Putzgrila! – Saiba mais

“Putzgrila!” Aventuras e amores insólitos de uma jovem brasileira mundo afora nos anos 1980 pela Europa, Índia, Nepal, Sri Lanka, Tailândia e Oriente Médio

Mochileira, deite comigo esta noite
E conte aquela boa velha história
De como as noites são claras em Machu Picchu
E os dias dourados na Califórnia.

(Geraldo Roca, Mochileira)
“…só me arrependo das coisas que não fiz, do que deixei de fazer por preconceito ou neurose.”

(Leila Diniz)

Querida Regina,
Algumas pessoas têm que contar sua história e você é uma delas. Lembro-me bem de ter lhe falado, meio em tom de brincadeira, meio sério: Se você não transformar suas histórias em um livro, eu o farei. Poucas mulheres passaram, como você, por experiências tão variadas e às vezes até perigosas.
Bem, agora, enfim, você se decidiu. Disse que não escreveria nada, mas que me contaria tudo. Disse-me: O escritor é você; eu conto a história, você escreve. Manda ver. Só não cite meu nome; tenho filhos, sou conhecida na minha área e tenho uma imagem a zelar. Se algum curioso insistir demais em saber quem é Regina, diga que uma maluca como essa só pode ser um personagem fictício.
Conversamos horas sobre cada uma de suas viagens. Cuidei, conforme combinamos, de falar de sexo, sem transformar sua história em um livro pornô. Resolvemos, de comum acordo, manter a linguagem e expressões usadas nos anos 1980. Gostei quando você me disse que o livro ficou a sua cara.. Um mergulho em nosso passado. Disse-me: Duvido que você não tenha aprendido mais sobre as mulheres. Espero que os leitores homens tentem nos entender melhor.
Regina, só quero agora agradecer a você pela história e lhe garantir que não precisará se esconder dos paparazzi.
Com carinho,
Lúcio

Trechos do livro

A rádio anunciava o assassinato da Primeira Ministra Indira Gandhi por seus guarda-costas sikhs. Era uma quarta-feira, dia 31 de outubro de 1984. Integrantes da seita eram degolados no meio das ruas e praças. Delhi mergulhara no caos. O dono da loja, um hindu esclarecido, estava horrorizado. Mandou que o motorista muçulmano abrisse o porta-malas e disse ao meu amiguinho sikh, Nirvikar, para entrar e se encolher. O carro saiu em um arranque. Se por um azar extremo descobrissem que havia um sikh naquele porta-malas, acho que seríamos todos linchados. Gelei, estava em pânico.

Há coisas das quais me lembro muito bem nessa viagem pela Itália, como a cara espantada da camareira, em Roma, quando deparou com a cama de solteiro intacta e a de casal toda bagunçada. É óbvio que percebeu que Kiko, Zé Paulo e eu havíamos dormido juntos na mesma cama. Recordo-me de que olhou para mim com o canto dos olhos e sei lá o que deve ter pensado – brasiliana pecatrice, putana, ou algo assim.

Eles passaram a mão em nós, disse Michelle.
Demos um toque para o resto do pessoal. Ingrid também tinha sido bolinada. Martín virou-se para Jacques.
– Vamos voltar para os carros sem demonstrar medo. É melhor ficarmos juntos.
Essa foi a parte mais difícil. Estávamos cercados por uma dúzia de soldados jordanianos semianalfabetos, em pleno deserto, armados com metralhadoras e convictos de que toda ocidental é puta?

Senti tristeza. Achava, como de fato aconteceu, que   nunca mais veríamos Johannes e Tuula. Fomos para nossa cabine, que estava vazia. Encostei-me no ombro de Vitor e chorei. Ele estava com os olhos molhados. Conformamo-nos. Os amoresde estrada, chegam e se vão.

No meio da noite um dos vagões do Tren de la Muerte descarrilou. Ninguém pareceu se espantar; parecia que isso era comum. Só algumas horas depois o problema foi resolvido e pudemos partir. Com isso a viagem demorou 36 horas enfadonhas, calorentas e inesquecíveis.

Patrícia virou-me de frente para ela e me ensabou de alto a baixo, parando para passar a esponja sobre meus seios, em movimentos circulares. Era delicioso e excitante. Cheguei a ficar arrepiada. Pedi a ela:
– Agora sou eu.
Foi sua vez de se apoiar na parede, lânguida. Ensaboei suas costas sem pressa, subindo dos quadris até o pescoço.

Havia uma magia cor de prata no ar. As taxas de testosterona disparavam sob a ação do luar. Acabamos por transar com os italianos junto da fogueira sobre mantas de algodão. Meu feminismo é desse tipo, o de assumir meu desejo sem culpa.

Visitei com Mike, de barco, os canais de Thomburi e adorei sentir a brisa. O fato é que Bangkok é uma cidade quente e sufocante. Isso me incomodava. Logo estávamos com a camiseta empapada de suor. Quando eu vestia uma túnica indiana leve ou uma camiseta, o molhado da transpiração marcava meus mamilos inchados pelo calor. Os tailandeses não davam a mínima bola, mas os europeus não tiravam os olhos…

O tailandês fez sinal a um barqueiro e logo nos aboletávamos em uma embarcação comprida com motor de popa, dotado de um longo eixo que, erguido, permitia navegar em águas rasas. A uns cem metros da praia víamos o fundo, primeiro areia muito branca, depois corais, onde nadavam peixes de todas as cores. Quando o barco tomou a direção da costa vimos o conjunto de chalés em torno de uma grande cabana que servia de administração e restaurante. A uns 20 metros da praia já se notava que o topless era comum por ali. Depois eu viria a descobrir que o nudismo era permitido em áreas mais afastadas. – É que ninguém reclama de mulher de seios de fora, mas podem não gostar de homens nus por aqui – explicou o belga

Flanamos por Bhaktapur,a mais linda cidade do Nepal, enquanto eu admirava as tangkas.
– As verdadeiras não são meros objetos decorativos. Devem ser pintadas por monges ou aspirantes a monge. Você quer ir comigo comprá-las na fronteira com o Tibete amanhã? São quatro horas de estrada meio perigosa. Mesmo com medo de viajar de moto, topei.

Ficha técnica

1ª edição
288 páginas
ISBN 978-85-99081-22-8

Sobre o autor

Lúcio Martins Rodrigues, graduado pela Seção de Ciências Econômicas e Sociais da École Pratique des Hautes Études de la Sorbonne, em Paris, é escritor, editor, co-autor de títulos da série GTB de guias de viagem e administrador de sites de turismo. Para escrever O Ouro Maldito dos Incas, Lúcio, que não é um historiador, mas um ficcionista, realizou ampla pesquisa em fontes da época, como os relatos de Pedro Cieza de León, Felipe Guaman Poma de Ayala e Garcilaso de la Vega, nas principais biografias de Francisco Pizarro e em obras acadêmicas sobre a civilização incaica.

Viajante inveterado, já percorreu mais de 60 países nos cinco continentes, entre eles Peru e Bolívia. A história da conquista do Império Inca pelos espanhóis motivou o antigo projeto, hoje realizado, de escrever a respeito desses fatos. Sua principal aventura foi uma viagem de carro de Paris ao Nepal na década de 1970, atravessando a Turquia, o Irã, o Afeganistão, o Paquistão e a Índia. Essa e outras viagens pelo Oriente deram origem a outro livro: A Vaca na Estrada, um relato de viagem que aborda os costumes e a cultura desses países.

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