Viagem de trem na Índia
Estação de trem na Índia
Estação de trem na Índia

Viajar de trem na Índia: uma experiência única

Extrato do livro “A Vaca na Estrada

Viajar de trem pela India

Graças aos ingleses, o país possui uma das mais complexas redes ferroviárias do mundo, que alcança quase qualquer ponto do território nacional. Ela foi construída com dois objetivos. De um lado, destinava-se a escoar a produção indiana e colocar no mercado os manufaturados da metrópole. De outro, permitiria o rápido deslocamento de tropas quando fosse necessário reprimir insurreições. O que os ingleses não imaginaram é que essas mesmas ferrovias conduziriam os líderes nacionalistas indianos pelo país inteiro em peregrinações políticas. As estações tornavam-se pontos de agitação quando Gandhi, Nehru, Patel e outros discursavam para as multidões que iam esperá-los.

Mapa da Índia

Reservar: difícil, mas necessário

Para fazer viagens noturnas, opto sempre que possível por cabines de 1º classe, que oferecem mais conforto do que os ônibus. Embora mudanças estejam ocorrendo, os trens indianos ainda são, em sua maioria, bem lentos: alguns funcionam a vapor!. Costumam estar lotados e sua limpeza, principalmente na 2ª classe, deixa a desejar. Para conseguir uma reserva, imprescindível para viajar em 1ª classe, é preciso ter muita perseverança e tentar fazê-lo com dias de antecedência. O ideal é ir à estação. Uma vez eu tentei fazer minha reserva em 1ª classe por meio da agência de viagens do hotel onde estava hospedado. Fui, logo de cara, bem claro, dizendo que, se fosse para ficar em lista de espera, não me interessaria; alugaria um carro.
— Não se preocupe, sir!, disse-me o funcionário da agência em um tom tranquilizador que, na Índia, sempre produz em mim o efeito contrário.
Eu estava reservando com uma semana de antecedência.
— Tem certeza de que conseguirei um lugar?
Ele fez aquele movimento lateral de cabeça que significa “sim”, mas que confunde os estrangeiros, pois parece um “não”. Disse que eu só teria que pagar quando retirasse a passagem.
Todos os dias eu passava pelo funcionário e perguntava pelo meu bilhete. Ele sempre me garantia que iria consegui-lo. Isso até a véspera do embarque, quando confessou que não obtivera ainda a reserva, mas que eu estava em very good position na lista de espera! Falei o diabo para ele, mas não adiantou nada. A partir daí eu mesmo passei a fazer minhas reservas diretamente na estação. É trabalhoso, mas compensa.

Viagem de um dia de Mumbay (Bombaim) a Nova Delhi

Na India, faça como os indianos

Eu já tinha aprendido, depois de minha primeira viagem ferroviária na Índia, que viajar sem reserva de assento e em 2ª classe é uma roubada. Estava indo de Mumbai para Udaipur com uma namorada brasileira e um casal de amigos franceses, Pierre e Agnés, todos decididos a fazer uma viagem econômica. Acontece que, na França, quase todo mundo viaja de 2ª classe. A primeira é luxo. Na Índia, não. Quando o trem parou na estação de Mumbai, uma multidão se precipitou aceleradamente para os vagões, invadindo-os até pela janela, já que as portas ficaram bloqueadas por pessoas que subiam com sacos de cereais, engradados e até animais vivos. Dando-nos conta de que teríamos que fazer o mesmo ou não embarcaríamos, imitamos os indianos. Pierre entrou primeiro; eu passei as mochilas para ele pela janela. Depois ergui as meninas, uma a uma, e ele as içou, também por uma janela, para o interior do vagão, cada vez mais lotado. Depois entrei eu. Como só conseguimos três assentos, um de nós dois – Pierre ou eu — viajava de pé ou, como faziam muitos passageiros, se deitava no chão do corredor. Lembro-me de que em alguns momentos cheguei a adormecer, sendo sacudido por pessoas que queriam passar. Não entendia porque não passavam por cima de mim, bastando para isso dar um passo largo. Irritado, recebi uma explicação por parte de um senhor que viajava perto de nós:
— Fazem isso por respeito. Aqui é falta de educação passar por cima de uma pessoa deitada.

Para quê servem os freios de emergência

Em um dos momentos em que consegui dormir, fui acordado por uma parada brusca do trem. Ao abrir os olhos vi que estávamos em frente a um povoado. Não havia estação, nem mesmo uma plataforma de embarque, mas diversas pessoas que deviam morar por ali deixavam o trem às pressas pelas portas e janelas. Depois fiquei sabendo que puxavam o freio de emergência para descer onde lhes era mais conveniente.
Embora a viagem tenha sido cansativa, foi uma grande oportunidade de ver os costumes do povo. Uma cena engraçada que vi foi a de um sikh de meia idade ter seu serviçal acompanhando-o para, entre outras coisas, enrolar e desenrolar seu turbante.

O assento é de quem pegar primeiro

Nenhum de nós quatro se arriscava sequer a ir urinar. Além do risco de perder o lugar, o cheiro que vinha das extremidades do vagão onde ficavam os toaletes era de desanimar. O maior problema não foi embarcar na 2ª classe, mas sim fazê-lo no vagão “sem reserva”, onde não há limite para passageiros e, como em um ônibus urbano, o passageiro não tem direito a poltrona: o assento é de quem pegar primeiro. Confortável, o vagão de 2ª classe “com reserva” obviamente não é, mas pelo menos o assento é garantido.

Na Índia, as principais estações de trem oferecem serviço de reserva para turistas
Isso ajuda um pouco. Os trens noturnos de longa distância, com ar condicionado na 1ª classe, são mais limpos e melhores, mas há sutilezas tipicamente indianas: devem-se reservar também lençóis e cobertores para não passar frio; as noites de inverno são bem frescas. Quando eu viajava acompanhado, tentava conseguir cabine para duas pessoas e cuidava da reserva com o máximo de antecedência. Notei que europeias que viajavam sozinhas com mais dinheiro no bolso reservavam uma cabine só para si. Uma belga contou-me que, viajando com uma amiga em uma cabine com indianos, não pôde fechar os olhos. Mal o fazia, sentia que mãos a tocavam.

Um susto inesquecível

Foi num trem de Madras para Delhi, nos primeiros instantes de uma viagem de cerca de 40 horas, que passei por um dos maiores sustos de minha vida. Estávamos nos anos 1980 e cartões de crédito internacionais não eram comuns como hoje. A maioria dos jovens viajava ainda com uma bolsa de cintura, onde guardavam seus preciosos dólares e seus passaportes. Como pretendíamos viajar muitos meses, mesmo que em um esquema bem econômico, minha namorada e eu tínhamos uma bela soma conosco. Era nosso costume dar uma checada geral no quarto antes de deixar um hotel, mas daquela vez o fizemos muito rapidamente – e esquecemos as bolsas de cintura sob o travesseiro. Nem sei bem porque as tínhamos posto ali, pois não era nosso hábito. O fato é que quando o trem já começava a se mover percebemos que estávamos sem dinheiro, nem documentos. Jogamos as mochilas pela porta ainda aberta e saltamos do vagão. Ainda era cedo; talvez ninguém tivesse arrumado o quarto e encontrado o dinheiro. Minha namorada ficou com a bagagem e eu saí correndo desatinadamente, atravessando os trilhos, com risco de ser atropelado pelos trens que chegavam ou deixavam Madras.

Chegando à rua, entrei no primeiro táxi que vi. Ao chegar ao hotel, fiz sinal ao motorista para que me esperasse, passei à toda pela recepção e subi as escadas, indo diretamente para o quarto onde dormíramos. Empurrei a porta. Estava aberta e o aposento estava tal e qual o deixáramos. Ergui o travesseiro: nossas bolsas estavam ali. Cheguei a tremer. Respirei profundamente e fechei os olhos um momento. Enfiei as bolsas dentro de meu jeans, sob a túnica. Na portaria, ao sair, perguntaram-me se eu havia esquecido algo no quarto. Confirmei com a cabeça:
— Sim, meu passaporte.
No táxi, voltando para a estação, ia pensando na situação em que nos encontraríamos, naquele fim do mundo do sul da Índia, com pouquíssimo dinheiro — só uma pequena quantia na carteira — sem passaporte, sem nada… Isso em uma época em que até falar por telefone da Índia para o Brasil era difícil. Daí em diante, todas as noites, depois de tirar a roupa, passei a amarrar a bolsa de cintura no passador da calça que iria vestir no dia seguinte. Ótima solução: como não saio sem calças na rua, nunca mais esqueci minha bolsa.

Quando reencontrei minha namorada na estação, ela chorava, rodeada de moças e senhoras indianas que me olharam feio. Quando contei que recuperara o dinheiro e os documentos, minha namorada me abraçou forte: “Que sorte!”. Depois ela me explicou que, vendo o que ocorrera, a mulherada achava que eu a tivesse abandonado. Diziam uma para outra: “O marido a deixou!”. E quase choravam junto, solidárias… Será que divórcio indiano é assim? O marido sai correndo?

Dicas

Dicas de viagem sobre a Índia

Para saber mais sobre costumes, religião, história cultura da Índia, leia A Vaca na Estrada.

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