O Cristianismo e a queda de Roma
O Cristianismo e a queda de Roma
O Cristianismo e a queda de Roma

O Cristianismo e a queda de Roma

Jesus Cristo nasceu e morreu em plena época de domínio romano sobre todo o mundo ocidental conhecido – e sobre uma boa parte do Oriente Médio. Porém, enquanto Pilatos simplesmente “lavou as mãos”, não querendo assumir responsabilidade pela crucificação de Jesus, o Império, como instituição, perseguiu violentamente os primeiros cristãos durante três séculos. São incontáveis os mártires do início da era cristã, muitos deles considerados santos.

A expansão do cristianismo

Acontece que, mesmo perseguidos, os cristãos existiam – e se multiplicavam cada vez mais. Sua doutrina interessava principalmente aos menos favorecidos, como os escravos, para quem nada poderia haver de mais confortante do que a esperança de um “reino de Deus” ao alcance de todos os homens, sem distinção; bem diferente, portanto, da realidade social do Império Romano.

A mudança de costumes

O Cristianismo, ao que parece, não foi o único responsável pela mudança dos costumes um tanto libertinos dos antigos romanos. Um certo puritanismo teria começado a se impor por volta do ano 200, sob o imperador Marco Aurélio. Isso desmente em parte a versão de que a queda de Roma teria sido consequência da decadência moral de seus habitantes.
Não há dúvida, porém, de que o Cristianismo influenciou os costumes. Se antes só o adultério feminino era condenável, nessa nova moral, o masculino também passou a ser um delito, embora na prática dificilmente um homem fosse punido por isso.

O Cristianismo e o julgamento moral de seus seguidores

Enquanto os deuses pagãos não se importavam muito com a vida particular dos mortais, a Igreja introduziu o julgamento moral de seus seguidores por um clero organizado que se estabeleceu como intermediário entre a divindade e o homem, assegurando a salvação de sua alma.
Consolidaram-se na nova sociedade a noção de pecado, um pudor culpado em relação ao corpo e um extremo moralismo, frequentemente hipócrita (como se pode perceber quando se lê a história de vida de certos papas antigos).

O que teria sido do Cristianismo sem Constantino?

É impossível especular o que teria sido do Cristianismo se o imperador Constantino não tivesse autorizado o culto que viria a se tornar religião oficial do Império Romano. Segundo a lenda, na batalha da Ponte Milvius, em 312, ele teria enxergado uma cruz no céu formada por raios de sol e interpretado esse sinal como uma indicação divina de sua vitória; daí vem a expressão In hoc signo vinces (“Com este signo vencerás”). Constantino ganhou a batalha e, no ano seguinte, expediu o Édito de Milão, reconhecendo a liberdade religiosa no Império. Foi só então que, pelo menos oficialmente, os cristãos deixaram de ser perseguidos. Depois, com o apoio de imperadores convertidos, a nova religião deslanchou, e por volta de meados do século IV os bispos das cidades italianas começaram a ganhar importância, apesar de os cristãos ainda serem minoria.

Roma, um império decadente

A essa altura, Roma tinha se tornado sede de um império decadente, que mal se mantinha sobre as próprias pernas e era cada vez mais assediado por tribos bárbaras, até que em 410 foi saqueada pelos visigodos. O golpe final aconteceu em 476, quando os godos, em vez de saquear e ir embora, decidiram ficar. Entretanto, a cultura romana ainda se manteve por séculos em Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente.
Uma coisa bem interessante da qual pouca gente se dá conta é que, no fim do Império, tanto os bárbaros quanto os cristãos – cada qual a seu modo e por diferentes motivos – eram opositores do regime romano. Por conta desse interesse comum na derrubada do Império – e também porque a doutrina cristã era, já naquela época, bem mais consistente do que as crenças rudimentares dos bárbaros – muitos se converteram ao Cristianismo. Assim, é curioso notar que muitos dos bárbaros que invadiram o Império Romano eram cristãos!

As cruzadas

No começo do século XI tiveram início as cruzadas que, além da intenção de expulsar os muçulmanos da Terra Santa, tiveram outros propósitos. Um deles, incentivado pela Igreja, era o de desviar os bandos armados que atemorizavam a população, ligados ou não a algum senhor feudal, para um objetivo mais nobre. A outra finalidade era econômica. Ao passo que a Igreja e a nobreza viam nas cruzadas a possibilidade de enriquecimento pelas pilhagens, as repúblicas marítimas italianas vislumbravam vantagens comerciais. Os venezianos, com sua poderosa frota naval, forneceram o transporte (pago, é claro!) até a Terra Santa.

Os reflexos das cruzadas

As cruzadas tiveram reflexos importantíssimos na Itália em razão da intensificação do comércio marítimo no Mediterrâneo. A circulação de mercadorias e riquezas provocou profundas mudanças na sociedade medieval e o surgimento de uma nova classe, a burguesia (os “habitantes dos burgos”). Os primitivos burgos medievais, aglomerações de casas próximas às sedes dos feudos, transformavam-se em ricas cidades, cada vez menos dependentes dos senhores feudais, que acabaram desenvolvendo uma estrutura de produção própria, baseada nas corporações. Para trabalhar numa cidade era necessário ser membro da corporação de sua categoria, não se admitindo ninguém de fora fazendo concorrência aos padeiros, ferreiros ou sapateiros locais.
Até hoje, ao examinar um mapa detalhado da Itália, veem-se dezenas de cidades que levam o nome de “burgo” (borgo,em italiano): Borgo Giuliano, Borgo San Giovanni etc.

O fim da Idade Média e a Renascença

O desenvolvimento do comércio e o interesse por mercadorias do Oriente provocaram o aparecimento de mercados semanais regulares, além das feiras em determinadas cidades, que atraíam compradores de toda a Europa. É claro que mercados dessa importância não podiam funcionar na base da troca de mercadorias, daí o ressurgimento da moeda e posteriormente a criação da letra de câmbio pelos banqueiros florentinos no fim do século XIII, para evitar o transporte de ouro e prata por estradas e mares inseguros.
A atividade bancária, que surgiu nesse contexto, era exercida por comerciantes que possuiam capital acumulado, muitos deles judeus, já que a Igreja (para inglês ver…) proibia a prática da usura por católicos.

As grandes cidades italianas

As grandes cidades italianas – quase sempre rivais – tornaram-se bastante prósperas, cunhavam suas próprias moedas, e as mais importantes repúblicas marítimas (Gênova, Pisa, Veneza e Amalfi) tinham suas frotas navais, que disputavam o domínio do Mediterrâneo.
Entre a última década do século XIII e o começo do século XIV, Dante, Petrarca e Bocaccio criaram suas obras-primas, que consolidaram o uso do florentino como a língua italiana escrita num país com dezenas de dialetos. Apesar de o papado ter se transferido para Avignon em 1309, só retornando para Roma em 1376, o centro-norte da Itália conservou sua posição como a mais importante referência cultural da Europa. A região, com ricos centros urbanos onde comerciantes abastados e banqueiros dominavam a vida política, beneficiou-se de um grande desenvolvimento artístico e intelectual. É provável até que a ausência temporária do papado tenha favorecido a liberdade de criação e a circulação de ideias.

Itália, berço do Renascimeno

Como sede do Império Romano e principal herdeira da cultura latina, é natural que a Itália estivesse destinada a se tornar o berço da Renascença. Enquanto os normandos conquistavam todo o sul da Itália, no centro-norte o poder continuava dividido entre cidades-estados independentes, como Siena, Florença e Milão, dominadas por poderosas famílias ducais, ou como Veneza e Gênova, governadas por oligarquias eleitas pelos nobres. Diversos desses governantes eram esclarecidos e incentivavam a cultura e a arte, cercando-se de artistas e filósofos. Foi esse ambiente que propiciou, nas cidades toscanas, particularmente em Florença, a Renascença, ou Renascimento, período de florescimento artístico e cultural, depois da longa noite medieval em que pouco se produziu.
Ao contrário das prósperas cidades toscanas e de outras no norte da Itália, Roma estava pobre, insalubre e com seus monumentos em ruínas. Em nada lembrava a orgulhosa capital do maior império do mundo antigo.

Época de profundas transformações na sociedade italiana

Esse foi, portanto, um período de profundas transformações numa sociedade até então agrária e com uma vida cultural centralizada na Igreja, que havia imposto sua visão teocêntrica de mundo nas ciências, nas artes e nos costumes.
Na pintura, a influência bizantina começou a se transformar pelas mãos de Giotto, um dos primeiros grandes mestres italianos do fim do período medieval, assumindo cores e formas bem latinas. Na arquitetura, a Baixa Idade Média nos deixou um patrimônio de magníficas catedrais, construções que nos surpreendem por suas linhas arrojadas. Havia, na realidade, uma disputa para ver qual cidade fazia uma catedral mais imponente e essas obras custavam verdadeiras fortunas, numa época em que as pessoas viviam em casebres e mal tinham o que comer.

A Peste Negra

Infelizmente, essa revolução artística foi interrompida ou muito atrasada pela Peste Negra do século XIV, que matou cerca de um terço da população europeia. As pessoas, apavoradas, reuniam-se nas igrejas para rezar, pedindo o fim da peste, mas isso aumentava o risco de contágio. Ou seja, quanto mais rezavam, mais morriam…
Sem dúvida, em razão da escassez de mão-de-obra, o trabalho braçal tornou-se mais caro, provocando alguma melhoria no padrão de vida dos mais pobres.

Dica

“O filme O Incrível Exército de Brancaleone”, um clássico estrelado por Vittorio Gassman, retrata de forma tragicômica o período da Peste Negra no centro da Península Itálica e as relações sociais da época. 

A história dos papas é contada de forma bastante interessante por Eamon Duffy no livro “Santos e Pecadores”.

Acompanhe a história de Roma

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