A vida de Gandhi
Gandhi
Gandhi

Gandhi, a Grande Alma

(trecho do livro “A Vaca na Estrada”)

O Raj Ghat

Por ser interessado pela biografia de Gandhi, durante minha primeira estada em Delhi fiz questão de conhecer o Raj Ghat, um memorial em sua homenagem erguido às margens do rio Yamuna, onde seu corpo foi incinerado. Emocionei-me. Perto dali fica o National Gandhi Museum, inaugurado em 1961, no aniversário de seu assassinato, ocorrido em 31 de janeiro de 1948.

Mahatma ou “Grande Alma

A figura de Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma ou “Grande Alma”, como o chamavam os indianos, é intimamente ligada à história da independência da Índia. Eu não poderia escrever este livro sem falar desse homem extraordinário. Percorrendo o país notei que paredes de lojas e casas, das mais humildes às mais elegantes, ostentam seu retrato: mostra da gratidão eterna dos indianos.

Suas origens

Gandhi pertencia a uma “casta média alta”, a dos comerciantes ou vaicias. Seu pai era primeiro-ministro vitalício de um pequeno e modesto principado. Sua família, sem ser rica, tinha certas posses, o que permitiu ao jovem Mohandas estudar Direito em Londres.
O Gandhi engravatado que partia para a capital inglesa era muito pouco indiano. Ambicionava vestir-se e comportar-se como um gentleman europeu, chegando a tomar aulas de dança de salão – nas quais foi péssimo aluno. Aliás, dá para imaginar Gandhi dançando valsa? Diploma debaixo do braço, ele voltou à Índia e tentou a sorte como advogado em Mumbai, sem muito sucesso.

Gandhi na África do Sul

Seus pais, já incertos quanto à capacidade do filho prosperar na profissão, resolveram despachá-lo novamente, desta vez para a África do Sul, para representar um parente distante em um processo. Sua permanência no país, inicialmente prevista para poucos meses, durou de 1893 a 1915.
O primeiro contato de Gandhi com a realidade sul-africana foi duro: numa viagem de Durban a Pretória, ele foi expulso do trem durante a noite, por se recusar a atender à exigência de um passageiro de que deixasse o vagão de primeira classe, reservado aos “brancos”, e fosse para o de carga. Esse episódio, que marcou o começo de sua militância política, foi encenado no premiadíssimo Gandhi, de 1982, com Ben Kingsley no papel do Mahatma.

Gandhi começa a sua luta

Chegando a Pretória, Gandhi iniciou uma mobilização dos indianos pelo direito de viajar em vagões de segunda e primeira classe. As autoridades sul-africanas acabaram por capitular. Foi a primeira vitória do tímido advogado que terminaria por se tornar um dos maiores líderes espirituais da História. É pena que suas teorias de resistir à tirania por meio da não violência e da desobediência civil — Satyagraha ou “Força da Verdade” — não tenham feito escola: vencer o inimigo armado simplesmente pela razão seria excelente. O que estamos vendo hoje é que violência gera violência.
Sempre dizemos no Brasil que enfiar um pequeno delinquente na prisão faz com que se torne um bandido de verdade, que a cadeia é a escola do crime. É exato e vale, guardadas, é claro, as proporções, para grandes revolucionários e teóricos como Gandhi ou Gramsci que, presos, ganharam tempo e motivação para desenvolver suas ideias.

Gandhi nunca seguiu um guru ou uma doutrina única

Ao contrário, pescou em toda parte os conceitos que comporiam seu pensamento: no Bhagavad Gita, no Corão, na Bíblia, nas obras do norte-americano Henry David Thoreau sobre a teoria da desobediência civil e do britânico Ruskin sobre o desapego do material.

A militância iniciada na África do Sul continuou na Índia

Gandhi não lutava apenas pela independência da colônia, mas também pela melhoria de vida do povão. Percorria a Índia em vagões de terceira classe, junto com os mais pobres. Imagine um político brasileiro fazendo isso. Gandhi era o agitador, o mestre, o filósofo e o pai espiritual de milhões de indianos. Ensinava-lhes até regras elementares de higiene, em um país onde as enfermidades tropicais eram endêmicas.

Gandhi e o Partido do Congresso

Gandhi praticamente comandou o Partido do Congresso, que deixou de ser um partido de elite, para se tornar popular. Quando foi baixado o Rowlatt Act, decreto que limitava as liberdades individuais de suspeitos de atividades antibritânicas, Gandhi lançou o Dia Nacional de Luto, o hartal, que pretendia contestar os ingleses sem violência, apenas cruzando os braços, parando o país. Infelizmente, no Pundjab, uma manifestação proibida, mas pacífica, culminou em um massacre, quando tropas comandadas pelo fascistóide General Dyer abriram fogo contra a multidão.

A desobediência civil

Gandhi então passou à desobediência civil e ao boicote a tudo que era inglês. Nas cidades e aldeias, roupas, sapatos e outros produtos made in England foram atirados à fogueira. Como vestimenta, ele propôs uma simples sandália e o khadi, traje nacional indiano, de pano rústico tecido e fiado manualmente. É com essa roupa que ele aparece em todos os retratos e filmes feitos sobre a sua vida. Ele próprio passou a se dedicar à fiação meia hora por dia. Nada simbolizava tão bem sua causa, mas seus seguidores ficavam exasperados com ele: mil problemas urgentes para resolver e lá estava o Mahatma fiando algodão…

O lado conservador de Gandhi

Para Gandhi, a Índia deveria se voltar para sua economia tradicional, com o que muitos indianos modernos não concordam. Ele considerava a industrialização do país capaz de enriquecer alguns capitalistas, não de trazer benefícios ao povão. Preocupava-se com o crescimento das cidades e pregava a volta ao campo, acreditando que, com alfabetização, educação sanitária, melhor distribuição de riquezas e redução do consumo de supérfluos, as condições de vida melhorariam. Renunciava à opulência sem pregar a pobreza. Ele próprio era um asceta: alimentava-se com frugalidade, renunciou ao sexo e a qualquer luxúria.

A repressão dos ingleses contra um movimento pacífico

Apesar de pacífico, o movimento de Gandhi sofreu severa repressão. Se hesitavam em prendê-lo, devido à sua popularidade, os ingleses lançaram-se sobre seus seguidores. O Mahatma pretendia que a não violência e a não colaboração fossem sempre pacíficas: recusar-se a trabalhar para os ingleses, não comprar produtos da metrópole, não pagar impostos. Esse último lema parece ter seguidores no Brasil: não por motivos nobres como Gandhi, muita gente, mesmo endinheirada, não paga imposto algum. Enfim, mesmo que Gandhi deixasse claro que os protestos deveriam sempre ser pacíficos, muitas vezes eles acabaram em violência. Gandhi assumiu a responsabilidade e, mais uma vez, foi parar na cadeia.

As novas campanhas de Gandhi

Mal pôs os pés fora da prisão, deu início a novas campanhas, escolhendo sempre as de fácil entendimento popular e forte conteúdo simbólico. Desta vez foi a campanha do sal, cuja distribuição era monopolizada e taxada pelos ingleses. Que papo é esse, teria pensando o Mahatma, de seu povo ter que comprar dos colonizadores o sal extraído dos mares indianos e ainda pagar uma taxa por ele? A campanha do sal agitou a Índia e teve repercussão internacional. Jornalistas de vários países acompanharam a marcha de 25 dias conduzida por Gandhi de seu ashram até o Oceano Índico. Chegando a seu destino, o líder da resistência pacífica apanhou um punhado de sal e mostrou-o à multidão que o seguia. Prenderam-no de novo…

O apoio a Gandhi aumentava e a Índia se agitava

Os ingleses resolveram, então, mudar a forma de lidar com o Mahatma, que foi solto e até recebido pelo vice-rei, na Índia, e, posteriormente, pelo próprio rei da Inglaterra, em Londres. Aclamado por multidões no Velho Mundo, Gandhi nada obteve de concreto, além de vagas promessas do governo inglês. De volta à Índia, resolveu continuar a campanha de desobediência civil. Mais uma vez nosso teimoso homenzinho foi parar na prisão.

Uma história engraçada

Quando o vice-rei Lord Mountbatten o recebeu, Gandhi vestia-se apenas com seu modesto khadi. Quando o mandatário inglês perguntou se Gandhi não precisaria de mais roupas, este lhe respondeu: “Vossa Excelência já está suficientemente vestido por nós dois.” Nesses encontros, Gandhi se recusava a tomar chá ou água em copos caros de cristal ou em xícaras de porcelana. Usava a mesma canequinha de alumínio que utilizava na sua cela na prisão.
O espirituoso Winston Churchill, que o abominava, apelidou-o de “faquir seminu”.

A Segunda Guerra

Com a Segunda Guerra em curso e o nazismo ameaçando a Europa, a campanha de desobediência civil lançada em 1940 não teve tanto impacto. Muitos militantes do Partido do Congresso, antifascistas, acharam que não era o melhor momento para uma campanha contra os britânicos. De outro lado, a Liga Muçulmana preferiu apoiar os ingleses, esperando cobrar esse apoio quando a guerra terminasse.

Lord Mountbatten

Após o final do conflito, com os trabalhistas no poder, a Grã-Bretanha passou a aceitar a independência. Os ingleses nomearam seu último vice-rei, Lord Mountbatten, encarregado de descascar o enorme abacaxi da transferência de poderes e da retirada britânica. Mountbatten, contrário como Gandhi à partilha das Índias em duas nações, islâmica e hindu, não conseguiu convencer Jinnah e a Liga Muçulmana. Coube, assim, a ele organizar a partilha do Império.

A Índia da época de Gandhi e a Índia que você verá ao visitar o país

Hoje, quando viajo pela Índia, percorro apenas um país. É difícil imaginar como seria a Índia colonial, com reinos e marajanatos de todos os tamanhos. Com a independência, esses principados governados por nababos e marajás foram obrigados a optar por integrar-se à Índia ou ao Paquistão, segundo a preferência religiosa majoritária e a localização geográfica. É significativo que o plano de evacuação dos efetivos britânicos tivesse como nome “Operação Casa de Loucos”. Curioso, ainda, que depois de séculos de dominação colonial, os ingleses tenham partido em paz e com dignidade, despedindo-se dos indianos como amigos. O massacre ocorreu entre os próprios indianos: sikhs, hindus e muçulmanos. Parsis, cristãos, budistas e outros grupos minoritários foram poupados.

Gandhi toma posição contra a divisão do território das Índias Britânicas

Gandhi foi o maior adversário da partilha territorial, chegando a dizer, para espanto de Lord Mountbatten, que preferia ver o governo das Índias inteiramente entregue a seu rival político, o muçulmano Jinnah, a assistir à divisão do país. Os hindus do Partido do Congresso entraram em pânico e, obviamente, não acompanharam a proposta do Mahatma, que se mostrou grande protetor das minorias muçulmanas e realizou históricos jejuns pela paz entre islâmicos e hindus. Gandhi chegou, inclusive a forçar o novo governo indiano, do qual não fazia parte, a entregar milhões de rúpias que, por direito, pertenceriam aos paquistaneses quando da divisão do Império das Índias. “O dinheiro pertence ao Paquistão? Devolvam!” Seus atos despertaram o ódio da extrema direita hindu mais fanática, que o jurou de morte.

O assassinato de Gandhi

Um inexplicável lapso da polícia indiana permitiu que o extremista Nathuram Godse, que falhara em um primeiro atentado, conseguisse se aproximar de Gandhi na hora da oração e o fulminasse à queima-roupa.
Ironicamente, o homem que mais lutou contra a divisão das Índias foi acusado pelos radicais hindus de ser culpado por ela. Gandhi foi assassinado por um membro de sua própria comunidade; se o criminoso tivesse sido um muçulmano, as represálias contra a população islâmica teriam sido terríveis. O sacrifício do Mahatma causou tal comoção na Índia e no Paquistão que os massacres foram rareando até terminar. Lord Mountbatten também seria assassinado, muito mais tarde, não por hindus ou por radicais muçulmanos, num atentado cometido pelos extremistas católicos do IRA, em 1979, na Irlanda.

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Para saber mais sobre costumes, religião, história cultura da Índia, leia A Vaca na Estrada.

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