A paz no Oriente Médio
Marcha da Paz, Assis, Itália
Marcha da Paz, Assis, Itália

Uma visita inesperada

Durante alguns meses em que morei em Ubatuba (há mais de vinte anos), recebia no sábado à noite minha namorada que chegava de São Paulo no último ônibus, por volta de 23 horas. Daquela vez, porém, ela chegou à minha casa acompanhada de um casal estrangeiro. Explicou que os dois, que pretendiam conhecer Ubatuba, estavam descendo em Paraibuna no meio do caminho. Ninguém conseguiu explicar-lhes nada. Os dois falavam uma língua completamente estranha para nós. Porém minha namorada dirigiu-se à moça em francês e descobriu que a garota falava bem essa língua. Pode então lhe explicar que Ubatuba ficava ainda distante.

Aí foram conversando a viagem toda e soube que eram israelenses. Quando desembarcaram em Ubatuba o casal não sabia para onde se dirigir e ela os convidou para dormir em minha casa. Ficaram supresos inicialmente, mas se sentiram mais à vontade quando minha namorada lhes explicou que minha casa estava sempre aberta a mochileiros do mundo todo e que eu estava acostumado a receber franceses, italianos, argentinos e gente de outros países, que tinham meu endereço, fornecido por outros confrades da estrada a quem eu passara meu contato.

Fizemos uma ceia os quatro, acomodei-os e disse-lhes que poderiam ficar o tempo que quisessem. Assim, passamos uma semana indo a praia, tomando banho de cachoeira e visitando lugares próximos, como Paraty. Inevitavelmente acabamos discutindo a situação no Oriente Médio. Foi quando descobri que o casal integrava um grupo pacifista.

O mundo é de todos

O mundo é de todos: brancos, negros, orientais, muçulmanos, judeus, cristãos, budistas, ateus, agnósticos, africanos, europeus, americanos do norte e do sul, asiáticos, índios e esquimós. Todo ser humano tem que ser respeitado. A terra é dos homens e também dos animais que não devem ser alvo de crueldades. Não existe raça superior”, nem “povo escolhido”. Somos todos humanos com nossas diversidades culturais.

A paz e o fim do terrorismo podem estar ligados à solução do conflito no Oriente Médio
Posteriormente, viajei na Tailândia com um israelense e ficamos muito amigos. Eu tive, em Paris, onde morei vários anos, e também no Brasil, muitos amigos judeus. Depois assisti em Assisi (Assis), na Itália, à Marcha da Paz, organizada por judeus e palestinos. O que eu percebi foi que muitos israelenses pacifistas, pessoal “do bem”, estão convencidos, como eu, de que o fanatismo islâmico se beneficia da cegueira política israelense em implantar e manter colônias em território alheio, descumprindo resoluções da ONU e ignorando a opinião pública internacional. Isso é um tapa na cara de todo muçulmano, da Palestina ao Paquistão. Não vamos simplificar: mesmo que Israel se retirasse dos territórios ocupados, o terrorismo não desapareceria. Mas a ONU e a opinião pública internacional parecem crer que, em boa parte, o fim do terrorismo está ligado à solução do conflito israelense-palestino. Infelizmente, o novo governo norte-americano do caricato Donald Trump tem apoiado a extrema-direita instalada no governo israelense e apoiada a instalação de novas colônias nos territórios ocupados. Quero lembrar que o próprio Papa Francisco, um homem esclarecido e a comunidade internacional em peso condenaram a ação de Trump.

Obama e Trump

Obama esteve pessoalmente com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu (só falta o bigodinho no homem), pressionando para que não instalasse novas colônias nos territórios palestinos, mas não teve sucesso. O lobby israelense no congresso americano é muito poderoso. Agora com o governo Trump, esse lobby foi reforçado. Israel está engolindo territórios que a ONU e a comunidade internacional sempre considerou como palestinos. O radicalismo direitista do governo israelense só vai prejudicar qualquer processo de paz no Oriente Médio.

Um assassinato para sabotar o processo de paz

A desocupação dos territórios palestinos seria um grande passo para a paz que, aliás, estava quase sendo alcançada quando a extrema direita judaica assassinou o líder israelense Yitzhak Rabin, um homem sensato que sempre mereceu minha admiração. Foi um assassinato para sabotar a paz.

Alimentando o antissemitismo

A política israelense, mais belicosa quando o Likud, apoiado por outros partidos ultrarreligiosos, está no poder, só contribui para aumentar a reprovação internacional a Israel e alimentar o antissemitismo. Convém lembrar que os antissemitas são aqueles mesmos grupos neo-nazistas que agridem negros, nordestinos e homossexuais.

Fortalecendo os radicais e o incentivando o terrorismo

O fato é que postura israelense enfraquece os palestinos moderados e fortalece os radicais. Quanto mais violências o exército israelense comete na Faixa de Gaza, maior é o apoio da população local ao Hammas. Da mesma forma, quanto mais os palestinos lançam foguetes contra Israel, mais a população israelense apoia a direita radical, na ilusão de que poderão protegê-los. É ódio gerando ódio.

O terrorismo de Estado versus terrorismo de grupos radicais

No confronto armado, Israel, com um exército moderno e bem equipado, leva vantagem. Para cada israelense morto, morrem dezenas de palestinos, a maioria deles, civis e um número enorme de crianças. Pode-se entender (mas não justificar) que um grupo terrorista cometa atentados contra civís, mas é inadimissível que um estado moderno, democrático, como Israel, pratique um terrorismo de estado muito mais mortífero contra uma população civil. Ao violar constantemente as decisões da ONU e reagindo com violência desproporcional aos ataques do Hammas, o país está com uma péssima imagem e não parece estar obtendo benefícios. Ao contrário, fortelece o terrorismo. É muito fácil recrutar como homem-bomba um homem que perdeu esposa, filhos, pais e todos seus bens nos ataques israelenses.

Cale a boca

Há algum tempo um ministro israelense emocionou-se ao ver uma velha senhora palestina recolhendo objetos do que sobrou de sua casa, destruída pela aviação israelense. Comentou que isso lhe lembrou sua avó fazendo o mesmo durante a ocupação de Varsóvia pelos nazistas. Ariel Sharon, Premier na época, outro fascistoide coo-responsável pele massacre dos campos de refugiados palestinos no lÍbano, mandou-lhe que calasse a boca…

O que o mundo pensa de Israel

Mesmo atento ao que se passa no mundo, fiquei surpreso com o resultado de uma pesquisa realizada em 2010 pela BBC World Service, com mais de 29 mil pessoas em 28 países, a respeito de qual nação era considerada pelos entrevistados a influência mais negativa no mundo. O troféu coube ao Irã (um regime odioso), seguido de perto pelo Paquistão, pela Coreia do Norte (uma ditadura execrável) e por Israel. Também me surpreendeu outra pesquisa, do Comitê Judaico Americano: 84% dos judeus norte-americanos não ortodoxos com menos de 40 anos não se sentem próximos a Israel.

Corajosos pacifistas, os justos de Israel

No plano internacional, Israel começa a perder aliados importantes como a Turquia e outros países muçulmanos moderados. Nos Estados Unidos, apesar do poderoso lobby judaico no Congresso e na imprensa, cada vez mais pessoas acham que o apoio incondicional a Israel está sendo um mau negócio. Internamente ocorre uma crescente polarização: corajosos movimentos pacifistas israelenses, acusados com frequência de serem traidores, começam a mostrar as caras, enquanto aumenta no exército a porcentagem de oficiais ligados a partidos religiosos radicais. Há inclusive grupos israelenses que ajudam os palestinos a reconstruir suas casas destruídas pela aviação do Likud.

Uma mensagem para se pensar

Gostaria de passar essa mensagem aos que confundem as coisas: você pode ser antissionista, não aceitar a ocupação dos territórios palestinos, detestar o Likud, partido de extrema direita, mas não estenda sua condenação aos judeus e nem mesmo aos israelenses em geral. O antissemitismo é inadmissível. Vejam, por exemplo os filmes que costumo indicar no face sobre o sofrimento dos judeus durante o nazismo: O Pianista, A Chave de Sarah, O Menino do Pijama Listrado (do mesmo modo que indiquei o premiado Valsa com Bashir, de um diretor israelense que apoia os movimentos pacifistas). Em resumo, os judeus são um bravo povo e merecem meu respeito, mas muitos deviam abrir os olhos e perceber que é inadmissível o bombardeio, com poderosos mísseis modernos, de um prédio de apartamentos onde moram famílias com crianças (25 foram assassinadas nesses bombardeios). Pior: estão usando fósforo branco, uma arma condenada pela ONU.

Foguetes contra os territórios ocupados

Há quem diga: e os palestinos não atiram foguetes contra os territórios ocupados? Sim, atiram. Quem sabe parassem de fazê-lo se Israel desocupasse seu território como a ONU recomenda?
Enfim, estamos assistindo ao crescimento da violência apoiada no radicalismo religioso de parte a parte, atrás do qual se escondem interesses ecônomicos e geopolíticos.

As religiões têm causado mais sofrimento do que as ideologias radicais

Os reis da Espanha Fernando de Aragão e Isabel, a Católica, bem como a Inquisição Católica portuguesa mandaram um número incontável de judeus para a fogueira. Fanáticos muçulmanos provocaram atos terroristas abomináveis. Os governos direitistas de Israel continuam a massacrar a população civil palestina. Há pouco tempo protestantes e católicos praticavam o terrorismo contra civis. E as cruzadas? O maior crime organizado da história. Digam-me: já viram em algum jornal uma manchete do tipo “Agnósticos ou ateus radicais provocam atentados terroristas” ? Por que tantos crimes são cometidos em nome de Deus? Não podem cristão, judeus e muçulmanos viver em paz? Por que esse ódio todo? Por essa razão minha simpatia se volta para os budistas: não matam ninguém, não perseguem ninguém, respeitam aos outros seres humanos.

As resoluções da ONU

Desde que a Palestina foi dividida pelas Nações Unidas em dois Estados em 1947, um judeu e o outro palestino, a ONU adotou as seguintes resoluções sobre este conflito: (fonte: Site Terra Notícias, 22/9/2011)

29 de novembro 1947– Resolução 181 (Assembleia Geral).- Aceita, apesar da oposição da Liga Árabe e dos palestinos, a criação de dois Estados, um judeu e um árabe, no antigo protetorado britânico da Palestina, com Jerusalém sob mandato internacional.

11 de dezembro 1948.- Resolução 194 (Assembleia Geral).- Estabelece que os refugiados têm direito a retornar a suas casas, agora em território de Israel, ou a receber uma indenização caso não desejarem voltar.

11 de maio 1949.– Resolução 273 (Assembleia Geral).- Israel é admitido como membro da ONU.

9 de dezembro 1949– Resolução 303.- “Jerusalém será administrada pelas Nações Unidas sob um regime internacional”.

22 de novembro 1967.- Resolução 242 (Conselho de Segurança). Pede a retirada de Israel dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias e “o reconhecimento da soberania, integridade territorial e independência política de todos os Estados da região e seu direito a viver em paz”.

19 de dezembro 1968.- Resolução 2443 (Assembleia Geral). Exige que Israel “desista de destruir casas de civis” nas áreas ocupadas e expressa sua preocupação “pela violação dos direitos humanos”.

22 de outubro 1973.- Resolução 338 (Conselho de Segurança) .- Pede o cessar-fogo aos participantes da Guerra do Yom Kippur (quando Síria e Egito atacaram Israel) e o cumprimento da Resolução 242 do Conselho de Segurança.

10 de novembro 1975.- Resolução 3379 (Assembleia Geral).- “O sionismo é uma forma de racismo e de discriminação racial”. Foi cancelada em 17 de dezembro de 1991.

22 de março 1979.- Resolução 446 (Conselho de Segurança).- A política israelense de promover “assentamentos nos territórios palestinos e árabes ocupados não tem validade legal e constitui um sério obstáculo” para a paz no Oriente Médio.

5 de junho 1980.- Resolução 471 (Conselho de Segurança).- Condena o atentado contra os prefeitos de Nablus, Ramala e Al-Bireh e solicita a imediata prisão dos assassinos.

7 de janeiro 1992.- Resolução 726 (Conselho de Segurança).- Condena a deportação de 12 palestinos por Israel.

18 de dezembro 1992.- Resolução 799 (Conselho de Segurança).- Condena a deportação de centenas de civis palestinos e exige seu “imediato retorno”.

19 de março 1994.- Resolução 904 (Conselho de Segurança).- Condena o massacre de 29 palestinos na mesquita de Hebron e exige presença internacional na Cisjordânia e em Gaza para proteger os palestinos.

13 de março 1997.- Resolução 51/223 (Assembleia Geral). Aconselha Israel a não construir assentamentos nos territórios ocupados, especialmente em Jerusalém.

9 de fevereiro 1999.- Resolução 10/6 (Assembleia Geral).- Condena o descumprimento das resoluções da ONU por Israel e pede a interrupção dos assentamentos.

12 de março 2002 .- Resolução 1397 (Conselho de Segurança).- Apoia “o conceito de uma região em que dois Estados, Israel e Palestina, vivam um ao lado do outro dentro de fronteiras seguras e reconhecidas” e exige o fim da violência.

30 de março 2002.- Resolução 1402 (Conselho de Segurança).- Pede a Israel a retirada das cidades palestinas, incluindo Ramala, onde os escritórios de Arafat estão sendo bombardeados.

24 de setembro 2002.- Resolução 1435 (Conselho de Segurança). Exige que Israel acabe com o cerco a Arafat e que se retire às posições anteriores à Segunda Intifada (28 setembro 2000).

3 de dezembro 2002.- A Assembleia Geral aprova seis resoluções: três referentes a organismos criados pela ONU para amenizar a situação dos palestinos, uma sobre Jerusalém, outra sobre as Colinas de Golã e uma última sobre a solução pacífica do conflito.

15 de abril 2003.- A Comissão dos Direitos Humanos da ONU condena Israel por violar os direitos humanos nos territórios ocupados e pela “restrição dos movimentos” de Arafat.

19 de setembro 2003.- Resolução 10/12 (Assembleia Geral). Exige o fim da violência e que Israel não deporte ou ameace a integridade de Arafat.

21 de outubro 2003.– Resolução 10/13 (Assembleia Geral). Pede a Israel a eliminação do muro que constrói em território palestino.

19 de maio 2004.- Resolução 1544 (Conselho de Segurança).- Condena Israel pelos massacres dos últimos dias em Gaza.

21 de julho 2004 .- Resolução 10/15 (Assembleia Geral).- Exige que Israel cumpra a sentença que declara o muro ilegal.

9 de janeiro 2009.– Resolução 1860 (Conselho de Segurança).- Pede a Israel e ao Hamas o cessar-fogo em Gaza, a retirada israelense e a entrada sem impedimentos de ajuda humanitária no território palestino.

16 de outubro 2009.- O Conselho de Direitos Humanos condena Israel e o Hamas por crimes de guerra durante a ofensiva de dezembro de 2008 e janeiro de 2009 em Gaza.

26 de fevereiro 2010.- A Assembleia Geral pede a Israel e aos palestinos que investiguem possíveis crimes de guerra em Gaza, denunciados em 2009 pelo relatório Goldstone.

24 de março 2010.- O Conselho de Direitos Humanos condena os assentamentos israelenses, defende a autodeterminação palestina e denuncia Israel por violação de direitos humanos nos territórios ocupados e nas Colinas de Golã.

2 de junho 2010.– O Conselho de Direitos Humanos condena Israel pelo ataque contra uma pequena frota humanitária que se dirigia a Gaza.