Maradona e o futebol argentino
Estadio do Boca Juniors em Buenos Aires, Foto de Sérgio Formazari
Estadio do Boca Juniors em Buenos Aires, Foto de Sérgio Formazari

Maradona e o futebol argentino: o mito Maradona

A adoração que o povo argentino nutre por Diego Armando Maradona teve início ainda na década de 70 em razão de seu notável talento com a bola nos pés, se solidificou com sua fundamental participação na conquista da Copa de 1986 e já há algum tempo tornou-se algo quase transcendental. Não existe no Brasil nenhum exemplo de idolatria que chegue aos pés do prestígio incondicional atingido por Maradona junto aos argentinos, desde o cidadão mais pobre e desinformado até a nata da sociedade. Nem Pelé, indiscutivelmente o maior jogador de futebol de todos os tempos e eterno termo de comparação do craque argentino, detém entre nós a mesma popularidade e carinho que El Pibe de Oro (“O menino de Ouro”) goza por lá. A explicação para esse fenômeno não se restringe ao que Maradona fez dentro de campo (e muito menos fora dele), mas também passa por questões políticas, geopolíticas e até sociais!

Um astro

Para início de conversa, Maradona realmente foi um gênio, um astro, um jogador muito acima da média com a bola nos pés e, às vezes, nas mãos. Sua baixa estatura era compensada com muita força física, rapidez e agilidade, além de habilidade e precisão irritantes. Nascido em 30 de outubro de 1960, Diego iniciou sua carreira aos nove anos numa das equipes de divisão de base do Argentino Juniors chamada Los Cebollitas. Enfrentou todas as dificuldades inerentes à realidade de uma família numerosa e pobre na periferia de Buenos Aires, numa época em que a capital portenha esbanjava luxo e sofisticação.
Aos 16 anos estreou na equipe principal do time portenho (cujo estádio atualmente leva o seu nome), onde atuou por quatro temporadas e marcou nada menos do que 116 gols em 166 partidas! Em 1979 foi campeão mundial com a seleção argentina sub-20, sendo eleito o melhor jogador da competição, e em 1981 estreou no Boca Juniors, seu time do coração, sagrando-se campeão do Torneo Apertura naquela temporada.

A primeira copa de Diego Maradona

Participou de sua primeira Copa do Mundo em 1982, ano de triste lembrança para o futebol brasileiro, mas sua estréia foi bastante apagada: marcou um único gol e se despediu sendo expulso por uma entrada violenta durante a derrota por 3 a 1 para o Brasil na segunda fase da competição. Logo após a Copa, numa negociação envolvendo valores altíssimos para a época, transferiu-se para o Barcelona, onde conquistou uma Copa da Liga, uma Copa do Rei e uma Supercopa da Espanha. Sua passagem pelo clube catalão foi abreviada em razão de uma briga generalizada ocorrida na final da Copa do Rei de 1984 contra o Athletic Bilbao: a federação espanhola o suspendeu por três meses e o argentino, não se sentindo satisfatoriamente defendido pela diretoria do clube, pediu para ser negociado. Na mesma época, El Diez (“O Dez”) teria tido os primeiros contatos com a cocaína, droga que lhe trouxe inúmeros problemas profissionais, familiares e, principalmente, de saúde.

Maradona no futebol italiano

Seu destino foi inusitado em se tratando de um jogador de tamanha magnitude: a inexpressiva equipe do Napoli, que até então não havia conquistado nem um único campeonato italiano sequer em todos os seus quase 60 anos de história. Muitos o criticaram pela decisão, acreditando que Maradona havia dado um passo para trás em sua carreira. Mal sabiam os críticos que o craque argentino viveria um verdadeiro conto de fadas futebolístico na Campânia.

A Copa do México

Mas antes que Dieguito começasse efetivamente a inverter a ordem natural das coisas no tradicional calcio italiano, veio a Copa do Mundo do México, em 1986, talvez o momento mais importante de sua carreira. O povo argentino começava a respirar novos ares depois de anos submerso em uma ditadura sanguinária, mas ainda contava as centenas de “desaparecidos” durante o regime militar, bem como de jovens mortos estupidamente na malfadada Guerra das Malvinas, vencida pelos ingleses em 1982. A Argentina tinha uma seleção com grandes valores, como Burruchaga e Valdano, mas dependia muito da genialidade de Maradona.

A partida contra a Inglaterra

Em partida válida pelas quartas-de-finais, justamente contra a Inglaterra, Maradona assinalou dois gols que marcaram a história das Copas do Mundo: o primeiro, descaradamente com a mão (“La mano de Dios”, segundo ele e 40 milhões de argentinos); o segundo, uma verdadeira obra prima, carregando a bola desde o campo defensivo, passando por metade do time inglês e praticamente entregando a bola às redes do goleiro Peter Shilton. El Pibe ainda marcou mais dois gols na vitória sobre a Bélgica e deu a assitência para o gol da vitória por 3 a 2 na final contra a Alemanha. Em uma semana, os albicelestes, liderados por Maradona, não apenas haviam vingado os compatriotas mortos pelas mãos inglesas, mas também contribuído para reconstruir a auto-estima do povo argentino com um título mundial.

Diego Maradona no Napoli

De volta a Nápoles, outras façanhas esperavam por Diego, que, praticamente sozinho, deu aos napolitanos dois scudettos nas temporadas 86/87 e 89/90, dois vice-campeonatos italianos (87/88 e 88/89), a copa da UEFA na temporada 88/89 e a Supercopa Italiana em 1990. Se considerarmos que durante a sua gloriosa passagem pelo Napoli Maradona atuou ao lado de pouquíssimos jogadores de renome, como o craque brasileiro Careca, e que durante este mesmo período as maiores potências do calcio contavam com jogadores do nível de Marco Van Basten, Ruud Gullit, Franco Baresi (Milan), Karl-Heinz Rummenigge, Lothar Matthäus, Jürgen Klinsmann (Internazionale), Rudi Völler, Zbigniew Boniek (Roma), Michael Laudrup e Michel Platini (Juventus), temos a real dimensão de quanto Don Diego “gastou a bola” e foi decisivo na conquista desses títulos.

O problema com as drogas

Dentro de campo as coisas iam muito bem, mas fora dele não se podia dizer o mesmo: drogas, abusos de toda sorte e péssimas companhias (segundo as más línguas, inclusive de membros da Camorra, máfia napolitana) faziam parte do cotidiano do craque argentino, cuja carreira, aos poucos, começava a entrar num precoce e angustiante declínio. Na Copa da Itália, em 1990, Maradona teve atuação bem mais discreta do que na edição anterior, em grande parte por atuar contundido, mas mesmo assim ajudou a levar a seleção argentina ao vice-campeonato, perdendo a final para a Alemanha. No ano seguinte, um caso de doping por uso de cocaína, sua velha conhecida, lhe rendeu uma pena de suspensão por quinze meses aplicada pela federação italiana. O episódio foi decisivo para que Diego deixasse a Itália, vindo a se transferir para o Sevilla em 1992, por onde teve passagem comprometida pela sua má forma física.

Maradona retorna a Argentina

Retornou a Argentina no ano seguinte para atuar pelo Newell’s Old Boys, equipe que defendeu por míseras cinco partidas. Em plena Copa do Mundo dos EUA, em 1994, depois de um início promissor, Maradona foi flagrado no exame anti-doping por uso de efedrina, sendo suspenso pela FIFA por mais quinze meses. Finda a suspensão, já em outubro de 1995, fez sua reestréia no Boca Juniors, equipe que defendeu até pendurar as chuteiras, dois anos mais tarde em meio a mais um flagrante de doping que nunca foi totalmente esclarecido.

Obesidade, drogas e a recuperação

Longe dos gramados, Diego afundou ainda mais nas drogas e passou a conviver com um sério problema de obesidade, chegando a se tornar uma caricatura de si próprio. Depois de ser internado várias vezes em clínicas de reabilitação, inclusive em Cuba, de figurar nas páginas policiais por posse de drogas, agressões e sonegação de tributos, e de ficar entre a vida e morte em 2004, El Pibe deu mostras, milagrosamente, de estar recuperado no ano seguinte, quando apresentou na TV argentina o bem sucedido programa semanal de entrevistas La Noche del Diez.

O álcool toma o lugar da cocaína

Maradona de fato havia se livrado da cocaína, mas em seu lugar tinha passado a consumir álcool em excesso, o que agravou novamente seu estado de saúde. Em abril de 2007, enquanto o craque se encontrava hospitalizado, foi noticiada na Argentina a sua morte, causando comoção nacional. Mas tudo não passava de um boato plantado para desviar a atenção da população de um escândalo envolvendo o alto escalão do governo (coisa que, como sabemos, nunca aconteceria no Brasil…).
A esperança é de que aquele que já driblou defesas inteiras e deixou diversas vezes seus marcadores no chão, surpreenda a todos nós driblando definitivamente a dependência química, o único adversário que até hoje conseguiu pará-lo.

Rodrigo Davidoff Enge, advogado que adora viagens e futebol e é autor de GTB Londres.

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