A Vaca na Estrada
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ISBN 978-85-99081-15-0

A vaca na estrada

Uma mega-aventura por desertos, montanhas, planícies, aldeias e cidades da Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão, Índia e Nepal. Relatos de experiências ímpares, que não seriam possíveis no mundo de hoje. Mitos, castas, política, costumes, islamismo, Budismo, Hinduísmo, Ocidente, Oriente, guerra, paz, liberdade, opressão, vida, morte tolerância, discriminação, modernidade, violência, progresso, sonhos.

Trechos do livro

Ir de Paris ao Nepal de carro

Certa tarde de verão, quando caminhávamos pelo Quartier Latin, Bernard perguntou:
— O que você acha de irmos até o Nepal de carro?
Fiquei sem reação. Ele falara num tom displicente, como se dissesse: “Que tal ir a Versalhes domingo que vem?” A ideia me hipnotizava, ia ao encontro de meus planos, era tudo o que eu queria! Desejava conhecer a Ásia, mas não tomar um avião e desembarcar na Índia. Fiquei em silêncio. Não era aventura o que eu procurava? Eu teria desejado ficar mais tempo em Paris. Um mês pelo mesmo. Mas, se não aproveitasse aquela oportunidade, quando teria outra? Iria depender de transportes públicos, viajaria sozinho e talvez gastasse muito mais. Não tomei mais do que alguns minutos para me decidir. Era pegar ou largar.
— Vamos.

Festa islâmica

Naquela ocasião, a festa tinha sido comum para os padrões brasileiros até o momento em que o noivo e a noiva se trancaram em um quarto. Ficamos sabendo que o casal fora para o quarto “consumar o ato”, conferindo validade ao casamento. Entreolhamo-nos sem entender direito o significado daquilo, até que, meia hora depois, o noivo saiu do quarto orgulhoso, com o lençol manchado de sangue, a prova da virtude da moça, de sua virgindade. Depois, o lençol foi levado à janela e pendurado para que as pessoas que passavam na rua pudessem vê-lo. Estávamos pasmos.

O regime xiita

Anos depois, Bernard me contou que seu amigo iraniano e quase toda a turma dele foram presos pelo regime xiita ou estavam novamente exilados em Paris ou em Londres.
É triste que, seja sob os xás ou os aiatolás, pouco ou nada tenha mudado. Mais de três décadas depois, enquanto escrevo este livro, o Irã não sai do noticiário internacional, ora por suspeitas de fraudes eleitorais, ora pela prisão arbitrária e execução de oposicionistas, ora pela violência contra mulheres e homossexuais. Sem falar na polêmica questão nuclear, que dá pano para manga.

Casamento afegão

Mulheres afegãs eram raras, sempre com o rosto coberto com um véu na altura dos olhos, ou ainda, o corpo inteiro escondido, da cabeça aos pés, sob uma vestimenta negra, a burca. Não havia nem mesmo uma abertura para os olhos, mas apenas uma renda que lhes permitia enxergar alguma coisa — ou a sombra de alguma coisa. A impressão que me causou esse apartheid sexual foi, confesso, bem desagradável. Os afegãos não perceberam que a convivência entre homens e mulheres e a liberdade da mulher é boa para ambos os sexos.
— Em meu país ninguém reclama de mulher com pouca roupa — disse eu, em tom de brincadeira, para o afegão dono do hotel onde estávamos hospedados.
— É, mas não são mulheres para casar — respondeu ele.
— Não para casar com afegãos — corrigi.

Rumo ao Paquistão

Procuramos avançar o mais rápido possível para chegar a Rawalpindi. Porém, diferentemente do que ocorria no desértico Afeganistão, no Paquistão havia gente em toda parte: nos campos, nas cidades e nas estradas, onde pessoas e animais cruzavam a via. Passávamos por aldeias e cidades superpovoadas. As ruas, os bares, os mercados e as calçadas estavam sempre lotados. Gente demais nos cansava. Preferíamos os desertos, esses grandes vazios cortados pelo vento.
Hoje os parsis são mais conhecidos no Ocidente por causa de um rito fúnebre algo macabro.

As Torres do Silêncio de Bombaim

Seus mortos são depositados no topo de altas torres para serem devorados por abutres. São as sinistras Torres do Silêncio. A entrada de pessoas nos recintos parsis de Bombaim é proibida e só os encarregados dos corpos têm acesso ao topo das torres. Calculo que devem ter estômago forte, já que as cenas devem ser simplesmente horríveis.

O terraço dos filósofos

Duas australianas habituées do terraço gostavam de falar de suas vidas passadas. Uma delas me garantia que, ao fazer uma regressão, descobrira que tinha sido uma princesa egípcia. A amiga dela fora uma sacerdotisa grega. Lembro-me que no final dos anos 1980 muita gente no Brasil “fazia regressão”. Virou moda. Cada “regressado” tinha lembranças de vidas anteriores como um nobre romano, uma princesa inca, um rei persa. Ninguém aparentemente tinha sido um ladrão, uma prostituta, um servo, um escravo ou um peão. Cheguei a levantar essa questão para as duas australianas, que me explicaram que a ralé não tem lembranças significativas de vidas anteriores porque essas recordações são banais. Em Katmandu, todos tinham resposta para tudo…

Sobre o autor

Lúcio Martins Rodrigues, graduado pela Seção de Ciências Econômicas e Sociais da École Pratique des Hautes Études de la Sorbonne, em Paris, é escritor, editor, co-autor de títulos da série GTB de guias de viagem e administrador de sites de turismo.
Viajante inveterado, já percorreu mais de 60 países nos cinco continentes, entre eles Peru e Bolívia. A história da conquista do Império Inca pelos espanhóis motivou o antigo projeto, hoje realizado, de escrever a respeito desses fatos. Sua principal aventura foi uma viagem de carro de Paris ao Nepal na década de 1970, atravessando a Turquia, o Irã, o Afeganistão, o Paquistão e a Índia. Essa e outras viagens pelo Oriente deram origem a outro livro: A Vaca na Estrada, um relato de viagem que aborda os costumes e a cultura desses países.

Gosta de ler sobre viagens? Então não perca esta!

 Putzgrila A aventura de uma brasileira pelo mundo: Europa, Oriente Médio, Norte da África, América do Sul e Ásia.