A Bélgica na mira do terrorismo

Bélgica: na mira terrorismo, um novembro sangrento

Matéria de Ana Laura Visentini

Um novembro sangrento: assassinatos em Paris e toque de recolher em Bruxelas, preocupação no mundo todo.
Há pouco mais de uma semana dos atentados na França, que vitimaram 129 pessoas e mudaram para sempre a memória dos franceses, os moradores da Bélgica, país vizinho, enfrentam a maior ameaça terrorista da história, trancafiados e acuados em suas casas à espera de informações. O que era para ser um “evento” da França transformou a capital belga em palco principal do terror, após a polícia francesa identificar alguns dos terroristas como belgas, convertidos ao islã, e residentes de uma das comunas da capital, Molenbeek Saint Jean, localizada a 3 km do centro histórico bruxelloise e reduto de imigrantes magrebinos.

Mapa da Bélgica

Após as notícias serem veiculadas na mídia mundial, o nível de ameaça subiu de 3 para 4 na capital belga, o que requer a aplicação de medidas específicas de segurança e recomendações para a população. No restante do país, o nível segue em 3. Indícios mostram que alguns dos terroristas de Paris viajaram à Bruxelas, após o ocorrido, e a polícia está trabalhando, 24h por dia, para capturá-los. Isso significa que a cidade está em tensão máxima, sob risco iminente de ataques terroristas, segundo o Centro de Crise do país.

Tanques de guerra, polícia civil e militar fazem parte, agora, do cenário local e as ruas próximas ao centre-ville estão fechadas, servindo como base para o aparelhamento policial, repórteres de várias partes do mundo e alguns curiosos que insistem em avaliar a situação.
No sábado, 21, ainda pela manhã, a polícia comunicou-se com as prefeituras comunais (ao todo, dezenove), e com os lojistas e donos de restaurantes da cidade, pedindo que baixassem as grades dos estabelecimentos e que liberassem funcionários para que fossem para suas casas. O mesmo ocorreu com o transporte público. No momento atual, os metrôs estão parados e suas estações com as portas cerradas. A maioria dos trans (trens de superfície, parecidos com bondes) e ônibus também não estão circulando, e a população não tem como fazer longos deslocamentos dentro da cidade.

Para a população, a notícia mais chocante ocorreu no domingo à noite, com um comunicado do Primeiro-Ministro da Bélgica, Charles Michel, após a polícia manter uma forte ação em vários pontos da cidade, em que 21 pessoas acabaram presas. A ordem foi para que todos os cidadãos permanecessem em suas casas; também foi pedido o fechamento de todas as creches, escolas e universidades, bem como dos supermercados, até que a situação de risco diminua e a busca incessante por um dos terroristas dos atentados em Paris, morador de Molenbeek, termine.

Mas o que nós, brasileiros e moradores de Bruxelas, podemos pensar a respeito de tudo o que está acontecendo? Já estamos há quatro dias parados. As instituições seguem fechadas, sirenes e policiamento ainda são intensos e as informações que “chegam até nós” não são conclusivas, apesar do Centro de Crise e das TVs locais fazerem de tudo para transmitir a melhor informação. Até quando seguiremos amedrontados em nossas casas? Até quando a cidade vai conseguir manter-se em toque de recolher, com fechamento de escolas e aconselhando aos cidadãos que não andem pelas ruas e não frequentem locais de grande aglomeração?

O fato é que a situação na Bélgica nada tem em comum com as situações de risco que vivemos no Brasil. Desde que cheguei aqui, em março de 2015, eu já sabia que a capital do país mantinha o nível 3 de alerta, pelo fato de ser a capital, também, da Europa e sede do aglomerado de prédios da União Europeia, com seus burocratas e membros da comissão. Hoje, estamos em estado de alerta contra o terrorismo, na Europa. Foi um fato insólito, sem precedentes a agressão a cidadão comuns europeus. No entanto, assaltos, estupros e assassinatos não são comuns por aqui.

Como moradora da Bélgica, estou seguindo e sendo conduzida por informações policiais que sinto serem necessárias para o bom andamento da investigação e para a nossa segurança como bruxelloises. Aqui em Bruxelas, me sinto segura, apesar de todas as informações que estão chegando ao Brasil sobre Molenbeek. Há sim, um perigo constante e real sobre novos atentados a lugares públicos e estamos nos mantendo “reféns”, em uma cidade livre, por opção. As regras não são obrigatórias e as pessoas têm o livre arbítrio para fazerem o que bem entenderem por aqui. Porém, seguimos e acatamos os pedidos do Centro de Risco por cautela, e para que nada de ruim nos aconteça.

Em paralelo, muitos cidadãos belgas estão incomodados e reclamam do toque de recolher, apesar de estarem amedrontados e receosos com o terrorismo, mas a vida tem de seguir. Em entrevista à TV local, alguns demonstraram insatisfação, e consideram a ação um exagero da polícia belga. Eles esperam que, a partir de amanhã, tudo volte ao normal. Que os transportes voltem a funcionar e que as escolas possam receber seus filhos como anteriormente. Em Paris, cenário do massacre do dia 13 de novembro, na última sexta-feira, muitos jovens decidiram sair às ruas em bares para se divertir, enfrentando a situação de alto risco, também, e para não sucumbirem ao terror.

O que espero, a partir de agora, é que as ações policiais tenham efeito positivo no combate ao terror vivido em Paris, para que outras vidas e sonhos não sejam apagados covardemente. Também, espero poder, novamente, andar pelas ruas da Europa e da Bélgica com segurança, sem medo da violência que se espalhou, por aqui, nos últimos dias. Afinal, foi isso o que vim buscar no país.

Sobre a autora da matéria

Ana Laura Visentini, uma moça de espírito aventureiro, mudou-se para a Bélgica para vivenciar novas culturas, aprender a língua local e adquirir conhecimentos. É pós-graduada em Moda, Mídia e Inovação e seus destinos preferidos são “aqueles que enchem os olhos”, estimulando sua imaginação e seu intelecto. Para contar suas experiências, criou o blog Alto Baixo Bélgica.

Ana Laura também é autora do texto “A Experiência de uma brasileira na Bélgica“,  “Louvain”, “Bruges” e “Bélgica: na mira do terrorismo