De Manhattan a Caruaru

De Manhattan a Caruaru

Bebel Enge, julho de 2016

Sonhei que estava atravessando o Viaduto do Chá em direção ao Theatro Municipal, em São Paulo, e quando cheguei ao que seria a Praça Ramos, estava na 5ª Avenida, esquina com a Rua 59, bem no ângulo do Central Park. Segui em frente e virei à esquerda na 7ª Avenida, onde, para minha surpresa, tinha sido inaugurada o que parecia uma rodoviária, mas, chegando mais perto, vi que ali havia aviões. Um aeroporto bem ali? Que loucura. Acordei no quarto de um hotelzinho de três estrelas ao lado da rodoviária de Caruaru, interior de Pernambuco, onde havia chegado tão cansada na noite anterior depois da viagem de ônibus desde Recife que não tive coragem de sair.

A sala de café da manhã só não estava deserta pela presença do garçom já bem idoso, seu Francisco. No buffet, macaxeira, batata doce, banana cozida e quitutes como “bolo engorda-marido” faziam contraponto ao pão integral, iogurte e frutas que só deviam estar ali para paulistas chatas como eu. Em uma das paredes, destacava-se uma xilogravura intitulada A Psicanalista, do famoso J. Borges, craque nesse gênero artístico. Foi pena que nem em Caruauru nem, mais tarde, em Recife, eu tenha conseguido encontrar outra tiragem dessa gravura, a mais interessante que vi durante a viagem. Coisa para Freud nem Jung botarem defeito. Enquanto eu a admirava, seu Francisco veio alertar:
Dona, o pão que a senhora pôs na torradeira estava queimando.
– Ué, seu Francisco, e essa torradeira não desliga sozinha quando a torrada fica pronta?
– Desliga não, Dona. Pra desligar, tem que tirar o fio da tomada
– e apontou para a dita cuja na parede, da qual ele já tinha desligado o aparelho.

Ah, bom.

Hora de conhecer o lado turístico de Caruaru! Rumamos, de táxi, ao Alto do Moura, um morrete a cerca de 8 km do centro onde há décadas se concentram os artesãos que trabalham com barro. O mais conhecido deles, precursor da arte figurativa em barro, foi Mestre Vitalino, que morava em um casebre de adobe na via principal do morro. Sua casa é hoje um museu – um nano-museu, eu diria – cujo interesse não está nas obras do mestre, pois nenhuma fica exposta ali, mas na cosntrução em si. Pequenina, modestíssima, chão de terra, é um exemplar bem conservado de moradia típica do lugar. Foi erguida pelo próprio Vitalino, que ali morreu de varíola em 1963.

Saí da casa do mestre pela porta da cozinha e sentei-me em um banco nos fundos do quintal. Ali fiquei olhando a casinhola, pensando na triste miséria do meu país, onde aquilo é uma habitação. Onde, apenas quatro anos antes de eu nascer, morria-se de varíola. De varíola! O corre-corre de um lagarto que procurava – e encontrou – um vão abaixo das telhas da casa tirou-me do devaneio.

Para não sucumbir na aflição, o jeito foi voltar ao presente, visitando os ateliês dos artesãos vivos e produtivos de Caruaru, todos nas redondezas. A simpatia de Cícero me conquistou! Ele trabalha sozinho em um pequeno cômodo estreito e fundo quase em frente à casa-museu, onde cria peças de alta qualidade artística com técnica que, logo se vê, não tem nada a ver com aquela empregada na confecção dos suvenires feitos às pressas, vendidos em lojinhas de lembranças para turistas. Já esteve em Cuba dando aulas em oficinas de artesanato em barro e aceitou novo convite para ensinar sua técnica, dessa vez em Lisboa, para onde irá em outubro.  Disse estar muito curioso para conhecer as cerâmicas portuguesesas. Eu também estou curiosa para saber do encontro dele com os artesãos lusos. O que vai sair desse intercâmbio cultural?

Chegada a hora de dar tchau ao Alto do Moura e ir conhecer a Feira de Caruaru, que dá fama à cidade, cadê táxi? Nem unzinho. Nem cheiro. Nem chamando pelo aplicativo. Neste momento não há motoristas disponíveis. Por favor, tente mais tarde.

Debaixo de um sol de rachar – sol de inverno, ainda bem, imagino o de verão – e com quase tudo fechado pela chegada do horário de almoço, o jeito foi perguntar para a mocinha que atendia em uma loja onde se tomava ônibus para o centro.

Ônibus não tem. Tem Toyota.

Toyota? Como assim? Nem deu tempo de pensar.

Olha a Toyota encostando aí, moça!

Quando vi, já estava sentada em um banco lateral na boleia do bicho, um veículo velho com duas fileiras de assentos voltados para frente, já lotados quando subimos, e os tais bancos perpendiculares atrás. Estranhamente, quase todos os passageiros eram mulheres. De homem na Toyota só o motorista, o meu namorado e um morador local que subiu com a mulher logo depois de nós.

A senhora sentada à minha frente explicou que a passagem de R$ 2,60 por pessoa – caríssima pelo serviço oferecido! – deveria ser paga diretamente ao motorista quando descêssemos. Para chegar à feira, era só descer na “parada terminal”, “drobar” à direita e atravessar a ponte.

A dita “parada terminal” não era mais do que uma fila de Toyotas mal alinhada ao meio-fio de movimentada rua no centro comercial da cidade. Nem sinal da feira. Na dúvida, meu namorado entrou em uma farmácia para confirmar a informação. Enquanto eu esperava na porta, fui abordada com indignação por um senhorzinho que usava muletas.

Ele foi pedir informação, é? – apontando para dentro da farmácia.
Foi, sim senhor.
Mas por que não pediram informação para mim? Eu moro aqui há 65 anos! Eu sei dar informação melhor do que qualquer pessoa nesta cidade! Essa menina aí (ele se referia à jovem balconista da farmácia) não sabe é de nada! É na feira que a senhora quer ir?

O fato é que tanto o cidadão em busca de conversa quanto a moça da farmácia disseram o mesmo que sua conterrânea: era só “drobar” à direta e passar por uma ponte. Foi aí que eu me dei conta que o “drobar” não era problema de dicção da companheira de Toyota e sim um regionalismo.

Esclareça-se que a feira que procurávamos não era a de roupas, paraíso dos atacadistas do Nordeste e de todo o Brasil; um mega Brás, em termos paulistas. Essa fica do lado direito depois de cruzar a ponte. A feira de artesanato de Caruaru é formada por uma infinidade de boxes e barracas, do lado esquerdo. Ali, encontramos quase tudo o que procurávamos: sandálias de couro, toalhas de mesa, toalhas de bandeja, peças de artesanato em madeira, roupas de algodão puro, xilogravuras. Só a Psicanalista, que tanto queria, não achei.

A fome batia forte no estômago do meu namorado, mas nem tanto no meu. Aí descobrimos: comer na feira de artesanato é para os fortes! Só estava aberto o Bar do João, um boteco onde não há cardápio: você pode escolher, diretamente da churrasqueira, boi, bode ou linguiça de frango; ou ainda, se quiser “ensopado”, tem de boi e de bode. Para acompanhar, salada, arroz e feijão. (Eu só comi metade de uma linguiça de frango e mesmo assim me arrependi durante dois dias.) Mas parece que os ensopados não fazem sucesso, pois a maioria só tomava cerveja e quem comia só comia os grelhados. Honrosa exceção a dois homens gordíssimos de bermudas e boné que misturavam caninha Pitu com Coca-Cola sem nada comer.

Culinária à parte, o Bar do João é um show. Não passa de um grande toldo que cobre a churrasqueira e muitas mesinhas de plástico, acoplado a um dos boxes da feira de onde, presumo, saem os tais “ensopados”, os acompanhamentos e a cerveja. Frequentado 99% pelos moradores da cidade, quase todos de classe média, estava lotado naquele almoço de sábado, quando cantores acompanhados por teclado eletrônico se revezavam no microfone, sob entusiasmados aplausos dos comensais. Rolou Fagner, Gil, Roberto Carlos e até uma abreviadíssima versão em português de Hey Jude. Foi só uma estrofe e já veio o na-na-na-na.

Precisávamos de dinheiro para o táxi. A “garçonete” do Bar do João, uma senhora de jeans justíssimo, camisa estampada e salto agulha de uns 15 cm, alertou: o caixa eletrônico mais próximo ficava em uma galeria comercial ao lado da feira de roupas que fechava às 15h aos sábados. E para lá nós fomos. Na entrada da galeria, de frente para a rua, a vitrine de uma sex shop. O Banco 24 Horas, que existia mesmo e estava funcionando, ficava nos fundos, bem ao lado de um esgoto a céu aberto de odor inesquecível. Bem, o caixa eletrônico funcionava, mas o banheiro não, e a comida do Bar do João não tinha dado conta do recado. Comecei a pensar onde, diabos, poderia comer e usar toalete decente sem ter que voltar ao hotel, e uma ideia que pareceu mirabolante, mas não de todo absurda, passou pela minha cabeça: será que tem shopping center nesta cidade?

Botei o Google Maps para trabalhar. Tem shopping em Caruaru, sim. Na rua das feiras, foi facílimo tomar táxi; havia um ponto em frente ao sex shop. O carro, um vetusto Fiat Elba que nos fez lembrar o Collor, caía aos pedaços. O motorista, idem. Mas ambos deram conta do recado e nos levaram até o shopping, onde chegamos inteiros.

O tal do shopping tinha uma fachada bem moderninha, ar condicionado a mil e público vestido para matar. O pessoal vai mais arrumado lá do que eu vou trabalhar em São Paulo. Ninguém estava “mal vestido” como eu, com meus vergonhosos moletom, camiseta e tênis, esses trajes de férias. Pela entrada principal, tive acesso aos corredores com lojas Calvin Klein, Adidas, Santa Lolla, M. Officer, Arezzo, NYX, Forum… Fiquei contentíssima ao encontrar sorvete de chocolate dietético! (Não estou podendo comer açúcar.) Na praça de alimentação, Bob’s, Subway, Mc Donald’s. No hipermercado, onde fui comprar água mineral, Perrier era uma das marcas na prateleira. Quase fiz as unhas e escova nos cabelos em um salão em que só se usam produtos Kérastase, mas o tempo era curto até o horário do ônibus para Recife. Tive medo de perder a hora.

Foi então que me lembrei do que havia sonhado naquela noite e comecei a achar que estava de volta ao sonho – e a Manhattan. Que coisa é a globalização…