Jordânia (trecho do livro “Putzgrila!”)

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Aventura na Jordânia

Trechos do livro Putzgrila

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Putzgrila!“, as aventuras reais de uma jovem brasileira pelo mundo.

 

 

A Rodovia do Deserto era, ao que parecia, a principal estrada jordaniana. Ela era boa, asfaltada, e acredito que hoje em dia esteja melhor. Mas não havia nada em volta dela além do deserto. A Jordânia é um país ainda mais seco do que a Síria.
Em uma hora e meia de estrada, nos aproximamos da grande bacia onde fica o Mar Morto, na realidade um lago salgado a mais de 400 metros abaixo do nível do mar. Toda a região é terrivelmente seca e desolada. Ao abandonar a Rodovia do Deserto pegamos uma estradinha de terra que passava vizinha a uma área militar. Ali havia um posto de controle. Um soldadinho que não falava outra língua a não ser o árabe nos fez parar e apresentar os passaportes. Logo vimos que ele não entendia nada de nosso alfabeto. Mesmo assim nos obrigou a nos registrarmos em um livro sobre uma mesa do posto militar. Jacques registrou-se como Napoleão Bonaparte, Martín como Lord Nelson, Michelle como Madame Curie, Ingrid como Rosa Luxemburgo e Bertha como Marlene Dietrich. Inscrevi-me como Anita Garibaldi. Nunca perceberam a farsa. Se me lembro desses detalhes e até dos nomes que empregamos é porque anotei em meu caderno de viagens. Nele registrava tudo o que achava inusitado.

O Mar Morto

Ouvi dizer que hoje existem hotéis e infraestrutura turística decente no Mar Morto, mas quando visitei o lugar não havia nada. Tivemos que caminhar até a água por uma trilha de pedra e areia. Apesar de ser inverno, não fazia frio. Resolvemos entrar na água transparente, que tinha concentração de sal dez vezes maior do que os oceanos. Por isso no Mar Morto ninguém conseguia se afogar, mesmo que quisesse. Como não havia ninguém por perto, entramos sem roupa mesmo. Sair foi bem desagradável. A sensação que tínhamos era a de ter entrado não na água mas em óleo. As partes íntimas ardiam. Voltamos a pé, grudentos, rumo à estradinha de terra onde estacionamos os carros. Por sorte descobrimos na beira da trilha uma fonte de água doce na qual nos lavamos.
Como estava calor, as duas alemãs começaram a andar de shorts, coisa da qual Martín não gostou. Bertha reclamou e disse que ele era um “machista latino”. Eu, sabendo que estava em um país islâmico, fui mais discreta e vesti uma saia. Michelle também.

Petra

A parada seguinte foi Petra, aonde chegamos à noite. Armamos nossas barracas em um acampamento rústico. Demos sorte por termos ainda esfihas e quibes para comer.
À noite a temperatura despencava, o que nos obrigava a dormir de pulôveres dentro de nossos sacos de dormir. Na barraca, com Jacques, lembrei-me da Trilha Inca, onde dormira pela primeira vez em uma tenda. Entendi então a reclamação de Patty: com um frio daqueles não dava mesmo para transar. Sem falar que seria uma complicação me lavar.
Uma longa e estreita trilha que corta o desfiladeiro levava até Petra. Tanto o cânion como as ruínas serviram de cenário para as aventuras de Indiana Jones. Petra é o Templo da Perdição. Quando visitei o lugar fiquei estarrecida com as construções escavadas nos rochedos por um povo desaparecido, que ali viveu muitos séculos antes de Cristo. Parece que até o século XIX os europeus não sabiam sequer de sua existência.

Uma estrada deserta, sem onde parar

Felizmente pudemos parar duas noites em Petra, pois eu já estava exausta das longas jornadas dentro de um carro. Para mim aquele ritmo de viagem era acelerado demais. Jacques e Martín pareciam participantes do rally Paris-Dakar. A opção que me sobrava era ler no carro os livros que levei. Não havia lugar decente onde comer. As condições de viagem eram duras e nossa dieta se resumia a pão, queijo e biscoitos. Também não existiam toaletes pelo caminho. Para os homens era mais tranquilo, mas para nós era desconfortável nos abaixar junto a moitas espinhentas para fazer xixi, observadas por lagartos voyeurs.
A Rodovia do Deserto acompanha o antigo leito da estratégica estrada de ferro do Império Otomano, que ligava Damasco ao porto de Aqaba. Jacques comentou que, por ser rota vital de abastecimento do Império Otomano, aquela ferrovia tinha sido atacada pelos rebeldes árabes em 1916 sob o comando de Lawrence da Arábia, um oficial de ligação do exército britânico. A Turquia, na Primeira Guerra, foi aliada da Alemanha e inimiga da Inglaterra.

O forte de Lawrence da Arábia

Estávamos em pleno cenário de tomadas do filme Lawrence da Arábia. Passaríamos perto das ruínas de um forte turco, a um quilômetro da rodovia. Jacques nos contou que o fortim fora atacado pelos guerrilheiros árabes comandados por Lawrence.
– Poderíamos visitar – propôs meu amigo francês.
Eu estava feliz por, mais uma vez, visitar um lugar histórico.
O caminho que levava ao forte era mal sinalizado. Não passava de uma trilha de terra que teríamos que percorrer a pé. No começo dela, junto à rodovia, um grupo de soldados jordanianos tomava chá em um rancho erguido com blocos de adobe coberto de palha.
Ofereceram-se para nos acompanhar. Apesar de Jacques ter lhes dito que não seria necessário, foram conosco.
Um rapaz que estava com os soldados era um palestino que vivera na Itália e falava italiano. Não entendia que fôssemos quatro mulheres e dois homens.
– Onde conheceram as moças? – perguntou ele a Martín.
– São amigas da família – respondeu o uruguaio – Por que?
O árabe calou-se, continuou nos acompanhando.
– Ninguém é casado com ninguém?
Eu já estava irritada.
– O que você tem com isso?
Eu sabia que não era costume uma mulher responder a um homem desse jeito, mas não me contive diante de tanta intromissão. Vi que ele traduzia em árabe os papos que levávamos e a soldadesca ria.
Martín, de testa franzida, olhava incomodado para Ingrid, Bertha e seus shortinhos, pernas à mostra, em um país onde as mulheres se cobrem até os tornozelos. Os soldados não tiravam os olhos delas.
Pouco sobrara do forte, a não ser paredes de adobe cobertas por telhas de barro secas ao sol.
– Não havia nem mesmo lenha para queimar os tijolos de barro – explicou o uruguaio.

Problemas com os soldados

Todo o edifício parecia vazio. Não tinha móveis, potes de cerâmica, nada. Por uma escadaria do pátio subimos ao segundo andar, onde deparamos com salas mergulhadas na obscuridade. Havia apenas duas janelas estreitas e altas.
Depois de um tempo vi que Bertha saiu apressada para o balcão externo em frente às salas. Michelle estava com ela.
– Eles passaram a mão em nós.
Demos um toque para o resto do pessoal. Ingrid também tinha sido bolinada. Martín virou-se para Jacques.
– Vamos voltar para os carros sem demonstrar medo. É melhor ficarmos juntos.
Essa foi a parte mais difícil. Como não demonstrar medo quando se está cercada por uma dúzia de soldados semianalfabetos, armados com metralhadoras e convictos de que toda ocidental é puta?
Fomos caminhando em direção à rodovia, com os soldados à nossa volta. Quando nos aproximamos da estrada, eles se dirigiram ao barraco-bar, enquanto o palestino veio falar conosco. Entendemos perfeitamente quando o rapaz apontou os soldados.
– I soldati… Loro vogliano bacciare le donne.
Entreolhamo-nos. Aqueles milicos queriam nos beijar?
– O que esse cara quer? – perguntou Ingrid.
Martín traduziu para o inglês.
Não me passava na cabeça que se tratasse apenas de beijar. Mesmo que fosse só isso, nem pensar. E o que eles queriam mesmo era nos comer, é claro. A tensão tomou conta do grupo. Em um lugar deserto como aquele, tudo poderia acontecer. Martín tirou do bolso uma carteira de jornalista da imprensa britânica e mostrou-a ao palestino.
– Somos jornalistas e estamos fazendo uma matéria sobre a Jordânia para uma revista inglesa. Teremos uma entrevista com um ministro do rei quando voltarmos de Aqaba. Se eles tocarem nas moças, serão enforcados. Agora vá lá e diga isso a eles.
O palestino foi pego de surpresa, deu uma olhada rápida na identificação que Martín lhe mostrou e se afastou, confuso, em direção aos soldados.
O uruguaio virou-se para nós.
– Vamos para os carros sem correr e sem afobação.
Foi o que fizemos. Notei o olhar inquieto de Michelle, que seguia ao meu lado.
Os dois automóveis estavam estacionados algumas dezenas de metros antes da palhoça onde estavam os soldados. O fusca estava na frente, nosso 2CV logo atrás. Entramos nos carros com calma, mas sem perder tempo. Martín engatou e entrou na estrada. Nós o seguimos. Íamos passar em frente aos soldados.
– Não olhem para eles – recomendou Jacques.
Eu me perguntava se tentariam nos deter ou, mesmo, se chegariam a atirar nos carros. Hoje, quando penso no assunto, acho que não o fariam. Poderia ser uma puta encrenca para eles. Aquilo tudo deve ter sido um blefe para nos apavorar e tentar nos pegar. Engoli em seco ao passar pelos militares, conseguindo ver, com o rabo dos olhos, que conversavam com o palestino.
Só respirei quando Jacques engatou a terceira. Olhei para Michelle atrás e sorri. Ela apertou meu ombro.
– Escapamos de boa. – Olhei para o fusca de Martín, uns 50 metros à nossa frente. – Escute, essas meninas não podem continuar saindo de pernas de fora.
Michelle concordou:
– Já disse isso para Bertha.
– E ela?
– Disse que não tem a obrigação de aceitar os costumes desses ignorantes… Ela não entende.

(trecho do livro “Putzgrila!”, de Lúcio Martins Rodrigues)

Leitura de bordo

Para ler enquanto espera o trem para Allahabad:

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A Vaca na Estrada” (viagem de Paris ao Nepal de carro)

 

 

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