórica, recomendamos assistir ao filme “A Rainha Margot”). Fica no nº 1 da Rue du Figuier.
  • Casas medievais típicas? Paris ainda tem! Para vê-las, basta ir até a rue François Miron (ainda no Marais). São exatamente o que se imagina ao pensar em casas da Idade Média na Europa, porém ao vivo e em cores.

• O “miolinho” do Quartier Latin, perto do rio e do Boulevard St-Michel. Hoje, por ali proliferam lojinhas de suvenires e restaurantes turísticos de péssima qualidade! O que deve levar alguém até ali é apenas o interesse pelos meandros 100% medievais do pedaço próximo ao rio Sena.

• As igrejas medievais. Que bom que há várias!

  • No Quartier Latin, as que mais tocam o coração pela singeleza e beleza são as de St-Sevérin e de St-Julien-le Pauvre. Nas duas, costuma haver recitais e concertos de música erudita, gratuitos ou a preços acessíveis. Uma experiência fantástica.
  • Em St-Germain, é claro, o destaque é para a igreja de St-Germain-des-Prés, uma preciosidade que sofreu reformas posteriormente, mas tem sua origem no século V.
  • Em Montmartre, onde, infelizmente, a maioria dos visitantes se concentra na Basílica de Sacre-Coeur e não se esforça para conhecer o bairro a fundo, fica a igreja de St-Pierre de Montmartre, do século XII.

• É Paris ou não é? Formalmente, St-Denis não é Paris. São municípios distintos. Mas isso não tem a menor importância, já que se chega de metrô a St-Denis, encostada em Paris, onde fica a excepcional basílica medieval em cuja cripta estão enterrados vários reis da França. Para quem curte Idade Média, não tem como não visitar!