A Guerra das Malvinas

 

Guerra das Malvinas, prisioneiros argentinos
Guerra das Malvinas, prisioneiros argentinos

A Guerra das Malvinas e o fim do regime militar

A ditadura argentina em um beco sem saída

No início da década de 1980, apesar de ter conseguido acabar com qualquer veleidade de oposição e de ter esmagado a luta armada, a ditadura militar encontrou-se num beco sem saída. Com o país mergulhado numa severa crise econômica, a impopularidade do regime, corroído pela corrupção e pela incompetência administrativa, atingiu seu auge.
Em abril de 1982, em meio à crise, os militares jogaram com o nacionalismo das massas. (Para isso, não existe nada melhor do que uma boa guerrinha!). Decidiram invadir as ilhas Malvinas, ocupadas pelos ingleses. Imediatamente, multidões exaltadas agitando bandeiras argentinas se reuniram em frente à Casa Rosada para aplaudir o ditador Leopoldo Galtieri.

Um erro de avaliação quer custou caro

A direita militar achava que os ingleses iriam deixar para lá. Afinal, as ilhas Malvinas (que os britânicos chamam de Falkland) são um território gelado que fica a milhares de quilômetros da Inglaterra e não seria muito fácil trazer de tão longe uma força guerreira sem base de apoio na América do Sul. Mas o tiro de Galtieri saiu pela culatra: Margareth Thatcher, a durona primeira-ministra britânica, resolveu encarar.
Enfrentando manifestações e uma pressão popular crescente, a ditadura, tendo encontrado uma causa que atraía a simpatia dos argentinos, antecipou em vários meses a invasão. Segundo o General Martín Balza, respeitado por seus compatriotas e considerado um herói das Malvinas, a invasão foi feita sem preparo logístico suficiente e organizada no desespero por um regime que “naufragava”.

Um alto comando incompetente

Seu alto comando militar cometeu erros grosseiros; ninguém, por exemplo, pensou em minar as águas próximas às ilhas para danificar os navios britânicos. (Ao que parece, os ingleses ficaram surpresos ao constatar que os militares argentinos não tinham pensado nisso…) A perda de um ou mais grandes navios teria colocado os ingleses em apuros; um destroyer afundado já foi um grande estrago. Foi por pouco, ou melhor, pela incompetência do alto comando da ditadura, que os ingleses não se viram em maus lençóis.
O diplomata Gustavo Figueroa, Vice-Chanceler da Argentina nesse período difícil, relata que cada força militar – Exército, Marinha e Aeronáutica – tinha seu líder e todas agiam de forma descoordenada, sem consultar as demais, comparando as trapalhadas que cometiam a um filme de Woody Allen. Foi o caso da chamada Operação Algeciras, organizada por setores da Marinha: três oficiais foram enviados à Espanha com a incumbência de sabotar navios britâncios em Gilbraltar, mas o plano foi descoberto porque os três patetas se esqueceram de devolver no prazo os carros que haviam alugado para a missão, atraindo sobre eles a atenção da polícia espanhola…

Estratégia falha

Se após terem ocupado as Malvinas no começo da guerra os argentinos tivessem imediatamente instalado um aeroporto militar no local para que seus jatos pudessem decolar das ilhas, teriam causado sérios problemas aos britânicos. Mas, em parte porque teriam que montar uma base completa no local, o que tomaria algum tempo e também porque acreditavam que os ingleses não iriam tentar recuperar as ilhas, não o fizeram. Assim, enquanto os britânicos tinham seus aviões em porta-aviões próximos, os pilotos argentinos eram obrigados a voar 600 km do continente até as Malvinas, onde só podiam ficar uns poucos minutos, e regressar rapidamente para não ficarem sem combustível. O reabastecimento no ar de alguns aviões melhorou um pouco a situação, mas não foi suficiente.

Brasil e Uruguai apoiam a Argentina mas não interferem

O Uruguai e o Brasil, sem se envolver demais, alinharam-se (solo diplomaticamente…) com os argentinos, mas os chilenos apoiaram os ingleses. Recentemente, aliás, Fernando Matthei, comandante da Força Aérea Chilena até 1990, causou um mal-estar diplomático ao reconhecer que o Chile procurou colaborar com a Inglaterra. Justificou-se afirmando que Leopoldo Galtieri, o ditador argentino na época, “comunicó en la Plaza de Mayo que iba a recuperar todo lo que era argentino y que estaba en el sur… Y todo el pueblo argentino rugía de aprobación”. ( Queremos lembrar que en el sur estavam territórios disputados por ambos os países…).

E os americanos apoiaram os ingleses…

Antes de o conflito estourar, a liderança argentina acreditava que à vista dos serviços fielmente prestados aos Estados Unidos durante a Guerra Fria, os norte-americanos fossem apoiá-los. Ou seja, que no lugar de ficarem do lado de seu aliado histórico, iriam apostar suas fichas em um regime sul-americano corrupto e decadente. Hoje sabe-se que os norte-americanos informaram aos ingleses as posições das forças navais argentinas localizadas por satélite. A Junta Militar, apesar de ter massacrado os rojos argentinos, recorreu ao regime soviético, que lhes transmitiu informações sobre os movimentos dos navios ingleses.

A força de desembarque britânica que por pouco não foi desativada

Curiosamente, meses antes da guerra eclodir, o almirantado britânico pensara em desativar sua força de desembarque que, depois da Segunda Guerra, perdera a importância. Se a guerra tivesse acontecido uns oito meses depois, é possível que os ingleses não tivessem condições, pelo menos com a mesma rapidez, de preparar uma esquadra para recuperar as ilhas. Mais fortes no mar, os britânicos desferiram um golpe mortal na Marinha Argentina ao afundar o cruzador General Belgrano, posto a pique por um submarino. Sem condições de enfrentar a Marinha Real no mar, os argentinos recolheram sua frota nos portos e concentraram-se nos ataques aéreos à Royal Navy.

Uma guerra de curta duração

Depois de uma curta guerra em que morreram 17 britânicos e 250 soldados argentinos, a maioria deles recrutas sem preparo nem equipamento adequado para enfrentar o frio intenso das Malvinas, os ingleses recuperaram o arquipélago. Embora os jovens soldados argentinos tenham lutado bravamente, tiveram que se render à superioridade bélica dos britânicos, soldados profissionais treinados. Voltando da guerra com o estigma de “derrotados”, com uma pensão ridícula, muitos não conseguiam sequer um emprego, pois eram vistos como potenciais neuróticos de guerra e tiveram de mendigar ou ser ajudados por parentes. Cerca de 450 suicidaram-se (muito mais do que os que morreram em combate). Foi só durante o governo Kirchner que suas pensões foram aumentadas de U$ 166 para US$ 833. Com a volta da democracia, ex-combatentes denunciaram maus-tratos e até tortura por parte de oficiais ligados ao regime. A ditadura tratou seus próprios soldados de forma arbitrária e com total desprezo por suas vidas, como estava habituada a fazer com os civis.

Malvinas ou Falklands ?

Olhando o mapa, percebemos que as Malvinas são geograficamente parte do território argentino. As ilhas foram ocupadas pelos ingleses em 1833, quatro anos depois de os argentinos já possuírem um governo estabelecido no arquipélago. Os residentes argentinos foram expulsos e substituídos por uma população transplantada para lá: mesmo hoje boa parte dos kelpers (habitantes das ilhas) sequer nasceram nas Malvinas. Isso, infelizmente, é outra história e não esconde o fato de que esse conflito foi inventado pela ditadura militar apenas para desviar a atenção do povo de seus problemas internos. O único consolo para os argentinos foi a derrota ter acelerado o fim do regime militar. Afinal, se há uma coisa que um ditador não pode fazer é perder uma guerra.