Santiago a Chiloé de carro

Chile, paisagem

Chile: uma aventura de São Paulo a Chiloé, no Chile

Ir de São Paulo a Chiloé de carro é uma aventura. Os irmãos Luciano e Fabiano Machado, que adoram viajar, sabem aproveitar suas milhagens. Com milhas suficientes para obter passagens para uma capital sul-americana, os dois discutiram algumas alternativas, pesquisaram na net, examinaram guias de viagem e optaram por Santiago do Chile. Estudando o mapa do Chile, uma estreita e comprida faixa de terra espremida entre o Pacífico e a Cordilheira dos Andes, que vai da Terra do Fogo, ao sul, à fronteira com o Peru, ao norte, perceberam que os 15 dias de que dispunham não seriam suficientes para visitar todo o país. Decidiram-se então pelo sul, descendo de Santiago até a ilha de Chiloé, no sul do Chile. Por serem viajantes experientes, que apreciam o turismo de aventura e costumam viajar por conta própria, resolveram alugar um carro.

Os hotéis, quase sempre caros

A primeira surpresa ao desembarcar em Santiago do Chile foi o preço dos hotéis, que consideraram muito caros para os padrões brasileiros. “Qualquer quarto com banheiro privativo em Santiago está custando pelo menos 50 dólares”, conta Luciano. Depois de rodar por Santiago, o taxista que os levou do aeroporto à cidade compreendeu que aqueles dois brasileiros não estavam dispostos a esbanjar seu dinheiro e propôs levá-los ao Albergue da Juventude. O albergue em Santiago é muito limpo e organizado, a um preço acessível. Os dois hospedaram-se ali, como fazem muitos europeus e americanos que chegam ao Chile para praticar esportes de inverno. Não tinham carteira de alberguista, mas puderam fazê-la na hora.

A cidade de Santiago

Santiago do Chile é bonita, segura e, nos dias claros, oferece uma linda vista da Cordilheira dos Andes. Com belos parques, como o da avenida O Higgins, e agradáveis calçadões, é uma cidade perfeita para se passear a pé. Santiago tem bons restaurantes e cafés animados onde, para surpresa dos dois, as mesas são atendidas por moças de minissaias curtíssimas (Isso, ao que parece, não os pertubou…) Come-se bem por lá (e bebe-se melhor ainda!). O trânsito é bom. Mas curtir a noite de Santiago, segundo eles, só sexta e sábado. “O by night deles é meio fraco“, diz Fabiano, que mesmo assim arrumou uma namoradinha numa casa noturna. A curiosidade da moça chilena pelo fato de serem brasileiros facilitou a aproximação… De modo geral, os chilenos simpatizam com os brasileiros.

Muitos dos prédios de Santiago do Chile são antigos e geralmente não muito altos. Os edifícios mais altos são modernos e construídos com uma tecnologia adequada a uma região sujeita a terremotos.

O Mercado Central

No mercado central de Santiago, que já virou atração turística, há muitos restaurantes que servem frutos do mar. Os irmãos experimentaram um prato equivalente à caldeirada brasileira, que não agradou muito a Fabiano. Luciano, embora ache que os frutos do mar no Chile têm um sabor mais forte do que estamos acostumados no Brasil, gostou e diz que, se voltar ao Chile, repetirá a dose.

O Palácio de la Moneda

Nos dias que passaram em Santiago do Chile, Luciano e Fabiano conheceram o Palácio de la Moneda (somente o pátio é aberto à visitação e a entrada é gratuita). Em alguns minutos, dá pra ver tudo lá dentro. A lembrança do golpe do dia 11 de setembro (de 1973, quando Salvador Allende foi assassinado) e dos horrores da ditadura militar de Pinochet dão um aperto no coração. Os irmãos notaram que os chilenos, acostumados a passar diariamente por ali, habituaram-se com a presença do palácio e das recordações que ele evoca. Em sua grande maioria, estão satisfeitos por estarem hoje vivendo numa saudável democracia. Apesar disso, a imagem do ditador ainda é bem presente…

A vida noturna

As áreas mais sofisticadas de Santiago ficam perto da estação de metrô Los Leones, onde a vida noturna é mais animada, com muitos barzinhos e restaurantes. “Não é barato”, avisa Luciano. “Pagamos uns 5 dólares por um chopp!” Ele e Fabiano gostaram mais da região que fica nas imediações da estação de trem Baquedano, um bairro mais popular, que não é turístico e tem uma vida noturna bem agitada. Um lugar perfeito para saborear boas carnes e tomar bons vinhos sem gastar demais. Deram sorte também porque ali perto, em um belo parque, acontecia uma festa popular. “Havia até uma lhama toda enfeitada com ornamentos coloridos” diz Luciano. Pitoresco!

Os dois não têm certeza, mas foi provavelmente nesse parque que os cartões de créditos e o passaporte de Fabiano simplesmente desapareceram de seu bolso. (Ele não tinha lido ainda as dicas de segurança do Manual do Turista Brasileiro!) Felizmente, o Chile é bem organizado nesse ponto e Fabiano pôde, na Polícia Internacional, obter um documento que o autorizou a circular pelo país mesmo sem o passaporte. (Vale lembrar que, para ir ao Chile, brasileiros podem utilizar seu RG original, em bom estado e de emissão recente, não sendo obrigatório o passaporte. Porém Fabiano não tinha levado o dele.)
Na opinião de ambos, três dias em Santiago são suficientes para ver o principal e sentir o clima da cidade. “Você nem precisa de carro”, garante Fabiano. “Os transportes públicos funcionam bem”.

Alugar carro

Foi para prosseguir viagem que precisaram de um carro. Alugaram um Tico Daewoo. A palavra “tico” em espanhol (pronuncia-se “tchico”) significa pequeno. “Além de pequeno, o veículo não era muito bem conservado, mas foi o que conseguimos depois de ‘mucha negociación , pagando uns 200 dólares por um período de dez dias”, lembra Luciano.

Valparaíso de Viña del Mar

A primeira etapa foi subir de carro o trecho inicial da cordilheira, onde fica o vilarejo de San José de Maipo, a sudeste de Santiago. O acesso, por uma estrada secundária, é um pouco complicado, mas a paisagem andina compensa a aventura. De lá seguiram para Valparaiso, um lugar histórico, interessante, mas com as inconveniências de ser um porto: à noite, é melhor ficar de olhos abertos… Mesmo assim gostaram da cidade, que fica no pé de uma montanha, com vários mirantes acessíveis por funiculares, alguns de dois estágios. Do estágio mais alto tem-se uma vista panorâmica da cidade, do mar e do porto.

Para dormir, preferiram Viña del Mar, ao lado, uma cidade com belíssimas casas de veraneio, bons restaurantes na beira do mar, barzinhos, um cassino e belas praias. “É uma espécie de Guarujá do pessoal de Santiago”, diz Luciano. Apesar de ser uma cidade relativamente chique, os hotéis eram mais baratos do que na capital chilena e comia-se muito bem. Só reclamaram da temperatura do mar. “A água é muito fria!” reclama Fabiano.

De Vinã del Mar, Luciano e Fabiano Machado partiram para uma viagem de 800 km rumo ao sul do Chile. Em alguns trechos optaram por pegar estradas secundárias, inclusive algumas de terra, com belas paisagens rurais, ao lado de imensos vinhedos.

Rumo ao sul

Embora tenham se arriscado ao resolver ir ao sul do Chile na primeira quinzena de outubro – o início da estação chuvosa -, deram sorte. O clima esteve ótimo durante a maior parte do tempo.

Algumas fazendas possuem restaurantes e foi num deles que pararam para comer. As massas e carnes do cardápio eram ótimos, bem como os vinhos de produção local. Os preços eram comparáveis aos de um bom restaurante em Santiago.

Pucón

Pucón, bem ao sul de Santiago, fica exatamente do lado do vulcão Villarica, que ainda está ativo e deixa escapar uma fumacinha. “O cenário é lindo”, lembra Fabiano. Hospedaram-se na pensão de uma senhora, instalada numa confortável casa de madeira, com lareira, um lugar bem agradável. A Pucón serve de base para a subida até o alto do Villarica, com 2894m, uma aventura que não estavam dispostos a perder. Por 50 dólares cada um, pegaram uma excursão que os obrigou a madrugar.

A escalada do vulcão Villarica

Às seis da manhã, embarcaram em uma van com mais sete pessoas, além do guia, indispensável nesse tipo de subida.
Apesar de existir um teleférico que iria começar a funcionar um pouco mais tarde, o grupo quis subir a pé as encostas íngremes do vulcão. Tinham vestido roupas quentes para suportar o frio do topo e, com o esforço e o sol forte, começaram a transpirar. Depois de terem subido uns setenta por cento do caminho, Luciano começou a sentir que a bota machucava seu pé e foi ficando para trás, até que não agüentou mais. Parou no meio de uma paisagem descampada, sem nenhum lugar para se abrigar do sol. O única sombra que encontrou foi a provocada por uma tubulação fincada no solo, um provável instrumento de medição de atividade sísmica. Ficou ali esperando seu irmão e o grupo voltarem. Quando a sombra se movia acompanhando o sol, Luciano, sentado na neve, fazia o mesmo… Mesmo assim, a falta de um boné lhe valeu uma bela queimadura de sol.
Fabiano e os demais que alcançaram o topo estavam estafados. Por acaso cruzaram ali com um casal que subiu a montanha de esqui e que chegou ao pico muito mais rapidamente que eles…

Apesar de a vista ser magnífica, a fumaça que sai do vulcão é tóxica. Depois de cinco minutos, os olhos e pulmões ficam irritados.
Ao iniciarem a descida, Fabiano e os outros perceberam que a neve tinha virado uma placa de gelo extremamente lisa e dura. Foi quando Fabiano escorregou, deslizando pela encosta por quase cem metros. Foi assustador! Lembrou-se das instruções do guia: não podia perder seu piolet (instrumento semelhante a uma picareta, que pode ser fincado na neve dura para se sgurar). O problema é que, rolano montanha abaixo, o perdeu… Podendo contar apenas com seu próprio instinto, virou-se de bruços, tirou os óculos (cujas lentes poderiam se estilhaçar em seu rosto) e conseguiu aos poucos ir freando com o pé até parar.
Teve sorte por ter saído dessa só com escoriações leves e o pulso machucado. Recebeu o apelido de “cometa brasileiro!” pois, na queda, passara em alta velocidade por algumas pessoas do grupo que estavam um pouco mais abaixo… Muita gente sofreu acidentes bem mais graves nesse local. Ele adverte: “É preciso ter preparo para esse tipo de escalada em terreno íngreme e escorregadio. Caso contrário, pegue o teleférico!”

Felizmente, Pucón era uma cidade ideal para se recuperarem dessa escalada penosa e da longa viagem de Santiago até o sul. Apesar de ser um lugar procurado para os que desejam praticar o turismo de aventura, é também tranqüilo, perfeito para repousar, fazer passeios a pé, andar a cavalo ou aproveitar as águas termais, o que eles recomendam aos menos aventureiros.

Valdívia

A etapa seguinte foi Valdívia, cidade de colonização alemã que conserva edifícios de arquitetura típica e uma população de pele mais clara, descendente dos colonizadores. Nas proximidades de Valdívia existem alguns fortes do sistema de defesa implantado pelos espanhóis no Pacífico Sul, entre eles o forte Niebla, esculpido no rochedo, o mais interessante deles.
À medida em que seguiam para o sul, Luciano e Fabiano perceberam que melhorava a relação preço/qualidade dos hotéis e restaurantes. Valdívia é famosa por seus frutos do mar e enormes camarões, servidos, quase sempre, cozidos. O lugar é também conhecido por sua cerveja Kunstmann e pelo chopp Torobayo, de cor caramelo, que não é encontrado facilmente em outros lugares do Chile e que, segundo eles, é delicioso. “O que é curioso é que a cerveja e o chopp são servidos bem menos gelados do que no Brasil”, diz Luciano.

 O lago Llanquihue

Foram em seguida para Puerto Varas, ao lado do lago Llanquihue. A cidade lhes pareceu uma espécie de Campos do Jordão chilena, ainda mais bonita que a brasileira, com lagos e montanhas com picos nevados, música na pracinha e bons restaurantes. Resolveram utilizar Puerto Varas como base para percorrer a região: Puerto Montt, as pequenas cidades junto do lago, o Salto de Petrohué (no parque nacional Vicente Perez Rosales) e o lago de Todos os Santos. Eles recomendam aos que forem ao Chile conhecer essa região, de rara beleza.Essa é uma das poucas regiões do mundo onde existe o belo lápis-lázuli, pedra encontrado apenas no Chile e no Afeganistão. “É melhor comprar no Chile…”, brincam, mas advertem: “Há muitas falsificações”.

Chiloé

Outro lugar interessante, ainda mais para o sul, é a ilha de Chiloé. A travessia de ferry é muito bonita, com o oceano de um lado e a cordilheira sempre presente do outro. Durante a travessia, golfinhos costumam acompanhar as embarcações. No ferry, Luciano e Fabiano encontram brasileiros: um casal de Piracicaba (SP) que foi ao Chile de carro.

A volta a Santiago

A volta à Santiago foi feita numa paulada só: eles tinham descido muito para o sul e precisavam regressar a Santiago a tempo de pegar o avião. Por terem que percorrer centenas de quilômetros em um só dia, foi cansativo. Luciano sugere a quem for ao sul do Chile de carro deixar Santiago para ser visitada na volta, já que se tem mesmo que passar por lá para pegar o avião de volta para o Brasil” “Numa viagem tão longa, podem ocorrer problemas. E basta um pequeno atraso para perder o avião!.

Uma viagem recomendada

Na opinião de Fabiano, essa é uma viagem recomendada tanto para famílias quanto para grupos de amigos ou casais. Ele acredita que os incidentes no Vulcão Villarica só aconteceram porque os dois abusaram um pouco da sorte e não estavam preparados para a aventura. Ele recomenda aos que curtem vinhos que experimentem o produto local em cada região, como fizeram os dois. “São geralmente muito bons”. Luciano acha que o Chile é uma viagem indicada para aqueles que gostam de natureza, paisagens, boa comida e bons vinhos, podendo ser também uma ótima opção para o turismo de aventura.

Informações práticas

Como ir

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