Um brasileiro em Londres

London Eye, Lambeth, Londres

Um brasileiro em Londres

por Michel Ramos Mellis

Londres, London, Londinium. Só de pensar nas imensas possibilidades que esta cidade oferece o fôlego já fica curto. No fundo, mais que possibilidades, Londres traz experiências incríveis para quem quer se deixar envolver e aproveitar.

Primeiro contato com a capital britânica

Meu primeiro contato com o universo inglês veio cedo, mais precisamente aos 7 anos, quando comecei minhas primeiras aulas na Cultura Inglesa (devidamente odiadas naquela época). Ao final de 10 anos de aulas (já não tão odiadas, devo dizer), sentiaque alguém havia inventado um mundo de fantasia para facilitar o ensino da língua inglesa.

A descoberta de um mundo novo e fascinante

Aos 19 anos desembarquei em Londres com uma mochila nas costas, pouco dinheiro e dois amigos para encarar as aventuras que aparecessem. Minha primeira impressão ao vivo e in loco foi que o mundo de fantasia realmente existia: os carros rodavam pelo sentido contrário, os ônibus vermelhos de dois andares estavam lá, as cabines telefônicas quadradas, o tal “Big Ben”, as coisas que os Beatles cantavam e até a troca da guarda no palácio, entre tantas outras coisas. Depois de oito dias em Londres pela primeira vez, saí de lá fascinado pela quantidade de atrações e atividades, desde museus, pubs e parques até a famosa feira aos finais de semana em Camden Town. Claro que minha interação com a cultura local foi bastante limitada.  O que mais me lembro é de experimentar pela primeira vez o contato com nacionalidades diversas em profusão, de o nosso dinheiro valer muito pouco e de como eles gostam de moedas. Muito tempo depois, fui perceber que aquele primeiro contato representou simplesmente o primeiro “banho” londrino e que o melhor estaria por vir dez anos depois.

Procurando onde se hospedar

Finalmente em 2002 embarquei para Londres em pleno início da Copa do Mundo da Alemanha. Cheguei lá em um domingo cinzento e frio com instruções de me dirigir até um flat próximo à Victoria Station, telefonar para um determinado número e avisar para me trazerem a chave do flat em sete minutos. Eis a sequência: i) a pessoa que atendeu meu chamado esperava por uma mulher (meu nome, Michel, é de mulher por lá e não há nada que se possa fazer); ii) em sete minutos a pessoa veio me entregar as chaves e educadamente me mostrou o lugar; iii) havia pão para torrada, manteiga e chá, pois imaginaram que chegaria precisando me sentir em casa; iv) não tive nenhuma ajuda com as malas.

Os ingleses: educados, mas reservados

O incrível é que certas coisas que aconteceram no início serviram de referência para toda minha estada. Os ingleses são extremamente educados, mas não espere nenhum esforço adicional de gentileza. Existe um grande respeito à privacidade de cada um, muitas vezes confundido com falta de educação, e aproximações devem ocorrer apenas se claramente sinalizadas. O tempo faz parte da cultura de uma maneira impressionante, pois os ingleses odeiam replanejar, ainda mais porque como todos cumprem horários, tudo se encaixa nos planos e eles adoram isso.
Londres vive de acordo com as estações climáticas, sendo tudo dirigido e organizado de acordo com elas. Talvez por ter as estações tão bem definidas, cada londrino sabe o que fazer e o que esperar em cada época do ano, até a comida mais apropriada. A Somerset House, por exemplo, no verão é palco de shows de world music (Jorge Benjor se apresentou nos dois verões que estive por lá) e no inverno se transforma em uma concorrida pista de patinação iluminada por tochas. Essa herança cultural sazonal influencia as pessoas desde o começo de suas vidas.

A curiosidade sobre o Brasil

Já no meu segundo dia em Londres fui ao escritório conhecer o ambiente e as pessoas com as quais trabalharia nos dois anos seguintes. Tive uma enorme surpresa ao perceber que não havia nada preparado para minha chegada, nem mesa, nem computador, nem nada. Muito tranquilamente, meu chefe disse que não esperava que eu começasse a trabalhar enquanto não me instalasse adequadamente e que teria tempo para me integrar à equipe com calma. Além disso, estávamos em plena Copa do Mundo e ele não imaginava que um brasileiro pudesse trabalhar muito nesse período. Outra lição valiosa: ficou bastante claro que eu teria de construir meu espaço profissional do zero, pois o estereótipo “Brasil-futebol-samba-mulher” é forte.

A Copa do Mundo

No caso da Copa do Mundo, até achei que os ingleses iam ficar meio chateados com a vitória do Brasil, mas a verdade é que eles torceram por nós. Antes mesmo de completar um mês em Londres eu já conhecia um monte de gente do escritório que vinha buscar informações sobre o Brasil e pude exercer uma das grandes paixões: achar que sou técnico de futebol. Depois do apito final, com o Brasil campeão, vários brasileiros e muitos outros adeptos ingleses saímos comemorando nos trens de metrô até a estação de Charing Cross e daí até o maior palco de comemorações londrinas: Trafalgar Square. Cantamos o hino nacional, subimos nas fontes e parecia que até a estátua do Almirante Nelson dançava.
O mais impressionante era que os ingleses comemoravam junto, inclusive os guardas da famosa polícia, que assistiam com sorrisos nos lábios. Naquele dia senti-me em casa como nunca, ainda mais quando recebi várias felicitações de todos os lados, desde o porteiro do prédio até o presidente da empresa. De repente, ser brasileiro me fez personalidade por um dia.

As oportunidades que Londres oferece

Não levei muito tempo para me instalar definitivamente e traçar minha rotina: 8 minutos até o trem, 25 minutos até o trabalho, 8h30 na minha mesa e às 17h20 indo embora. Às 18h você já está livre para curtir a cidade e isso não tem preço em Londres. Depois, ainda existem os fins de semana com programação intensa.

My local pub

Com o tempo aprendi as grandes oportunidades que Londres oferece para grupo: brasileiros ricos, brasileiros pobres, estrangeiros de lugares diferentes, irlandeses, escoceses e ingleses. Uma das primeiras coisas que se aprende é que qualquer pessoa tem o seu “local pub”, ou em outras palavras, o nosso famoso bar da esquina. A diferença maior é que em Londres quase todo quarteirão tem um pub, por mais simples que seja. É só combinar com os amigos, em uma conversa típica: “– Vamos a meu local pub nesta quinta?”; “Ah, acho melhor ir ao local pub do fulano que serve comida melhor”. Parte do combinado é deixar claro se o convite para o “local pub” vem acompanhado de lugar para dormir, pois raramente as pessoas têm condições de se locomover mais que o mínimo para dormir depois de uma noite de bebedeira. Aliás, muitos pubs já fecham além do horário tradicional, mas os ingleses se esqueceram de adequar o ritmo de pints entornados a este novo momento. Vale muito a pena explorar a cidade através dos seus pubs e suas histórias, desde os mais tradicionais “farm pubs” até os bem modernos, com música alta e gente jovem se acotovelando. No verão fica mais divertido ainda, pois muitos pubs possuem áreas abertas onde se grelha carne, toma-se Gin & Tonic (ou simplesmente G&T), Pimm’s (com pepino, maçã, abacaxi e soda) e a paquera rola solta (para os padrões locais, obviamente). Pubs também são ótimos locais para conferir esportes, principalmente futebol, rúgbi e cricket.

A programação cultural e os parques

Fora do dia-a-dia (e pub faz parte do cotidiano), eu sempre conferia as programações dos museus, especialmente as exposições temporárias. O Victoria & Albert (V&A) tem apresentações musicais semanais e feiras culturais aos fins de semana. É um excelente lugar para descontrair, encontrar gente mais alternativa e culturalmente bem interessante, sempre com boa música e ótimo vinho. Conheci muita gente bacana ali.
Os parques são um capítulo à parte para quem vive em Londres, não só para passear. Para alguém como eu com pouca formação em música clássica, ir ao Holland Park nos concertos e óperas de verão é surreal. Além de o lugar ser muito bacana, os músicos que se apresentam são de grandeza mundial e mesmo quem não é fã de música erudita se diverte. Cada parque tem sua especialidade: tomar sol, futebol, vôlei, tênis, rúgbi, patins, barcos, jogos de terceira idade e muitas outras coisas. Eu adorava visitar todos estes grupos, inclusive os velhinhos jogando “ball” (espécie de bocha) e puxar conversa com alguém da plateia.
Mas o que sempre mais me impressionou foi o Speaker’s Corner no Hyde Park. A quantidade de pregadores que passa por lá, loucos ou não, é inacreditável e os temas, dos mais variados, são ardorosamente defendidos de cima de um banquinho. Tem uns pregando contra a monarquia, outros a favor, tem gente dizendo que o mundo acabará logo… Um insistiu durante dois anos que estávamos nos últimos 30 dias do universo. Uns pregadores atraíam muita gente, outros não, mas sempre parecia haver plateia para qualquer coisa. O cenário me lembrava muito um filme B, com orçamento barato, atores amadores e figurino ridículo. E eu, várias vezes, fiz parte da platéia.

Os transportes públicos

Todos os parques e jardins oferecem muito lazer e acesso fácil. Por falar em acesso fácil, Londres é uma cidade para se viver sem carro. Os transportes públicos são excelentes (por mais que os londrinos reclamem) e há os sempre simpáticos cabs. É excelente ter a liberdade de sair de casa sem se preocupar com trânsito, estacionamento, multas e outros aspectos relativos ao carro próprio. Sem contar não ter de se preocupar em voltar da noitada dirigindo, comportamento abominado entre os ingleses.
As igrejas são lugares especiais, principalmente na época de Natal. É só ir entrando para deparar com deliciosos corais natalinos como nos filmes infantis, com a vantagem de existir neve de verdade ao redor.

Cerveja e comemoração

Outro fato incrível é que Londres tem comemoração de tudo quanto é país, inclusive do Brasil. Uma das maiores é a festa da comunidade irlandesa no dia de St. Patrick, quando do Hyde Park sai uma passeata em direção ao South Bank onde muita bebida e comida esperam a multidão. A partir daí, é só festa. Quanto mais cerveja corria, mais eu ouvia: “Você sabia que o Brasil e a Irlanda são muito parecidos?”. Não, não sabia. E também não sabia que era tão fácil fazer amigos irlandeses, e também não sabia que todo mundo é meio irlandês de um lado ou de outro.
De modo geral os ingleses não são de muita conversa, mas se adquirem confiança ou já entornaram dois ou três pints, a conversa rola solta. Eles têm uma opinião própria sobre tudo no mundo, seja a guerra civil em um país africano ou a floresta amazônica. Seu humor é afiadíssimo e um tanto sarcástico. Gostam de criticar a si mesmos (liberdade não concedida a estrangeiros), e ao mesmo tempo em que menosprezam aqueles que fracassaram, honram no mais alto grau quem se entregou à sua causa. Em certo sentido, adoram o herói morto na luta impossível, eternamente leal aos seus princípios.

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