Sacsayhuamán
Sacsayhuaman, Peru
Sacsayhuaman, Peru

Sacsayhuamán

Por Lúcio Martins Rodrigues, autor de “O Ouro Maldito dos Incas”

Sacsayhuaman, a apenas 2 km de Cusco, o maior e mais importante conjunto de ruínas Incas do Valle Sagrado e um dos maiores sítios arqueológicos do Peru. Sua construção inciada na década de 1430, tomou aproximadamente 50 anos. Apesar de gigantesca e imponente, Sacsayhuaman é apenas uma sombra do que foi no passado. Cerca de 80% das pedras utilizadas na sua construção foi retirada dali pelos espanhóis, que as utilizaram para a construção de seus mosteiros e igrejas. Só não retiraram as maiores, algumas com até 350 toneladas, porque não conseguiram transportá-las.

Mapa de Sacsayhuaman

Como outras construções incas, os muros de Sacsayhuaman foram levantados sem uso de cimento. As pesadíssimas pedras são apenas encaixadas umas nas outras, mas com total perfeição. A muralha de 300 ms de comprimento de altura irregular, foi concebida com reentrâncias que deixavam os atacantes expostos a ataques em diversos ângulos.

Após a tomada de Cuco pelos espanhóis em 1536, os índios reuniram suas forças para um contra-ataque. Depois de ocuparem Sacsayhuaman utilizaram o sítio como base para lançar ataques surpresa contra os conquistadores, cercados na antiga capital inca. Depois de algum tempo sob ataque, os espanhóis, comandados por Hernando Pizarro, resolveram atacar a fortaleza.

A tomada de Sacsayhuaman

Trecho do livro “O Ouro Maldito dos Incas”

Ouro Maldito com legenda

Assumir os riscos de tomar Sacsayhuaman

“Após alguns meses de cerco a situação estava se tornando insuportável. Não era mais possível esperar. Hernando, militar experiente, percebeu que seria necessário tomar Sacsayhuaman, com todos os riscos que implicasse tal decisão.
– Isso abalará a moral deles.
– As perdas serão grandes – considerou um dos cavaleiros.
– Eu sei. Mas temos que recuperar a fortaleza a qualquer custo. É possível que a rebelião já tenha se instalado em todo o Peru. Não podemos contar com reforços. Sabe-se lá se Francisco também não está sitiado em Lima. É estranho que não tenha tentado enviar reforços.

Começam os preparativos para tomar Sacsayhuaman

Depois de desistir de esperar por ajuda, Hernando deu ordens para que começássemos os preparativos. Ortiz, Pablo, Toledo, eu e outros fomos encarregados de olhar os cavalos, ver se estavam devidamente ferrados e saber do estado dos animais. Pedro de Candía e alguns de seus ajudantes verificaram as condições das peças de artilharia. Os melhores atiradores cuidaram dos arcabuzes e separaram a munição de que necessitariam. O restante da tropa ocupou-se das armas brancas: se estavam afiadas, se as lanças tinham suas pontas solidamente fixadas nos cabos.

Video sobre a conquista do Império Inca” (Tahuantinsuyo)

 O acampamento em frente a Sacsayhuaman

Durante a madrugada deixamos a praça na qual nos refugiáramos durante tantos meses. Os índios, ao nos verem subindo em grande número as estreitas ruas de Cusco, rumo a Sacsayhuamán, não tentaram nos enfrentar como faziam quando saíamos em pequenos grupos, mas abrigaram-se, afobados, no forte. Quando chegamos com homens, cavalos, escravos e índios aliados à grande esplanada onde ficava Sacsayhuamán, Hernando mandou que as tendas de campanha fossem instaladas.
– Não tentarão nos atacar no descampado.
Juan ficou encarregado do acampamento, enquanto Gonzalo, Ortiz, eu e outros cavaleiros fomos examinar a fortaleza. Antes de partirmos, Hernando chamou Pedro de Candía:– Prepare as peças. Quando começarmos o ataque, não adianta atirar contra as muralhas. São sólidas demais, construídas com pedras pesadíssimas. Sua artilharia deve fazer com que os obuses façam um arco no céu e caiam dentro do forte.
– Pode deixar. Sei fazer isso – assegurou o grego.

A estratégia dos espanhóis

Antes de se afastar, Hernando chamou dois veteranos:
– Cortem árvores compridas e façam escadas em quantidade suficiente. Quero que estejam prontas quando eu voltar – disse, esporando seu cavalo. Quando o grupo de cavaleiros passou em frente a Sacsayhuamán, os índios irromperam em grande alarido, gritando palavras ofensivas. Batiam as lanças contra os escudos, numa tentativa de nos amedrontar, enquanto tocavam tambores. Pedras e flechas caíram a algumas dezenas de passos de nós.
– Mantenham-se fora do alcance deles – recomendou Hernando enquanto examinava os muros de pedra.
Ao contrário dos fortes na Espanha, as fortalezas incas não eram rodeadas de valas e não possuíam uma altura padrão: certos trechos eram mais baixos e tinham irregularidades que podiam facilitar sua escalada. Sem desmontar, continuamos a rodear o forte, observando-o de todos os ângulos possíveis.
– As muralhas laterais a oeste não são tão altas – observou Hernando, enquanto elaborava seu plano de ataque. – E há por perto árvores que podem ajudar a esconder os soldados. Só precisaremos trazer escadas.

Detalhando os planos de ataque a Sacsayhuaman

Detalhou seu plano. Uma parte da artilharia, arcabuzeiros, peões, índios aliados e negros simulariam um ataque procurando distrair o inimigo e trazê-lo para a parte central das muralhas. Isso feito, os cavaleiros, escondidos entre as árvores com o restante da tropa, arrastariam as escadas para junto dos muros do lado oeste da fortaleza, abandonando-as ali e afastando-se o mais rápido possível. Devíamos deixá-las à mão para a infantaria, que se protegeria com escudos e teria cobertura de arcabuzeiros e de algumas peças de artilharia. O plano era bom, talvez o único possível, mas, mesmo que a maior parte dos guerreiros quéchuas se concentrasse no centro da fortaleza, outros continuariam vigiando as laterais.

A cavalaria

Os cavaleiros seriam, portanto, os primeiros a enfrentar as pedras, setas e lanças atiradas contra os espanhóis quando arrastassem as escadas para perto da muralha. Outro grupo que talvez sofresse pesadas baixas era o de peões, vulneráveis quando abandonassem os escudos para apanhar as escadas e encostá-las nos pontos em que as muralhas poderiam ser escaladas mais facilmente. Se conseguíssemos penetrar no forte, lá dentro, com nossas armas de ferro, levaríamos vantagem sobre os índios.
Hernando apontou para a imensa fortaleza.
– Eles não estavam esperando que resolvêssemos atacá-los. Temos que fazê-lo antes que reforcem suas defesas. Vamos voltar para o acampamento e organizar o ataque.
Com as escadas prontas, a cavalaria se escondeu entre as árvores. Teríamos que contar três tiros de canhão. Só quando o terceiro tiro fosse disparado contra o setor frontal do forte os soldados avançariam com as escadas.
Escondidos entre o arvoredo, Ortiz, Álvaro, eu e outros cavaleiros ficamos aguardando, a tensão estampada no rosto de cada um. De longe escutamos o alarido e vimos que parte dos quéchuas correu para o centro da fortaleza, desguarnecendo parcialmente o lado oeste, onde iríamos atacar. O primeiro tiro de canhão provocou um estrondo que fez um bando de corvos baterem asas. Minutos depois, escutamos o segundo tiro. Toledo, a meu lado, benzeu-se.

Começam os combates

Quando o terceiro tiro soou, Gonzalo fez sinal para que avançássemos com as escadas. Nós o fizemos rapidamente, mas alguns índios que tomavam conta da lateral do forte nos viram. Pedras vindas do alto, jogadas pelos fundeiros, zuniam rentes às nossas cabeças; lanças eram atiradas do alto das muralhas sobre nós. Se fôssemos atingidos, nem nossos capacetes nos protegeriam devidamente. Quanto mais nos aproximávamos, mais riscos corríamos. A vinte passos dos muros, soltamos as escadas. O cavalo de Ortiz foi atingido, empinou e ele caiu. Por sorte, não estava machucado. Levantou-se.
– Alcance meu cavalo e segure as rédeas para que eu possa montar! – gritou.
Fiz o que ele disse. Persegui sua montaria, segurei-a e levei-a até ele. Em seguida disparamos rumo às árvores sob uma chuva de lanças, flechas e pedras.
– Jesus!
Naquele momento nossos arcabuzeiros e o grosso da artilharia de Pedro de Candía passaram a atirar contra os defensores de Sacsayhuamán.

A tomada de Sacsayhuaman

O fogo das armas confundiu os quéchuas. Os peões protegidos por escudos puderam avançar e apoiar as escadas contra os muros do forte. Vários espanhóis foram atingidos, dentre eles Juan Pizarro, que caiu gravemente ferido. Dois soldados o trouxeram até nós. Olhei-o ensopado em seu próprio sangue, deitado no gramado no meio do arvoredo. Não senti pena. Dias depois, morreria.
Creio que, em parte, nosso sucesso em tomar a fortaleza se deveu à inexperiência militar dos índios. Embora um simples fosso ou o uso de lanças de madeira fincadas no solo pudesse dificultar o ataque, em nenhum momento organizaram-se para impedir que usássemos as escadas. Também se expuseram aos arcabuzes, sem tentar se abrigar: escutávamos um estampido e depois víamos um corpo rodopiando no ar e caindo de uma das torres. Ajudou-nos igualmente poder contar com a ajuda de índios de outras regiões e de escravos negros. Essa foi a batalha mais sangrenta que travamos em solo peruano. Por muito pouco não fomos derrotados.

Não fazer prisioneiros

À medida que os espanhóis conseguiam penetrar na fortaleza, mais cruéis se tornaram os combates. As ordens de Hernando eram de não fazer prisioneiros.
– Matem todos que encontrarem.
Os defensores de Sacsayhuamán foram executados, muitos deles pelos índios de tribos dominadas pelos incas. As rochas e o solo se tingiram de vermelho. Era tanto sangue que em alguns lugares ele empoçava até escorrer pelas pedras, misturando-se a fezes e urina, já que, quando as pessoas morrem, perdem seus controles corporais. O cheiro era nauseabundo. Era impossível andar por lá e não tropeçar num corpo sem braço ou sem cabeça.
Com a vitória quase assegurada, passamos a investigar cada cômodo da fortaleza”.